sábado, 9 de maio de 2020

Trump, Bolsonaro e a pandemia: dados mostram a influência dos líderes e as consequências de suas ações


Nesta semana o Brasil ultrapassou 9 mil mortes causadas pelo novo coronavírus, tornando-se o oitavo país do mundo com maior número de casos da covid-19 e o sexto em número de óbitos. Os dados podem ser ainda mais graves se levarmos em conta o problema da subnotificação devido à falta de testagem. No momento, os três países com maior número de mortos – Estados Unidos, Reino Unido e Itália – possuem algo em comum: todos têm governos de direita que abraçaram o negacionismo científico, negando os impactos do coronavírus até que os números explodissem.

A postura dos líderes vem sendo importante na estratégia de prevenção. Enquanto alguns têm se destacado positivamente na prevenção à pandemia, caso da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e da chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, outros, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, vêm recebendo críticas constantes da imprensa mundial [1]. Não se trata apenas do modo como esses líderes têm gerido a crise, mas do quanto são capazes de influenciar negativamente as sociedades das quais estão à frente com suas declarações e atitudes. Juntamente com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Trump e Bolsonaro figuram entre os três líderes mundiais mais populares nas redes sociais, o que é um indicativo do quanto esses chefes de estado são formadores de opinião [2].

Trump e o desinfetante

Trump desdenhou inicialmente da covid-19, foi reticente quanto à necessidade do isolamento social e, com frequência, politiza a pandemia chamando o coronavírus de “vírus chinês” [3]. Na medida em que os casos explodiram, reviu sua posição e passou a defender o isolamento. Entretanto, sua postura tem sido de altos e baixos. Há duas semanas, o presidente americano fez uma declaração sugerindo que profissionais de saúde poderiam testar injetar algum material desinfetante no organismo dos pacientes. Afinal, já que o desinfetante mata o vírus em diversas superfícies externas, por que não mataria dentro do corpo de alguém?

Logo em seguida à declaração, a cidade de Nova Iorque registrou um aumento no número de casos de intoxicação por desinfetante, segundo informações da rede americana NBC. O centro de controle de envenenamento da cidade recebeu 30 chamadas relacionadas à ingestão do produto nas 18 horas seguintes à sugestão do presidente, mais que o dobro do mesmo período no ano anterior, quando apenas 13 casos foram registrados [4]. Após sua declaração, Trump defendeu-se dizendo que estava sendo sarcástico. 

Pode ser que o aumento do número de casos de intoxicação seja apenas coincidência ou oscilação normal? Sim. Pode ser que Trump estivesse, de fato, sendo irônico ou sarcástico? Talvez. Mas o fato é que o uso de ironias e sarcasmos não costuma ser apropriado para líderes políticos, já que esse tipo de linguagem frequentemente gera dúbias interpretações e maior dificuldade de compreensão, confundindo a opinião pública. Entretanto, alguns especialistas em política e em linguística destacam que líderes como Trump se valem propositalmente desse tipo de linguagem imprecisa, uma vez que a ironia não se compromete com a verdade.  Sendo assim, essa linguagem escorregadia dá margem para que seu emissor deslize de um lado para o outro na medida em que é confrontado ou desmentido.

Quem explica esse tipo de uso da linguagem na política pela direita americana é a jornalista Michiko Kakutani, autora do livro A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump. Ela explica que o presidente americano levou a linguagem e o modus operandi das redes sociais para os pronunciamentos oficiais institucionais, mais especificamente os da Casa Branca. Trump, conforme diz Kakutani, age como um troll, usa a ironia e os memes como arma. 

Os comentários mais chocantes de cunho racista, sexista e perversamente cruéis vêm das redes socias (muitas vezes acompanhados de uma piscadela ou de um sorriso de sarcasmo). Quando repreendidos, os autores frequentemente respondem que estavam apenas brincando – do mesmo jeito que os assessores da Casa Branca dizem que Trump estava apenas brincando ou que foi mal interpretado quando faz comentários ofensivos.” [5]   

Bolsonaro influencia redução do isolamento, diz estudo 

No Brasil, a influência de Bolsonaro tem sido sentida de forma ainda mais dramática. Diferentemente de Trump, Bolsonaro tem se mantido firme contra o isolamento social e, mesmo depois da explosão de casos confirmados e de óbitos, o presidente brasileiro foi incapaz de rever sua posição. Inicialmente, chegou a chamar a covid-19 de “Gripezinha” e “resfriadinho”, acusando a imprensa de fazer “histeria”. Bolsonaro adotou uma narrativa segundo a qual existe um conflito entre a saúde e a economia, de modo que fazer isolamento social – a melhor medida segundo cientistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS) – seria prejudicial para a economia do país, destruindo empresas, gerando perda de empregos e provocando mais danos do que a pandemia em si.

Desde a chegada do vírus ao Brasil, Bolsonaro tem comprado uma briga com governadores e prefeitos brasileiros, que em grande parte optaram pelos estudos técnicos que apontam para a necessidade do isolamento social e da quarentena, ou mesmo do lockdown, em casos mais graves. O presidente frequentemente é visto em aglomerações, cumprimentando pessoas, contrariando as orientações de prevenção. Nesta semana, ele juntou um grupo de empresários e andou pelo Planalto até o STF para advogar em defesa da abertura do comércio e da retomada das atividades econômicas, mesmo com a explosão de casos confirmados e mortes. Em suma, diariamente Bolsonaro age como garoto-propaganda contra o isolamento.

Uma pesquisa publicada na última semana mostra que o desrespeito ao isolamento social foi maior em áreas onde Jair Bolsonaro tem mais eleitores [6]. A análise foi feita por meio de cruzamento de dados de localização geográfica de 60 milhões de aparelhos celulares e de informações eleitorais dos votos que o presidente recebeu na eleição presidencial em 2018. A pesquisa é um forte indicativo de que o trabalho de Bolsonaro contra as medidas protetivas, ou melhor, seu desserviço contra o isolamento, lamentavelmente teve algum efeito.

O artigo, assinado por dois pesquisadores brasileiros e um argentino, está disponível na internet, em inglês, com o título "More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior During a Pandemic" (Mais do que palavras: discurso dos líderes e comportamento arriscado durante a pandemia, em tradução livre).

Os pesquisadores separaram as regiões onde Bolsonaro é popular e impopular de acordo com a votação de 2018. Locais em que o presidente teve mais de 50% dos votos, a exemplo de cidades do Sul e Centro-Oeste, Sudeste e Norte, foram definidos como de apoiadores. Já as regiões onde Bolsonaro foi menos votado, como o nordeste, foram consideradas de não apoiadores. O resultado obtido mostra que após Bolsonaro pronunciar-se publicamente, de forma enfática, minimizando os riscos do coronavirus e desaconselhando o isolamento, as medidas de distanciamento social dos cidadãos em localidades pró-governo diminuíram em relação aos lugares em que o apoio ao presidente é mais fraco. Quem assina o trabalho são os pesquisadores Daniel da Mata, Ph.D em economia pela Universidade de Cambridge, Nicolás Ajzenman, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Cargas (FGV) e mestre em administração pública em Harvard, e Tiago Cavalcanti, professor da Universidade de Cambridge. Os autores pretendem concluir o levantamento e publicar o material até o final do ano.

Por conta dessa postura presidencial e do frequente embate e desencontro entre, de um lado, Bolsonaro, e, de outro, governadores e prefeitos, o isolamento social no Brasil até o momento não foi feito com a intensidade e seriedade que deveria ter. Frequentemente houve dias em que ele não chegou a 50%, mesmo em cidades com altas taxas de infectados e mortos pelo coronavírus, como São Paulo. O ideal, segundo especialistas, é um índice acima dos 70%. 

Saúde ou economia? Uma lembrança da Segunda Guerra Mundial

O conflito entre saúde e economia, tônica da narrativa de Bolsonaro, entretanto, não colou com a maioria da população e nem com especialistas, tanto das áreas biomédicas quanto da economia. De modo geral, o entendimento é de que não há como dissociar uma coisa da outra e, caso seja preciso priorizar alguma delas, a prioridade será sempre a saúde, ou melhor, a vida [9].    

O fato é que invariavelmente a economia será afetada por uma pandemia desta proporção, o que já está ocorrendo. Sendo assim, o jeito é preservar vidas, para que o estrago não seja ainda maior. Além disso, como disse em entrevista o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, “a economia a gente recupera; as vidas, não”. Witzel contraiu coronavírus e foi um dos governadores que lideraram o embate contra o governo Bolsonaro, juntamente com João Dória (SP) e Ronaldo Caiado (GO).

