terça-feira, 23 de março de 2021

Manuais trazem dicas de educação midiática e combate à desinformação


Muita gente reclama de jornalistas e da imprensa profissional, mas lida com a informação de uma forma muito ruim, frequentemente caindo em fake news e compartilhando-as, sendo que em muitos desses casos essas pessoas evitariam esse problema se gastassem poucos minutos fazendo uma checagem. A internet e, principalmente, as redes sociais, ampliaram a nossa voz, ou seja, aumentaram o alcance do que temos a dizer. Hoje cada um é um veículo, cada um é uma mídia. Mas isso exige responsabilidade. Que tipo de mídia você tem sido? 

A impressão que tenho é que muitas dessas pessoas – que compartilham desinformação ao mesmo tempo em que criticam da imprensa – veem o jornalista profissional como uma espécie de escritor ou digitador de texto. Elas reclamam dos jornalistas porque não gostam do que leem, mas não entendem e/ou não se interessam pelos mecanismos de apuração e verificação dos fatos que são “transformados” em notícias. É como se uma notícia se resumisse à mera vontade de quem a escreveu, no caso, o jornalista. Isso talvez explique em parte tanta gente sair por aí escrevendo e compartilhando bobagens sem buscar correlação entre o texto e os fatos (que é o que se busca nos processos de apuração e checagem).

Como eu disse, isso explica em parte! Muita gente repassa fake news inocentemente, porque acredita nelas e não confere o que lê, vê ou ouve. Mas quando o assunto é desinformação, devemos considerar o componente político, que torna tudo um pouco mais complicado. A distribuição em massa de fake news virou arma político-eleitoral e um perigo para as instituições democráticas, pois eleições passam a ser decididas com base em mentiras divulgadas por redes bem estruturadas compostas por especialistas em enganar as pessoas.     

Só nesta semana em que escrevo, meu saldo de notícias falsas apenas entre familiares inclui “Papa Francisco comunista”, “Jean Wyllys expulso de universidade portuguesa” e “Tom e Jerry retirados do Cartoon Network por serem politicamente incorretos” (esta última fake parece não ter a ver com política, mas indiretamente tem, sim). É cansativo. É extremamente cansativo! O que fazer?


Antes, deixe-me me apresentar

Meu interesse por ceticismo e ciência é antigo e, de certo modo, sempre se misturou ao meu trabalho com comunicação. Essa mistura me levou aos estudos sobre desinformação, um universo que envolve teorias conspiratórias, boatos, fake news, negacionismos científicos e revisionismos históricos. Não lembro exatamente há quantos anos pesquiso esse universo, mas meu primeiro trabalho com o tema foi em 2006, muito antes de termos como "fake news" e "pós-verdade" virarem palavras da moda. Em minha monografia, analisei o boato sobre a possível relação de sincronia entre duas obras artísticas: o álbum The Dark Side of the Moon, da banda Pink Floyd, e o filme O Mágico de Oz, dirigido por Victor Fleming. Segundo a lenda urbana, quando veiculados ao mesmo tempo, é como se o álbum servisse de trilha sonora alternativa para o filme. De fato, há pontos de sincronia impressionantes!

Tempos depois, em outro trabalho de conclusão de curso, fiz um estudo de caso sobre "O roubo da Amazônia", um boato que dizia que os americanos estavam se preparando para invadir a Amazônia e já ensinavam em suas escolas, por meio de livros didáticos, que a região não pertencia mais ao Brasil. Esse hoax (como eram chamados os boatos de internet naquela época) era considerado por muitos como o maior da internet brasileira até aquele momento. Naquela época muito da internet no Brasil ainda era mato. De lá para cá as redes e disparos de desinformação se profissionalizaram e viraram arma política.    


Pois então, o que fazer?