O jornalista e analista econômico Carlos Alberto Sardenberg, durante uma de suas lives na Globo News, ilustrou muito bem o problema ao lembrar um fato histórico: o Acordo de Munique, uma fracassada tentativa de paz pouco antes de se iniciar a Segunda Guerra Mundial. Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, como parte de sua política de apaziguamento, assina em Munique um pacto com Hitler e Mussolini. O documento entregava os Sudetos da República Checa desde que esta fosse a última reivindicação dos nazistas, o que selaria a paz. Chamberlain volta exitoso para a Inglaterra, balançando o documento em suas mãos para o público. 

Winston Churchill, sabedor de que aquilo não seria suficiente para satisfazer a sede de poder de Hitler e bastante crítico da política de apaziguamento que dominava o Reino Unido, diz sobre Chamberlain, como nos lembrou em sua live o jornalista Sardenberg: “Entre a vergonha e a guerra, escolheu a vergonha. E vai colher a vergonha e a guerra!”. Dito e feito. A guerra foi inevitável. Quem quiser saber mais sobre esse episódio histórico pode assistir ao ótimo filme O destino de uma nação (2017), com Gary Oldman no papel de Churchill [10].

A analogia da história resgatada por Sardenberg com o momento de pandemia em que vivemos é clara e precisa: não adianta criar um conflito entre a saúde e a economia para optar pela segunda, pois, por esse caminho, perderemos ambas.      

O que houve com o slogan “mais Brasil, menos Brasília”?

No mês passado, a briga entre Bolsonaro e governadores e prefeitos foi parar no STF. A Suprema Corte decidiu contra o presidente, determinando que os gestores estaduais e municipais têm autonomia para decretar medidas restritivas contra o coronavírus, mesmo que o governo federal adote providências em sentido contrário. Entre os poderes atribuídos aos gestores locais estão a decretação de isolamento social, quarentena, suspensão de atividades escolares e restrições ao funcionamento do comércio. 

A briga jurídica não condiz com a promessa de Bolsonaro no plano político durante a eleição e nos lembra o quanto os slogans de campanha, que deveriam simbolizar e condensar em poucas palavras diretrizes políticas, muitas vezes são esvaziados de sentido tornando-se apenas frases de efeito (sem efeito algum). Dentre as várias e questionáveis frases da campanha bolsonarista à presidência em 2018, tínhamos “Meu partido é o Brasil”, frase que de certo modo nega o caráter conflitivo da política, que é a disputa pela pólis [7], confundindo partido político com a própria pólis: dizer que seu partido é o seu país como um todo, na prática, não quer dizer muita coisa, ainda mais em um país tão grande, tão diverso e com tantos interesses conflitantes como o Brasil. 

Mas no que se refere ao conflito entre o governo federal e os estados, é irônico lembrar um outro slogan: “Mais Brasil, menos Brasília”, que trazia uma promessa de descentralização do poder e melhor redistribuição de recursos entre os entes federativos [8]. Teoricamente, poderia ser algo positivo para muitas regiões. Na prática, vemos o oposto: o caráter centralizador do governo federal ficou evidente nesta que é a maior crise política, econômica e sanitária enfrentada por Bolsonaro desde que chegou ao Planalto, inconformado com a prerrogativa dos gestores regionais de poderem tomar medidas que atendam às situações específicas de suas localidades. 

Referências:

1- Revista Lancet aponta Bolsonaro como o maior risco da pandemia no Brasil: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/07/the-lancet-aponta-bolsonaro-como-maior-ameaca-ao-combate-a-covid-19-no-pais.htm

 

2- Os líderes mais populares do mundo nas redes sociais: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-e-o-terceiro-chefe-de-governo-mais-popular-do-mundo-nas-redes-sociais,70003192720?fbclid=IwAR1HM3gBK71ZXtCrBWH3x72EKfho98xAs5lFbkdgoWDWN3lqU7WVFIDDaJM

 

3- O populismo de Trump e Bolsonaro diante da pandemia: http://www.diretodaciencia.com/2020/03/21/entre-os-fatos-e-a-mentira-o-populismo/?fbclid=IwAR3xTQaZCjwMwvexZh_EQ_STHTcbzkw-rtRj10pSb8PHqMQG7RlZ-Jz9NXQ

 

4- Aumento de casos de intoxicação em Nova Iorque: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/ny-registra-intoxicacoes-por-desinfetante-apos-fala-de-trump,a0ea97943e95442d7771c2f537462df4tqx8eyvc.html

 

5-KAKUTANI, Michiko. A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

 

6 – Desrespeito ao isolamento social é maior em áreas onde Bolsonaro tem mais apoio: https://epoca.globo.com/sociedade/desrespeito-ao-isolamento-social-maior-em-areas-onde-bolsonaro-tem-mais-apoio-diz-estudo-24391966?%3Futm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post&fbclid=IwAR3lj53z4qZpRmfNbckE_DSRE85E56U-fu2TxzZLRg4RleIHznMSNmze2gA

 

7- O que vem a ser pólis: https://www.youtube.com/watch?v=X4nNG7FbglY

 

8- Mais Brasil, menos Brasília. Ou o contrário?: 

https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/O-governo-Bolsonaro-na-pr%C3%A1tica-mais-Bras%C3%ADlia-menos-Brasil

 

9 – Brasileiros priorizam a saúde:

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/08/interna_politica,1136759/brasileiros-priorizam-saude-do-que-economia-diferente-de-bolsonaro.shtml

 

10- O destino de uma nação: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-246284/

 


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Feliz Dia do Trabalhador: três filmes para pensar a tecnologia e a uberização do trabalho


Chegamos ao Dia do Trabalhador com pouco a se comemorar. Os impactos econômicos por conta do isolamento social imposto pela pandemia de coronavírus são inevitáveis e se somam a um cenário que já era desanimador. Em 2019, o PIB brasileiro cresceu apenas 1,1%, menos da metade da expectativa que os analistas econômicos haviam projetado no início daquele ano, que era de 2,53% [1]. O mercado de trabalho vem passando por um processo de precarização, que, em linhas gerais, significa uma desvalorização da força de trabalho. Embora nos últimos anos tenha havido aumento do número de contratações com remuneração de até dois salários mínimos, há 14 anos seguidos (desde 2006) o Brasil teve redução dos postos de trabalho com valores acima de dois salários mínimos [2]. Em linhas gerais, isso significa dizer que o mercado de trabalho está pagando menos, que tem ocorrido um achatamento salarial em massa há mais de uma década e que isso vem cada vez mais afetando a classe média, que é justamente o estrato social que disputa os postos de emprego acima dessa faixa salarial. E claro que o governo (todos eles), na hora de alardear a criação de postos de trabalho, fala sobre o aumento de empregos de até dois salários, mas omite a redução dos empregos com remuneração acima desse valor.     

A precarização já seria um problema grave por afetar trabalhadores das classes baixas, mas, como dissemos, tem avançado nas classes mais elevadas. Algumas políticas públicas voltadas para o trabalho e emprego contribuem para esse avanço. A terceirização das atividades-fim é um exemplo: uma coisa é uma empresa terceirizar seus funcionários de limpeza, zeladoria e segurança; outra é fazer o mesmo com engenheiros (se for uma empresa de engenharia) ou nutricionistas (uma empresa da área de saúde), ou seja, profissionais com nível superior (o que, no Brasil, está normalmente relacionado a pessoas até então com maior poder aquisitivo). 

Outras iniciativas se somam na construção de um cenário desolador para a força de trabalho, como a reforma da previdência, que reduziu as expectativas de futuro e de uma aposentadoria digna, e a reforma trabalhista, que, passados dois anos, não cumpriu a promessa de gerar mais vagas de emprego feita por seus defensores na tentativa de convencer a opinião pública e a classe trabalhadora [3]. Tudo isso serve para contextualizar a realidade brasileira, mas o fato é que o trabalho vem passando por transformações muito rápidas no mundo todo, nem sempre traduzidas em vantagens para seu sujeito principal, o protagonista dessa história: o trabalhador.

A tecnologia tem papel primordial nas mudanças. Hoje não há quem não conheça alguém que faz um “bico” como motorista de aplicativo ou mesmo tem nessa atividade sua principal fonte de renda. Aplicativos como a Uber, por exemplo, fazem parte do que vem sendo chamado de “economia de compartilhamento”. Em linhas gerais, um termo que abrange mudanças nas formas de trabalho que incluem o consumo colaborativo e atividades de compartilhamento de bens e serviços mediadas pelas tecnologias. Tudo ainda é muito novo. Embora alguns especialistas apontem que a organização do trabalho tende a se tornar mais flexível e horizontalizada (ou seja, sem rigidez hierárquica, como na imagem clássica do chefe mal-humorado batendo na mesa e distribuindo ordens), muitos cientistas sociais apontam que todo esse ideário da economia compartilhada só esconde uma relação cada vez mais exploratória entre os executivos responsáveis pelas plataformas tecnológicas, de um lado, e os vendedores da força de trabalho, ou seja, os trabalhadores, de outro.

Bertrand Russell, Stephen Hawking e Charles Chaplin: tecnologia e trabalho

Em sua obra, o filósofo britânico Bertrand Russell já nos lembrava na primeira metade do século 20, muito antes da Uber aparecer, que, apesar dos avanços tecnológicos, continuávamos a trabalhar bastante, até exaustivamente. Ele estava se referindo às máquinas industriais, não a aplicativos, mas desde aquela época já havia certa decepção com o fato de que a tecnologia não atendia a expectativa de atenuar, de modo geral, a carga de trabalho para o ser humano. Como dizia Russell, “até agora continuamos a ser tão enérgicos quanto éramos antes que existissem as máquinas. Em relação a isso, temos sido tolos, mas não há razão para que essa tolice continue sempre” [4].

Pois chegamos ao século 21 e o problema persiste. O físico Stephen Hawking teve um trabalho de pesquisa amplamente dedicado à astrofísica, mas deixou algumas considerações sobre a tecnologia e a inteligência artificial. Ele tinha uma grande preocupação com os riscos que máquinas e robôs trazem ao ser humano. Hawking não se referia “apenas” a algum tipo de rebelião ao estilo Matrix ou Blade Runner, mas a questões aparentemente mais triviais, como o risco de desemprego e até de concentração de riquezas. Para ele:

 “Se as máquinas produzirem tudo de que precisamos, o resultado dependerá de como as coisas são distribuídas. Todo mundo poderá aproveitar uma vida de lazer luxuoso se a riqueza produzida pela máquina for compartilhada, ou a maior parte das pessoas pode se tornar miserável se os donos das máquinas conseguirem se posicionar contra a redistribuição da riqueza. Até agora, a tendência tem sido para a segunda opção, com a tecnologia aumentando a desigualdade” [5]. 

No ano passado, o co-fundador da Uber, Garret Camp, arrematou uma mansão em Beverly Hills no valor de U$$ 72 milhões (isso mesmo: setenta e dois milhões de DÓLARES), um montante bem mais alto do que a esmagadora maioria dos trabalhadores do mundo terá trabalhando por toda a vida [6]. A grande aquisição aconteceu em um momento em que muitos trabalhadores da Uber, no Brasil, Reino Unido, EUA e diversos outros países reivindicam melhores condições de trabalho e maiores ganhos. Stephen Hawking tinha razão em se preocupar. Russell também tinha razão em chamar a atenção para o fato de que, ao longo da história, os avanços tecnológicos estão sendo desvirtuados da função que poderiam ter de atenuar o trabalho humano e coletivizar o bem-estar e a prosperidade: apesar dos inúmeros avanços tecnológicos, a sociedade atual trabalha mais do que camponeses medievais, com tempo bem menor de descanso e férias [7]. Por que isso? Porque, como dissemos, Hawking estava certo: não é a tecnologia em si que faz a diferença, mas a forma como ela é apropriada e distribuída. 

 A economia do compartilhamento é a cara do trabalho no século 21. Se Charles Chaplin estivesse vivo e fizesse uma releitura de seu clássico Tempos Modernos, as filmagens provavelmente não seriam em uma fábrica, mas com profissionais sobrecarregados dominados por seus aparelhos celulares. O gênio responsável por Carlitos não está mais entre nós, mas o cinema, seja o de ficção quanto o documental, segue atento às transformações na sociedade, incluindo aquelas relacionadas ao mundo do trabalho. Aqui selecionamos três filmes que mostram a cara do trabalho no século atual. São dois longas-metragens (um documentário e outro de ficção) e um curta, que mostram a realidade da uberização no Brasil e exterior. O processo, apesar de ter sido apelidado de “uberização”, não diz respeito somente à Uber. A empresa de caronas compartilhadas apenas “emprestou” seu nome por ser uma das mais conhecidas do público e dos pesquisadores sobre relações de trabalho. Especialistas e trabalhadores têm apontado alguns caminhos para melhor regulamentação do trabalho no setor. Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de buscar alternativas e políticas públicas de valorização da força de trabalho [9].  

GIG- A uberização do trabalho [10]

Dirigido por Cauê Angeli e produzido pela ONG Repórter Brasil, o filme traz uma grande diversidade de trabalhadores de aplicativos, desde motoristas da Uber até motociclistas, empregadas domésticas e professores. Sim, o processo de uberização chegou à área de educação e um professor de geografia que dá aulas particulares por meio de uma plataforma fala de sua experiência. O filme se propõe a fazer uma abordagem teórica bem contextualizada da economia de compartilhamento e seus impactos nas relações de trabalho, por isso a fala de cientistas sociais brasileiros e estrangeiros divide espaço com a dos trabalhadores. Um desses especialistas é o geógrafo David Harvey, que associa a desregulamentação trabalhista atual, incorporada e fomentada pela economia de compartilhamento, ao avanço do neoliberalismo. Em uma perspectiva histórica, ele diz que o neoliberalismo foi uma resposta à Primavera de 1968, em que estudantes pediram liberdades individuais e justiça social, mas a elite empresarial descartou a justiça social, focando apenas na primeira parte das reivindicações. 

Os especialistas destacam que, apesar de um aparente barateamento dos serviços oferecidos pela uberização, tudo isso tem um custo social, que inclui a redução de renda de um número cada vez maior de trabalhadores, e perguntam qual o risco que as classes média e alta querem assumir para que algumas de suas necessidades sejam atingidas de uma forma mais barata. Afinal, tudo tem seu preço. Os pesquisadores chamam a atenção também para o que nomearam de “gamificação do trabalho”, uma influência do vídeo game nas rotinas e procedimentos de trabalho de motoristas e entregadores. Por meio dos aplicativos, esses trabalhadores passam a se ver como personagens em uma espécie de jogo, em que algumas de suas ações geram bônus, estimulando-os a trabalhar sempre mais e mais e incentivando a competitividade entre os colegas. Tudo isso bem arquitetado por psicólogos ligados às plataformas e intermediado pelas telas de celulares. Do ponto de vista técnico, com a uberização nunca foi tão fácil regular o trabalho: é como se cada trabalhador tivesse milhares de gerentes, já que os clientes dão as notas, nem sempre de forma muito justa. Uma doméstica que faz diária por um app diz que se vê obrigada a limpar até coisas que, teoricamente, não deveria limpar, pois, caso não o faça, sua nota cai. A “profecia” de George Orwell recai sobre as relações de trabalho [8], como bem lembra uma das pesquisadoras ouvidas.

Vidas entregues [11]

Este curta-metragem, dirigido por Renato Prata Biar, tem o Rio de Janeiro como cenário e sons bem conhecidos pelos cariocas, como o sino do VLT, fazendo a ambientação sonora. O veículo sobre trilhos divide o espaço urbano com os ciclistas de aplicativos como Rappi, Ifood e Uber Eats. Sem falas de especialistas, o protagonismo é total para os entregadores de comida, que, aparentemente, são os mais precarizados dentre todos os profissionais que atuam na economia de compartilhamento. Eles falam sobre seus dramas e preocupações, incluindo a falta de perspectiva de futuro. “A mãe do meu filho sempre me cobra: até quando você vai trabalhar com aplicativo?”, diz o entregador Vitor Pinheiro dos Santos. Em falas como essa, vê-se a deterioração do conceito de carreira e de trajetória de vida, algo discutido também em GIG- A uberização do trabalho. Os três principais personagens do filme são negros, o que mostra que o segmento tem um recorte étnico muito perceptível. Mas a personagem que mais se destaca é Bianca Souza dos Santos. Mulher e negra, ela dá ainda um recorte de gênero ao curta. Bianca trabalha com o marido, que também é profissional de aplicativos, fala do cansaço com a rotina de entregas e do quanto a ideia do empreendedorismo pode ser ilusória: “microempreendedora eu não sou, não. Sou uma pessoa desesperada. Não tem emprego, fazer o que?” Todos os personagens preferiam estar trabalhando de carteira assinada.