Não há soluções fáceis e definitivas, e as medidas precisam ser multidisciplinares, envolvendo, por exemplo, o aprimoramento jurídico para o combate às redes de desinformação, o trabalho constante das empresas jornalísticas de checagem (fact-checking) e uma nova pedagogia que ensine os cidadãos a lidar de forma responsável e consciente com as novas mídias e com a avalanche diária de informação (e desinformação). 

Essa nova pedagogia tem recebido o nome de “educação midiática” (mas também é chamada de “letramento digital”, “letramento midiático” etc).  É definida como um conjunto de habilidades para acessar, analisar, criar e participar de maneira crítica do ambiente informacional e midiático, o que inclui veículos impressos, rádio, TV e, principalmente, os formatos digitais. Seguem abaixo algumas dicas de manuais que tive acesso recentemente e achei bastante interessantes. Tudo gratuito e em português.  

Em uma tentativa de popularizar dicas sobre como identificar formas de desinformação, um grupo de mais de 20 especialistas se reuniu para publicar um manual que reúne algumas das principais características das mentiras que circulam por aí. O Manual da Desmistificação 2020 pode ser baixado no site Skeptikal Science [1]. Ele aborda, por exemplo, o peso que nossa visão de mundo possui para nos fazer compartilhar fake news que confirmam nossas crenças.

Outra publicação importante é o Manual das Teorias da Conspiração [2]. Produzido pelos pesquisadores Stephan Lewandowsky e John Cook, o trabalho tem como uma de suas premissas reunir dicas sobre como identificar o pensamento conspiracionista, e, por sua vez, as teorias da conspiração. Essas teorias se tornaram um tema recorrente no dia a dia da população, após a confirmação dos primeiros casos de coronavírus em território brasileiro, e ganharam maior projeção principalmente nas redes sociais, em meio às incertezas criadas pela pandemia. 

Por fim, quero destacar o Guia da Educação Midiática [3], desenvolvido por Ana Claudia Ferrari, Daniela Machado e Mariana Ochs e lançado pelo Instituto Palavra Aberta, referência em letramento digital e midiático no Brasil. Embora mereça ser lido por todos, este manual é voltado principalmente a educadores e chama a atenção para a urgência de prepararmos crianças e jovens para o relacionamento com as mídias. O guia é repleto de dicas e exemplos de como a educação midiática pode ser incorporada às aulas regulares de forma multidisciplinar, nas áreas de linguagens, matemática, ciências humanas e da natureza.  


Referências:

[1] Manual da Desmistificação 2020:

https://skepticalscience.com/translationblog.php?n=4886&l=10

 

[2] Manual das Teorias da Cosnpiração:

https://www.blogs.unicamp.br/mindflow/?p=533

 

[3] Guia da Educação Midiática:

https://educamidia.org.br/guia


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Jornalismo, diploma e fake news: lidar com a informação não é tão fácil quanto parecia

Hoje quero lembrar de uma discussão que foi frequente há cerca de 10 anos e que, por conta das mudanças sociais e tecnológicas, aparentemente tornou-se obsoleta nos dias atuais: o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Em 2009, o STF decidiu por 8 a 1 (Marco Aurélio Mello foi o voto vencido) que o diploma não mais deveria ser obrigatório, argumentando, dentre outras coisas, que essa obrigatoriedade feria a liberdade de expressão. Para muitos jornalistas – incluindo este que vos escreve – o argumento era descabido. Primeiro porque jornalismo não é para emitir opinião (embora haja, sim, alguns espaços para isso, como os editoriais); segundo, porque com frequência quando a tal opinião aparece é a do veículo e não a do próprio profissional.

Mas havia aqueles – diplomados ou não – que concordavam com a posição do STF e que diziam que o diploma era somente reserva de mercado. Se os defensores do diploma tinham o slogan “jornalista por formação”, seus críticos criaram um outro slogan: “jornalistas por vocação”. Lembro-me que na época entrei em um site destes últimos e vi um banner com a frase “jornalistas por formação” e a palavra “formação” riscada de vermelho, com a palavra “vocação” escrita por cima.      