Você não estava aqui [12]

Por fim, esse filmaço de Ken Loach (mesmo diretor do aclamado Eu, Daniel Blake, que também fala sobre trabalho, com foco no esfacelamento do chamado “estado de bem-estar social”) é de um realismo quase documental. Você não estava aqui (Sorry, we missed you) tem o mérito de ir além do cotidiano de trabalho tão bem retratado nos documentários aqui apresentados para mostrar os impactos desse tipo de atividade na vida privada e familiar. É como se Loach cruzasse uma linha que os documentários não cruzaram para nos trazer uma realidade mais intimista. Você não estava aqui mostra que o maior inimigo da família é o mercado de trabalho predatório. É ele quem atrapalha as pessoas de se casarem. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de ter filhos. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de criá-los. E quando, na medida do possível, elas criam seus filhos, ele atrapalha que esses filhos lhes retribuam a criação com um amparo na velhice. Aliás, essa falta de amparo à terceira idade é trabalhada não por meio de Ricky Turner, o protagonista motorista de um aplicativo de entregas, mas de sua mulher, cuidadora de idosos. Ao falar sobre a rotina extenuante de seu marido para uma de suas clientes/pacientes (uma ex-sindicalista aposentada), é indagada: “mas o que houve com a jornada de trabalho de oito horas?”. Pois é, a desregulamentação atropelou!

Logo de cara, Loach mostra a que veio. No início do filme, durante uma entrevista a qual Turner é submetido, o recrutador diz: “Você não trabalha para nós, você trabalha conosco”. A afirmação dá uma falsa sensação de liberdade (a ideia do “microempreendedor de si mesmo”), que é desconstruída sequencia após sequencia. A escravidão moderna fica cada vez mais clara na medida em que Turner não tem tempo nem de ir ao banheiro, tampouco autonomia para levar a sua filha ao trabalho, mesmo trabalhando com seu próprio veículo. Aos poucos, vê-se que a relação trabalhista não se trata de uma parceria, mas de uma clara subordinação. O desfecho do filme, um final bastante inconclusivo, deixa no espectador o sentimento do quanto é difícil lidar com o problema atual da desregulamentação exploratória do trabalho. Entretanto, em muitos países os trabalhadores já se organizam para reivindicar soluções. Mas é importante lembrar que a história do trabalho mostra que as melhorias e direitos obtidos não caem do céu. Eles são frutos da capacidade de organização e luta da classe trabalhadora.   


Referências

 

4- RUSSEL, Bertrand. O Elogio ao ócio. Disponível em: http://tele.sj.ifsc.edu.br/~msobral/pji/ElogioOcio.pdf  Acesso em 23 abr 2020.





9- Mesa-redonda com o director do filme GIG-A uberização do trabalho: https://www.youtube.com/watch?v=eZfdM16ORY0

10- GIG – A uberização do trabalho: https://reporterbrasil.org.br/gig/

11- Link para o curta Vidas entregues (na íntegra): https://www.youtube.com/watch?v=cT5iAJZ853c


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Na quarentena com Bertrand Russell: como aproveitar bem o seu tempo?


Responder a essa pergunta – como aproveitar bem o seu tempo? – não é uma tarefa simples. A própria pergunta é complexa e até capciosa, afinal, nem todos nós estamos dispondo de mais tempo livre durante este período de isolamento social ou quarentena. Há aqueles que continuam trabalhando normalmente; há os que acumularam mais tarefas; há os que até estão com tempo livre, porém  com uma perda significativa de renda. Logo, a resposta para a pergunta deve passar, invariavelmente, pela questão do trabalho e do papel que ele ocupa em nossas vidas, incluindo o tempo de vida que ele ocupa ou preenche. 

Assim que o período de isolamento social – melhor medida preventiva comprovada até o momento para reduzir o número de infectados pelo coronavírus – começou, logo vieram diversas publicações e reportagens dando dicas de como preencher o tempo e até do que fazer para evitar adoecimentos mentais como a depressão, desengatilhados às vezes pelo tédio imposto pelo tempo ocioso. Isso é curioso, pois sugere que existe uma certa desorientação por parte de muitas pessoas quando se veem desvinculadas de suas rotinas profissionais, sem as rédeas dos horários de entrada, almoço, saída, locomoção para a ida e a volta etc. 

Isso me faz lembrar um caso que aconteceu no meu trabalho. Estávamos eu e um colega de profissão conversando sobre o volume de trabalho em nosso setor, mas não de uma forma negativa. Pelo contrário, ele destacou que em uma outra instituição, que funciona perto de nosso local de trabalho, o setor equivalente ao nosso (mesma função/mesmo tipo de serviço) estava meio ocioso, com pouquíssima coisa para fazer por conta da falta de aparelhagem para a execução das tarefas. “Eu iria morrer”, disse o meu colega sobre a possibilidade de estar na pele daqueles funcionários supostamente sem muito que fazer. Ficaria entediado. Fiquei surpreso ao ouvir que ele “iria morrer”. “Eu iria viver!”, pensei na mesma hora. Pois me vieram à cabeça meus cursos a distância e outros projetos que eu poderia tocar em frente ou mesmo desenvolver com o tempo excedente por conta das limitações materiais do setor de trabalho. Não seria tão ruim. Pelo contrário, seria bom. Coisa para fazer a gente sempre arruma, sejam atividades edificantes (penso nos cursos), sejam atividades de entretenimento (penso nos joguinhos). Mas a questão intrigante é: por que tantas pessoas se veem tão dependentes de suas rotinas e práticas profissionais a ponto de não conseguirem se imaginar preenchendo seu tempo com outras coisas e, pior, achando que ficariam mal com o tempo livre? Vale destacar que o relato pessoal que trago não ilustra um tempo livre que resultaria em perda de dinheiro (caso do desemprego, por exemplo), apenas um tempo livre sem ônus financeiro, uma diminuição da carga de trabalho. Então porque ver isso como algo negativo?          

Cinquenta anos sem Bertrand Russell

Seria então coincidência que o matemático e filósofo galês Bertrand Russell, autor de O elogio ao ócio (1932) tenha completado 50 anos de sua morte em fevereiro, justamente no período de isolamento social em alguns países por conta da pandemia? Sim, seria! Entretanto, podemos nos valer de algumas de suas ideias para pensar na resposta a nossa pergunta e para refletir sobre a pergunta. Russell nasceu no século 19, em 1872, e se tornou um dos maiores pensadores do século 20, sendo um dos criadores da escola de filosofia analítica, movimento filosófico que propôs que a filosofia deve se valer de técnicas lógicas para obter clareza conceitual, buscando aproximação com a ciência moderna. Os filósofos analíticos, como Russel, valorizavam a clareza e a precisão argumentativa, tendo na linguagem sua principal ferramenta.  

Bertrand Russell ficou conhecido por suas posições políticas, que por sua vez guardavam relação com sua obra. Pacifista, opôs-se à participação britânica na Primeira Guerra Mundial e, décadas depois, encabeçaria junto com o físico Albert Einstein um manifesto contra as armas nucleares. Engajado em questões feministas, defendia a igualdade de direitos (políticos e sexuais) entre homens e mulheres e dizia que a intervenção cristã na educação era degradante para as mulheres, reforçando a dominação sobre elas [1]. Mas são suas reflexões sobre trabalho e tempo que mais nos interessam.

Tempo e trabalho

O ex-presidente uruguaio e “quase-filósofo” (por que não?) José “Pepe” Mujica diz que "quando compramos algo, não compramos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro" [2]. Há uma relação intrínseca entre trabalho, tempo e dinheiro na sociedade contemporânea capitalista. A grande maioria de nós precisa trabalhar (e, normalmente, trabalhar muito!!) para ter dinheiro. E, para trabalharmos, ocupamos nosso tempo. Às vezes tanto de nosso tempo é dedicado ao trabalho que sobra pouco para outras atividades. Se você é um dos privilegiados que teve uma redução da carga de trabalho durante esse período de isolamento social, talvez possa refletir sobre o quanto teve mais tempo disponível para fazer coisas do seu agrado. Coisas que tem a ver com quem você é, que fazem você se sentir você mesmo. Seja pintar um quadro ou assistir a filmes do seu gênero favorito. Mais do que isso, talvez você tenha convertido o tempo livre em cuidado e proximidade com a família e tenha percebido o quanto isso é bom: poder dar mais atenção aos filhos, aos pais, às tias, quem sabe.