Se o problema era a liberdade de expressão, hoje nós temos liberdade de expressão de sobra. Todos editam vídeos, textos, criam sites, veiculam "notícias". Mas se há 10 anos discutíamos se o diploma deveria ser obrigatório ou não, hoje a discussão é outra: como lidar com o turbilhão diário de desinformação (fake news, boatos, teorias conspiratórias…) que se replica velozmente impulsionado pelas mídias digitais, pondo em risco o estado e o sistema democrático no Brasil e em vários outros países? 

Não quero aqui tentar criar nenhuma relação de causa e efeito entre o fim da obrigatoriedade do diploma e a avassaladora escalada de desinformação. Obviamente não é isso. E também não estou dizendo que o jornalismo profissional sozinho tem forças pra conter a desinformação. Ele ajuda muito, mas só ele não basta. E vale lembrar que a imprensa profissional também tem seu histórico de disseminação de fake news, pois cometeu diversos erros ao longo de anos.

O que quero dizer é que o mundo vislumbrado lá no final da década retrasada pelo STF e pelos apoiadores do fim do diploma foi potencializado: todo mundo hoje em dia pode ser um pouco jornalista, mas os resultados disso têm mostrado que lidar com a informação é bem mais complicado do que um dia muita gente supôs e muitos ainda supõem. Definitivamente, ser “jornalista por vocação” não é fácil. Sem contar que é muito subjetivo. Muita gente pode se julgar vocacionada sem realmente ser.   

Implicitamente, aquela visão dos defensores do fim do diploma trazia uma crença ingênua no indivíduo: a ideia de que cada um, com discernimento e bom senso (conceitos que podem variar muito de pessoa para pessoa) poderia se tornar um bom emissor. Eu reconheço que sou pessimista em relação ao discernimento e bom senso individual (as aglomerações em tempos de pandemia estão aí pra mostrar o quanto o cidadão pode ser desarrazoado) e sei que lidar com a comunicação é complicado. Por mais que você explique algo, o ruído está sempre a rondar, como uma força da natureza, pronto pra por tudo a perder. Pode ser no jornalismo ou em briga de casal: um diz uma coisa e o outro entende outra. Comunicar é empurrar uma pedra morro a cima. Tarefa difícil. Lidar com a informação exige um certo trato.

Acho irônico ver o cenário atual de desinformação em massa e lembrar que há alguns anos a formação e o diploma em jornalismo foram minimizados por muita gente. Mas é justamente nesses cenários de desinformação que vemos o quanto o jornalismo profissional é importante.   Nesta pandemia, ele tem ajudado a combater um outro vírus que são as notícias falsas. Assim como o coronavírus, se não forem combatidas, elas se replicam muito rapidamente. Para quem quiser saber mais sobre a importância do jornalismo no combate à epidemia de desinformação, recomendo o documentário Cercados, da Globoplay. Lançado em dezembro do ano passado, o filme soa como uma retrospectiva de 2020, além de nos fazer pensar sobre o papel da imprensa, da checagem e da apuração responsável da notícia.


Referências:

1- 'Cercados' retrata os desafios da imprensa na cobertura da pandemia:

https://www.terra.com.br/diversao/cinema/cercados-retrata-os-desafios-da-imprensa-na-cobertura-da-pandemia,97bd205a251f73ff34499e34fc01d411ybpt9vls.html?fbclid=IwAR3SHJanoN02gebrFY1LYDL65P4HGqMiLlFek-oe1dceAH60xpCJng43eDI

 

2- "A desprofissionalização do jornalismo", episódio do Dialéticas Podcast, discute as mudanças na profissão nos últimos anos e o futuro do mercado:

https://www.youtube.com/watch?v=wRPSed0x_P0


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Alexandre Garcia, Manaus e a covid: um case de irresponsabilidade para a divulgação científica

 


Muito já se falou sobre o papel do jornalismo científico e dos jornalistas para a difusão de informação precisa e de qualidade, principalmente desde o ano passado, quando o enfrentamento à pandemia reforçou a discussão sobre a importância da divulgação científica. Dependendo da gravidade da situação, informações equivocadas ou mentirosas podem até matar, e, lamentavelmente, alguns profissionais do jornalismo parecem não se dar conta da responsabilidade que possuem e, em vez de combaterem as notícias falsas, são eles próprios quem as disseminam. 