Mesmo que a carga de trabalho não tenha sido reduzida, ainda assim muitos profissionais que migraram para suas casas neste período de pandemia sentiram-se livres do fardo do transporte diário de ida e volta ao trabalho. Dependendo da cidade onde se more e do bairro, só em economizar esse tempo já dá para se fazer muita coisa. Pois é sobre o trabalho e, consequentemente, sobre o tempo, que Bertrand Russell lança sua análise em O elogio ao ócio. O filósofo define o trabalho em dois tipos: o primeiro é mais “físico”, visa "alterar a matéria"; o segundo, mais “intelectual”, visa instruir ou supervisionar aqueles que estão trabalhando na alteração da matéria. Explico: imagine uma fábrica de cadeiras e que você é um operário dessa fábrica. Você e seus colegas são encarregados de talhar a madeira, polir, envernizar e pregar as peças para construir as cadeiras. A matéria, neste caso, é a madeira que é extraída das árvores, e vocês são os trabalhadores do primeiro tipo, aqueles que movem a matéria. Os trabalhadores do segundo tipo seriam, no caso, alguns supervisores da fábrica, que controlam o trabalho dos operários, além de alguns designers, responsáveis por projetar os modelos de cadeiras. 

A esses dois tipos de trabalhadores estão associadas, de modo geral, as classes sociais. Indivíduos de classe baixa (ou classe operária) normalmente são trabalhadores do primeiro tipo; indivíduos de classe média são, em grande medida, trabalhadores do segundo tipo. O trabalho do segundo tipo tende a ser menos extenuante e melhor remunerado que o do primeiro. E mais, esse segundo tipo de trabalho pode ser estendido quase que indefinidamente: há os supervisores, os supervisores dos supervisores, os supervisores dos supervisores dos supervisores e por aí vai... Claro que esses cargos não são assim tão literais, mas sim batizados com nomes pomposos. Quem sabe “supervisor-executivo”, e acima o “supervisor-geral”, e acima o “diretor-geral de supervisão”...

Curioso é observar que, na medida em que o trabalho vai se distanciando da matéria, ou seja, do chão da fábrica, a remuneração tende a melhorar. Entretanto, são aqueles trabalhadores do chão da fábrica (ou da ponta do atendimento) ainda os mais essenciais para a atividade-fim (a produção de cadeiras, em nosso exemplo). Isso vale não só para produtos, mas também para serviços. O fiscal da linha de ônibus que você pega para ir ao trabalho é importante, mas não tanto quanto o motorista que vai conduzir o veículo de sua casa até seu escritório. Tempos como esses, de paralisação de muitos empreendimentos, desnudam o óbvio: a essencialidade de serviços ESSENCIAIS. O problema é que a remuneração, na maioria das vezes, não acompanha essa essencialidade. O motorista que te leva e traz, o padeiro que faz o seu pão, o coveiro responsável pelo seu enterro (espero que você não precise disso, mas lamentavelmente o coronavírus tem aumentado a demanda por sepultamentos) são importantíssimos, porém muito mal pagos. 

Às duas classes de trabalhadores, Russell acrescenta uma terceira: a dos proprietários, que estão ainda mais distantes da matéria (do chão de fábrica ou da ponta do atendimento), portanto mais ociosos, dependendo do trabalho dos outros para manter sua ociosidade. E é justamente essa classe beneficiária do sistema quem mais costuma exaltar as virtudes da “labuta honesta”, justamente porque se beneficia dessa propaganda. Você já deve ter ouvido frases como “o trabalho enobrece o homem”. Para Russell, isso é balela. “Um dano imenso é causado pela crença de que o trabalho é virtuoso” (apud, BUCKINGHAM et tal, 2011, p. 2380) dizia ele. 

Porém, a crítica de Russell não era voltada contra todo tipo de trabalho, mas sim contra a ideia de que o trabalho é virtuoso em si mesmo. Ao questioná-la, ele queria nos fazer refletir sobre o quanto nossa relação com o trabalho – e com o tempo – pode estar baseada em uma ética incoerente e hipócrita: ao mesmo tempo em que vemos no trabalho algo que dá dignidade ao homem, criamos uma hierarquia de valores que inferioriza, por exemplo, o trabalho braçal e alguns serviços essenciais. Russell queria que pensássemos com profundidade sobre o porquê de trabalharmos e que enxergássemos o trabalho não por meio de dogmas morais influenciados pelas elites, mas com um olhar questionador, nos perguntando em que medida nosso trabalho – e o trabalho, de forma geral – contribuem para termos uma vida plena e satisfatória.

Raízes marxista e weberiana

Leitores mais atentos já devem ter notado a semelhança entre o pensamento de Russell e o de Karl Marx, principalmente quanto à luta de classes e o modo como os proprietários dos meios de produção são menos importantes para o sistema produtivo do que os mesmos fazem supor. Mas para melhor compreender a abordagem de Russell sobre tempo e trabalho vale a pena a leitura de outro importante sociólogo, Max Weber. Em Ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber mostra como muito da ideia que fazemos hoje em dia sobre o trabalho e o tempo tem raízes na ascensão da burguesia, lá pelo século 16, principalmente de uma burguesia particularmente ligada aos protestantes calvinistas. Para eles, o sucesso no trabalho e a aquisição do dinheiro eram sinais de “escolha divina”. Muito religiosos, viam os luxos e prazeres da época como pecaminosos. Como não podiam ou não queriam gastar o dinheiro que ganhavam com essas coisas, passaram a reinvestir esse dinheiro para fazer mais dinheiro. Era preciso trabalhar cada vez mais para ganhar mais e reinvestir. E assim sucessivamente. Antes desse período, por exemplo, na Idade Média, a nobreza não cultuava o trabalho, mas sim o ócio [3]. 

A ascensão da burguesia protestante calvinista gerou uma mercantilização do tempo. A ideia de que tempo é dinheiro. Se hoje você se sente culpado ou culpada porque não está trabalhando tanto quanto de costume ou mesmo sente tédio com isso, sem saber como preencher o próprio tempo, é porque já tem arraigada dentro de si essa ética do trabalho apontada por Weber e criticada por Russell. E pouco importa se você é um protestante calvinista, um católico, budista ou ateu. As religiões fazem certas contribuições ao pensamento da sociedade que a gente absorve mesmo sem professá-las. 



Conclusões

Mas como aproveitar bem o seu tempo? Sabendo de todas essas coisas, você deve evitar cair na armadilha da produtividade a qualquer custo com a execução de tarefas ligadas a um trabalho que não te faz feliz. Muita gente se acostuma com o trabalho que tem e até diz que gosta dele, mas está só mentindo para si próprio. Russell nos faz refletir de forma mais profunda e crítica sobre até que ponto nosso trabalho nos é satisfatório. Se o seu trabalho não te satisfaz, não se sinta tão culpado por estar ocioso (caso você realmente tenha o ócio como opção neste momento!). Não é preciso fazer mil cursos para investir em uma carreira que não te motiva. 

A ideia de aproveitar bem o tempo é muito relativa. Para alguns, bom aproveitamento de tempo está ligado à produtividade; para outros, está ligado à diversão e entretenimento. Qual o seu caso? Se você é adepto da produtividade, lembre-se que essa produtividade não precisa estar necessariamente ligada ao seu emprego ou trabalho formal. O importante é você fazer algo de que goste e que faça você se sentir produtivo. Pode ser a hora de fazer um curso que não tenha relação direta com a sua formação, estudar um idioma alternativo (mandarim, quem sabe) ou se reencontrar com a sua veia artística. Aliás, os artistas amadores sabem bem o que é o sentimento de ter que vender grande parte de seu tempo trabalhando em um emprego qualquer para pagar as contas e, em uma vida paralela, com o pouco tempo que lhes sobra, desenvolver sua arte, seja ela desenho, pintura, fotografia, música, literatura. Aliás, gosto muito do exemplo de Franz Kafka, um dos maiores nomes da história da literatura, que escrevia para se aliviar do peso de um trabalho enfadonho como burocrata de seguros. Certamente ele teria nos deixado uma obra mais ampla se pudesse trabalhar menos. 

Mas se você é daqueles que acha que o aproveitamento do tempo é sinônimo de diversão ou mesmo de ócio, permita-se distrair a cabeça ou descansar. Não se culpe achando que está perdendo tempo. Para Russell, “o tempo que você gosta de perder não é tempo perdido” [4]. Acho essa uma frase simples e que faz todo sentido. Por fim, Russell conclui que se todos começarem a refletir sobre o trabalho de forma crítica e livre das amarras ideológicas da burguesia capitalista, a conclusão da maioria será a de que estamos trabalhando demais. A proposta do filósofo era uma jornada de trabalho ideal de quatro horas. Ele fez algumas conjecturas sobre como seriam nossas vidas e a sociedade de modo geral sem o peso extenuante do trabalho. Para Russell, ao nos dedicarmos mais ao lazer, haveria impactos positivos na educação e na arte. Na educação, porque teríamos uma educação não restrita apenas à formação para o mercado de trabalho, mas voltada para o desenvolvimento de nossos talentos e potencialidades. Nas artes, porque nos sobraria mais tempo para nos dedicarmos a produzi-la, apreciá-la, incentivá-la. 

Será possível um mundo tal como idealizado por Bertrand Russell, em que o trabalho não tome tanto o nosso tempo? Um mundo sem o protagonismo tamanho do mercado e do dinheiro? Não sei responder, mas creio que sim. Pense no quanto de habilidades, diversões e novos saberes você poderia praticar com algumas horas de sobra em um trabalho de jornada reduzido. O quanto você poderia se desenvolver enquanto ser humano? Você poderia ser, por mais tempo, quem você é, usando seu tempo para você e do seu jeito. Confesso que não sou tão exigente quanto Russel. Eu adoraria ver institucionalizada uma carga horária de cinco horas de trabalho por dia (estaria de bom tamanho!). Aliás, também tenho uma proposta! E se em vez de reduzirmos a carga horária diária, reduzíssemos os dias de trabalho na semana (com cada um de nós trabalhando quatro ou cinco dias úteis, em vez de cinco ou seis)? Penso nessa possibilidade pois o período de isolamento social me fez refletir não só sobre o uso do tempo e peso do trabalho, mas também sobre muitas outras coisas, como mobilidade urbana, por exemplo.  Nas raras vezes em que precisei sair de casa, confesso que achei bom ver algumas ruas vazias, menos filas e o trânsito sem engarrafamento (se você mora em uma grande cidade, certamente vai entender o que eu digo). Daí pensei no quanto poderíamos adaptar as ideias de Russel, sobre carga de trabalho, para reduzir o problema ambiental e de mobilidade que é o excesso de veículos. Com as pessoas trabalhando menos dias, haveria menos carros nas ruas e menos dióxido de carbono emitido no ar. Por que não? Precisamos aprender algumas lições com este período de pandemia e, em vez de termos pressa de voltar à normalidade, devemos usar o aprendizado para estabelecer uma nova normalidade, um pouco melhor. 

Referências
BUCKINGHAM, Will; BURNHAM, Douglas; HILL, Clive; KING, Peter J; MARENBON, John; WEEKS, Marcus. O livro da filosofia, São Paulo: Editora Globo, 2011.

RUSSEL, Bertrand. O Elogio ao ócio. Disponível em: http://tele.sj.ifsc.edu.br/~msobral/pji/ElogioOcio.pdf  Acesso em 23 abr 2020.

1- Mais sobre Bertrand Russel:

2- Frase de José Mujica:

3- Saiba mais sobre A ética protestante e o espírito do capitalismo, obra de Max Weber:

4- “O tempo que você gosta de perder não é tempo perdido”

terça-feira, 14 de abril de 2020

Flexibilização do uso de armas de fogo e as falácias dos armamentistas



Frequentemente aqueles que defendem maior flexibilização do uso de armas de fogo fazem comparações entre elas e outros utensílios para defender sua posição. É o caso do ministro Onix Lorenzoni, que comparou armas de fogo a liquidificadores [*] [1]. Há pelo menos dois problemas lógicos nessa comparação.

Primeiro, isso desconsidera o próprio conceito de tecnologia, que é o uso da ciência e engenharia no fabrico de coisas que resolvam problemas específicos. Por exemplo, você pode cortar um queijo com uma faca? Claro que sim. Mas um cortador de queijo corta as fatias com mais precisão e é mais prático, porque foi projetado justamente para isso. Da mesma forma, você até pode beber água em um prato, mas no copo fica muito melhor e mais fácil. O prato serve melhor para coisas sólidas, não líquidas.

Outro problema é quando dizem coisas do tipo "armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas". Com isso querem dizer que quem quer matar alguém não precisa de armas de fogo, podendo usar qualquer outro tipo de utensílio. Um prato, por exemplo. Só que esse "argumento" é uma falácia, ou seja, uma estratégia retórica usada somente para ludibriar o interlocutor. Se os defensores das armas realmente acreditassem nisso, não precisariam defender a flexibilização das armas, bastariam usar um prato (ou qualquer tipo de utensílio citado na comparação). Quem não tem um prato? Mas eles continuam a defender a flexibilização das armas de fogo justamente porque sabem que elas têm uma vantagem competitiva na finalidade para a qual foram projetadas (matar) em relação a outros artefatos. E é justamente essa vantagem competitiva que leva a necessidade de maior regulamentação.

As pessoas já se matavam antes das armas de fogo e do desenvolvimento da pólvora. Mas elas sempre preferiram aquilo que a tecnologia oferecia de melhor para esta finalidade em suas épocas. Pense no personagem principal de "Coração Valente" correndo na direção do exército inglês gritando "freedom" com um prato na mão. Ridículo, não? Ele preferia espadas e lanças. Esperto.

Nossos precursores Homo habilis receberam esse nome por desenvolverem habilidades no uso e fabrico de utensílios para fins específicos, como a caça e o combate, (o filme "2001 - uma odisseia no espaço" ajuda a ilustrar). Era o primórdio da tecnologia. Estamos em 2019 e alguns Homo sapiens, quando fazem comparações entre armas e liquidificadores, parecem desconsiderar aquilo que os Homo habilis já sabiam há cerca de 1 milhão de anos.

* - Texto publicado originalmente no dia 16 de janeiro de 2019, no Facebook do autor

Referências:

1- Declaração do ministro Onix Lorenzoni comparando armas de fogo a liquidificadores:

2- Estudos relacionam frouxidão na regulamentação de armas de fogo a aumento da violência:


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Contágio, o filme: “profecias” sobre cloroquina e o (mau) uso da internet



O que assistir durante a quarentena? Para algumas pessoas, o período de isolamento social tem sido entediante, com aquela sensação de não saber bem o que fazer com o tempo disponível (claro que isso não vale para todo mundo, pois há muita gente que está trabalhando ainda mais). No comando do controle remoto, há aquelas pessoas que querem se distrair, esquecer um pouco o problema do coronavírus, mas, por incrível que pareça, muitas não conseguem se desligar da situação e buscam nas telas um pouco mais do contexto em que estão vivendo. Prova disso é o filme Epidemia (1995) estar figurando na lista dos 10 mais assistidos da Netflix.

Se você é desses que não se desligam, buscam mais do mesmo e têm estômago suficiente, recomendo duas obras: a série documental Pandemia, disponível na Netflix e lançada assertivamente no início deste ano, e o filme Contágio, de 2011, disponível na HBO GO. É dele que falaremos. Trata-se de uma obra de ficção, mas que impressiona de tão realista. Dirigido por Steven Soderbergh (o mesmo de Onze Homens e um Segredo), o filme, estrelado por Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law e Laurence Fishburne, foi redescoberto pelo público e vem sendo chamado de “profético”, tamanha a semelhança com alguns aspectos da crise provocada pela pandemia de coronavírus. Assim como Epidemia, Contágio está bombando: o filme se tornou um dos mais comentados no Letterboxd, rede social focada em cinema, e está na segunda posição na lista de mais procurados da Warner Bros. Em dezembro, ele estava na modesta 270º posição dessa mesma lista.

O filme merece ser chamado de profético? Na verdade, cinema e literatura são pródigos em antever situações. No campo da ciência isso é bem perceptível. Em 1902, nos primórdios da arte cinematográfica, o diretor Georges Méliès, um dos pais dos efeitos especiais, lançou Viagem à Lua, baseado no romance Da Terra à Lua, de Júlio Verne, ambos lançados muito antes de Neil Armstrong pôr os pés em solo lunar, em 1969. A escritora Mary Shelley, com seu Frankestein, antecipou no século 19 discussões sobre clonagem e bioética que cresceriam ao longo do século 20. Ao falar sobre o mito do Frankestein, o pesquisador Jon Turney nos lembra que “não é convincente a separação que alguns fazem entre o reino da imaginação e o domínio científico” (2005, p. 105). Isso porque a imaginação não serve somente para a arte, é preciso algumas doses dela na ciência. E por isso com frequência a arte irá “prever” feitos e contextos de caráter científicos.

Os acertos de Contágio se devem muito mais a um roteiro antenado com os nossos tempos e uma boa consultoria científica[1], incluindo o apoio de epidemiologistas, do que a algum tipo de misticismo profético. Epidemias não são novidade e, dois anos antes do filme ser produzido, o mundo havia passado por um surto de H1N1, a chamada gripe suína. Muitas situações típicas de uma epidemia são bem caracterizadas em Contágio: a expressão moribunda dos infectados, com sudorese, tosse e palidez; as formas de contaminação, retratadas por meio de closes em objetos, em carnes expostas nas feiras e em situações de proximidade entre as pessoas; o isolamento social, com ruas, igrejas e diversos estabelecimentos vazios; dentre outros aspectos. Em tempos de coronavírus, tudo fica ainda mais realista.

O vírus das fake news

Mas, dentre os diversos acertos de Contágio, o que mais impressiona é a abordagem que o filme faz sobre o fluxo de informação em tempos de epidemia e seus impactos na sociedade. Os perigos das notícias falsas, que se proliferam tanto ou mais do que o próprio vírus, possuem um amplo espaço no filme. Em 2011, a internet e suas boatarias já não eram mais nenhuma novidade, mas é interessante ver o assunto retratado de uma forma tão atual antes de termos como “pós-verdade” e “fake news” tornarem-se tão populares. Logo no início do filme, de dentro de uma redação de jornal, a fala do jornalista freelancer interpretado por Jude Law é icônica de nossos tempos: “a mídia impressa está morrendo!”. Daí em diante acompanhamos a empreitada do personagem como blogueiro.  

Parte do problema em Contágio não está propriamente no vírus, mas na convulsão social causada, em grande medida, por esse pseudojornalista. É ele o principal responsável por disseminar que uma substância chamada “forsítia” seria a cura para o vírus. Imediatamente ocorre uma corrida às farmácias, incluindo invasões e saques, ao ponto da substância desaparecer das prateleiras. Tudo seguindo a receita das teorias conspiratórias: a forsítia é a cura, mas a indústria farmacêutica, o governo e a comunidade médica, todos em conluio, trabalham para omitir informações e garantir seus interesses escusos. Impossível não relacionar a forsítia do filme com a cloroquina da vida real, no contexto do covid-19.


O pseudojornalista se passa por uma espécie de porta-voz de uma verdade escondida, tal e qual o modo como os conspiracionistas em geral gostam de se sentir. Aqui fica clara a descrença nas instituições, outra característica marcante de nossos tempos. O estado e suas instituições públicas, a mídia tradicional (caso dos grandes jornais impressos, que o jornalista blogueiro disse estarem morrendo) e até a própria ciência passam a ser sistematicamente desacreditados e desqualificados. Movimentos antivacina e o terraplanismo estão aí para mostrar isso. Em um momento memorável do filme, o médico Ellis Cheever (interpretado por Lawrence Fishburne), é confrontado pelo blogueiro em um programa de TV. O blogueiro insiste na forsítia e, com bom domínio do debate e eloquência no discurso conspiracionista, joga o médico contra a parede.  Doutor Cheever, que trabalha nas pesquisas por uma vacina, responde que tipos diferentes de drogas estão sendo testados, mas, na falta de resultados conclusivos, o ideal é a manutenção do isolamento social. Parece até que o personagem está falando diretamente com o presidente Jair Bolsonaro, um entusiasta da cloroquina e crítico da quarentena.

Entretanto, é Jude Law quem parece se sair melhor no debate, mesmo sem ter razão. Aqui, contágio reforça mais um traço dos nossos tempos com relação às tecnologias midiáticas e à midiatização: a forma se sobrepondo enormemente ao conteúdo. No contexto atual, técnicas de relações públicas, propaganda, marketing e boas ferramentas algorítmicas podem convencer a opinião pública de qualquer coisa, ainda que essa coisa seja frontalmente contrária às evidências científicas. Isso pode fazer com que certos assuntos que são consensuais ou praticamente consensuais na comunidade científica pareçam controversos para a opinião pública. Um exemplo é o aquecimento global antropogênico (ou seja, causado pela ação humana). Para quem quiser saber mais sobre o assunto, recomendamos o documentário Mercadores da Dúvida[2], baseado no livro homônimo, que mostra as táticas persuasivas dos negacionistas climáticos. Uma das principais armas dos propagandistas das controvérsias é saber explorar uma regra jornalística que é a de ouvir sempre os dois lados da história. A regra é justa e necessária, diga-se de passagem, mas o “outroladismo” pode gerar algumas dissonâncias e distorções, dando para ideias extremamente minoritárias o mesmo espaço na mídia que posições consensuais com maior corpo de evidências e com fundamentos mais sólidos[3].

Contágio exagera em alguns traços e dramas da epidemia. Afinal de contas, é cinema e o cinema joga com a emoção. A rapidez e letalidade do vírus fictício são bem maiores que as do coronavírus (ainda bem!) e a convulsão social é bem mais intensa (ao menos por enquanto), mas, em alguns aspectos, é a realidade quem supera a ficção. Embora o filme mostre de forma brilhante os efeitos nocivos das teorias conspiratórias aliadas à internet, não há em Contágio grandes autoridades políticas reproduzindo tais teorias e propondo como cura substâncias sem efeito comprovado. Já na vida real (cada vez mais surreal), presidentes como Donald Trump e Jair Bolsonaro defendem o uso da cloroquina em suas declarações públicas. A substância ainda não tem efeito cientificamente comprovado na cura do covid-19, por isso é preciso cautela[4]. Isso mostra que, no mundo real, todo esse modus operandi conspiracionista de internet retratado no filme vem aos poucos se fundindo ao próprio estado e suas instituições. Trump, nos EUA, e o Brexit, na Grã-Bretanha, são frequentemente apontados como exemplos de êxitos eleitorais imbricados com o fenômeno da pós-verdade (ou pós-fato), termo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. As novas mídias digitais, principalmente as redes sociais, têm protagonismo neste cenário perigoso[5].

A eleição de Bolsonaro não foge dessas características. O êxito de sua campanha à presidência foi conquistado por conta das redes sociais (principalmente do Whatsapp), a despeito do pouquíssimo tempo de TV que tinha na propaganda eleitoral oficial[6]. Como se não bastasse a defesa prematura da cloroquina (não necessariamente um equívoco, mas, no mínimo, uma imprudência), o presidente do Brasil virou uma espécie de garoto propaganda antiquarentena. Uma coisa é se antecipar à comunidade científica defendendo uma eficácia ainda não comprovada, a outra é contrariar deliberadamente essa comunidade, que recomenda o isolamento social como a melhor forma de prevenção no momento, assim como o doutor Cheever faz em Contágio. O pseudojornalista interpretado por Jude Law também estava certo em um ponto: a mídia impressa está mesmo morrendo. O problema é se o que estamos colocando no lugar é melhor ou pior e quais as transformações sociais decorrentes dessa substituição. O historiador da ciência David Wootton, autor de Uma breve história dos fatos na revista History Today, em que discute a visão peculiar de Trump sobre fatos e verdades, vê com muita ressalva essas transformações:

A internet cria uma enchente de pontos de vista diferentes e você não consegue diferenciar o certo do errado, pois todos parecem igualmente convincentes na tela. E acho que, com isso, a fofoca está sendo transformada em opinião, e fica bem mais difícil distinguir argumentos bem fundados de preconceito. Acho que a internet está nos levando de volta a um mundo medieval no qual as histórias se espalham rapidamente, sejam verdadeiras ou falsas, e fica impossível descobrir de onde vieram e se são confiáveis (2017).

Referências

TURNEY, Jon. Resposta popular à ciência e à tecnologia: ficção e o fator frankenstein. In: MASSARANI, Luisa; TURNEY, Jon; MOREIRA, Ildeu de Castro (Org.). Terra incógnita. A interface entre ciência e público, Rio de Janeiro: Vieira & Lente: UFRJ, Casa da ciência: FIOCRUZ, 2005. p. 99-114.

WOTTON, David. A internet está nos levando de volta a um mundo medieval. Consultor Jurídico. 10 jul 2017. Disponível em < http://www.conjur.com.br/2017-jul-10/milenio-david-wootton-autor-breve-historia-fatos> Acesso em: 15 ago 2017.

1- Detalhes sobre a consultoria científica do filme, seu enredo e produção:

2- Link para o documentário Mercadores da Dúvida:

3- Publicação da revista Questão de Ciência, sobre como a mídia é utilizada na fabricação de controvérsias:

4- Saiba mais sobre a cloroquina e os testes com a substância:

5- Saiba sobre o fenômeno da pós-verdade e o papel das novas mídias:

6- Bolsonaro, eleições e redes sociais:
                                 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Coronavírus e mudanças climáticas: a natureza está nos dando um toque



Nos primeiros dias desta quarentena imposta pelo coronavírus, em um programa matinal da Rede Globo, o ator Mateus Solano fez uma live de sua casa e disse que “a natureza está nos mandando um recado, nos dando um toque”. De fato, os primeiros dias de isolamento social fizeram muitos se sentirem em um daqueles filmes em que o fim do mundo está próximo, seja por causa de um vírus, uma catástrofe ou um ataque zumbi. O coronavírus nos lembrou da nossa fragilidade, do quanto precisamos de um ambiente equilibrado para coexistirmos e de outras outras espécies que já estiveram pela Terra e desapareceram. Os dinossauros são um exemplo. Como dizia Carl Sagan, “a sobrevivência é exceção; a extinção é a regra”.

E qual o maior perigo que ronda a permanência da espécie humana no globo terrestre nos últimos anos? A possibilidade de uma guerra nuclear torna-se mais iminente de vez em quando, conforme os acirramentos de tensões políticas. Mas, a despeito disso, certamente as mudanças climáticas são o principal risco alardeado pelos cientistas há décadas. Aliás, os cientistas, de certo modo, são herdeiros dos antigos profetas tocando as trombetas do fim do mundo. O físico Marcelo Gleiser, em seu livro O fim do céu e da Terra (2001), nos diz que “o desenvolvimento temático da ciência incorpora tendências da cultura popular e religiosa” (p. 174) e que “O fim da Terra, que, segundo profetizaram textos apocalípticos, seria causado por cataclismos ordenados por deuses ou por Deus, encontrou uma nova expressão na análise científica” (Ibid).

Mas, além da sensação de proximidade com o fim, qual a relação entre o coronavírus e as mudanças climáticas que estão aumentando a temperatura do planeta? Pois cientistas chineses e americanos descobriram, nas geleiras do Tibete, 28 grupos de vírus desconhecidos, congelados há 15 mil anos. Com o derretimento dos gelos glaciais, provocado pelas mudanças climáticas, existe a possibilidade de novos agentes patogênicos serem liberados, trazendo novos riscos para os seres humanos. O trabalho de pesquisa feito no Tibete pode ser estendido para outras geleiras e assim, quem sabe, encontrar novos vírus. 

Um exemplo parecido vem da Rússia. Em 2016, na península de Yamal, uma criança morreu e outras 23 pessoas contraíram antraz, uma doença infecciosa causada pela bactéria Bacillus anthracis. O antraz havia desaparecido da região há quase 80 anos, mas ressurgiu, segundo cientistas, como efeito colateral do degelo do permafrost. O  permafrost é um tipo de solo congelado encontrado no Ártico e rico em metano e matéria orgânica. O episódio 12 da série de TV Cosmos, apresentada pelo astrofísico americano Neil deGrasse Tyson, aborda o problema do permafrost. Tyson caminha pelo litoral de Drew Point, no Alasca. Ele lembra que no final da década de 1950, quando nasceu, aquele solo litorâneo, formado por permafrost, se partia, em média, seis metros por ano. Atualmente ele está sendo corroído em aproximadamente 15 metros por ano. E com isso o litoral local já encolheu em torno de um quilômetro e meio do fim da década de 1950 para cá.

Como se não bastasse o perigo da liberação de vírus e bactérias milenares, o degelo do permafrost libera altas doses de metano na atmosfera, que é um gás 28 vezes mais potente que o dióxido de carbono para o efeito estufa, porque retém mais calor. Quando você descongela o seu congelador, esse degelo começa a exalar um cheiro desagradável, por conta da gordura e resíduos que ficaram acumulados na placa de gelo durante muito tempo, correto? Com o permafrost ocorre algo parecido.

Quanto mais o permafrost derrete, mais libera metano e também dióxido de carbono na atmosfera, fora os vírus e bactérias. E quanto mais esses gases de efeito estufa circulam pela atmosfera, mais o clima da Terra esquenta, o que significa mais derretimento do permafrost e das geleiras em geral. Um sistema de retroalimentação que os cientistas chamam de “mecanismo de feedback positivo”. Quer outro exemplo? O gelo é a superfície mais brilhante da Terra e a água em mar aberto é a mais escura. O gelo, por ser brilhante, reflete a luz solar de volta para o espaço (o que é bom, porque ajuda a manter certo resfriamento da Terra), enquanto o espelho d’água do mar aberto, por ser escuro, absorve a luz solar e fica mais quente. A elevação da temperatura da água derrete ainda mais as geleiras, o que reduz ainda mais a superfície brilhante que reflete o Sol e aumenta a superfície escura da água que o absorve. E por ai vai. 

Política e negacionismo

Para evitar o caos das mudanças climáticas e outros problemas decorrentes, como a proliferação de vírus e bactérias que apresentam riscos ainda incalculáveis, é preciso políticas ambientais que tenham como objetivo frear o aquecimento global. No Brasil, a situação é complicada. O governo e suas principais lideranças adotam uma postura anticientífica e contrária às ações de combate às mudanças climáticas. Bolsonaro já ameaçou retirar o Brasil do Acordo de Paris, por meio do qual 200 países se comprometeram, em 2015, a tentar conter os prejuízos causados pelo aquecimento global e reduzir gases de efeito estufa. Líderes governistas, como Eduardo e Carlos Bolsonaro, já negaram o aquecimento global diversas vezes nas redes sociais e classificam o discurso das mudanças climáticas, que é baseado em amplas evidências científicas, como uma espécie de trama marxista. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é mais um exemplo de negacionista, chamando pejorativamente a política climática de “globalista” e usando termos como “ditadura climática” para classificar ações que têm por objetivo frear a elevação da temperatura da Terra.

Assim como o governo brasileiro tem sido negacionista em relação às mudanças climáticas, Bolsonaro e seus aliados mais próximos também adotaram uma postura negacionista e anticientífica diante do coronavírus. O presidente vem frequentemente criticando o isolamento social proposto por especialistas e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e tem aparecido publicamente descumprindo a quarentena, participando (e causando!) aglomerações. Mas, como destacou em entrevista o biólogo Átila Iamarino, a diferença é que enquanto no caso das mudanças climáticas os efeitos negativos das posturas anticientíficas se darão a longo prazo, com a covid-19 os resultados irão acontecer em um prazo mais curto. 

Como não existe salvação fora da política, a solução para nossos problemas políticos e ambientais é a estruturação de políticas que apresentem soluções adequadas aos problemas, que estejam, de fato, preparadas para responder a altura os desafios, tanto os de curtíssimo prazo, como o novo coronavírus, quanto os de mais longo prazo, como as mudanças climáticas. E olha que os problemas climáticos não estão tão distantes no horizonte. Eles batem a nossa porta e seus efeitos já são dolorosamente sentidos.      

Referências
GLEISER, Marcelo. O fim da Terra e do céu: o apocalipse na ciência e na religião. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Entrevista de Átila Iamarino no programa Roda Viva
https://www.youtube.com/watch?v=s00BzYazxvU

Episódio 12 da série Cosmos (2014) sobre mudanças climáticas e o permafrost
https://vimeo.com/153447904

Vírus encontrados nas geleiras do Tibet
https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/01/24/28-virus-desconhecidos-sao-encontrados-por-cientistas-em-geleiras-no-tibete.ghtml?fbclid=IwAR1Oi4S62J5OOc5A39DjJX2-y0jFjdw0KIt0Af31UYmiQh4cDF5RoQTzoRs

Casos de antraz na Russia por conta do degelo do permafrost
http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2016/08/derretimento-de-solo-congelado-expoe-ameaca-de-virus-e-bacterias.html

O negacionismo climático do governo Bolsonaro
https://www.terra.com.br/noticias/ciencia/sustentabilidade/meio-ambiente/ernesto-araujo-nega-aquecimento-global-em-discurso-nos-eua,66172f007894f76aa6c987a907da6ed0ohrnxqa0.htmlhttps://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-negacionismo-no-poder/

O metano e o aquecimento global
https://cetesb.sp.gov.br/biogas/2016/12/13/emissoes-de-metano-aceleram-aquecimento-global-mais-que-co2/

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No último dia 31 de maio de 2022, um ano se completou da morte do jornalista e divulgador científico Maurício Tuffani. Lembro-me bem da dat...