Mas será que agem assim somente por desconhecimento? O vídeo publicado pelo jornalista Alexandre Garcia em dezembro do ano passado já vale como um bom case do que não se deve fazer em se tratando de divulgação científica [1]. Um case de irresponsabilidade, um mau exemplo, não só pelo conteúdo do vídeo, mas pelo contexto. No vídeo, o jornalista critica as medidas preventivas que estavam previstas para o município de Manaus e louva a parcela da população local que se opôs às medidas como uma espécie de “despertar para a racionalidade”. Um mês depois, em janeiro de 2021, Manaus torna-se a primeira capital de um estado brasileiro a sofrer mais fortemente com a chamada “segunda onda” da covid 19, com gente morrendo por falta de oxigênio. Um drama repercutido no mundo inteiro [2]. 


O vídeo do jornalista traz um desonroso compilado de absurdos que foram disseminados ao longo da pandemia. É representativo que tenha sido produzido e publicado em dezembro, porque soou como uma retrospectiva de passagens lastimáveis de 2020. Só faltou o ex-cronista da Rede Globo e ex-porta-voz do presidente João Figueiredo (último general a presidir o Brasil na ditadura) defender o uso da cloroquina.


O uso tendencioso das palavras

Logo no início do vídeo entitulado “Como Búzios, Manaus não aceita lockdown”, Garcia se refere às duas cidades como exemplos de um “despertar da população brasileira”, já que em ambas houve uma parte da sociedade que foi às ruas protestar contra as medidas restritivas, que aliás não chegavam a ser um lockdown igual aos vistos em países europeus como a Itália. A escolha de certas palavras e a opção pelo exagero são características da tendenciosidade do jornalista em seu vídeo. Ele exalta a insurgência de comerciantes locais como uma forma de “racionalidade” e exercício da “liberdade” contra as medidas protetivas dos órgãos de estado. Medidas estas que são recomendadas por organismos e especialistas da área de saúde. Garcia, que usa como pretexto uma suposta defesa do trabalho e da renda para justificar suas críticas ao isolamento social, chega a pôr em dúvida a proibição que o município do Rio de Janeiro impôs às festas de fim de ano, demonstrando uma confusão tremenda entre deslocamentos e aglomerações para fins de trabalho e para festas e recreações. Um absurdo completo! 


“Isso é liberdade”, disse Garcia, referindo-se às aglomerações de fim de ano. Não, caro jornalista! Isso é irresponsabilidade! E é impressionante como o conceito de liberdade vem sendo cooptado e deturpado por grupos políticos que desconsideram o valor da coletividade e o conceito de estado. A noção distorcida de liberdade disseminada por esses grupos e da qual se vale o jornalista vai de encontro a principios básicos de nosso ordenamento jurídico que dizem que as escolhas individuais não podem se sobrepor ao bem comum e que não há direitos absolutos, nem mesmo a liberdade. Aliás, nem mesmo a vida: do mesmo modo que um indivíduo portando uma arma em uma situação na qual apresente perigo para terceiros pode ser executado por um agente do estado (um policial) na busca por evitar um número maior de mortos, o direito de ir e vir e a livre iniciativa (como o funcionamento normal de estabelecimentos comerciais) também podem sofrer restrições se houver o entendimento de que isso é necessário para a preservação de vidas. Claro que isso implica em perdas, incluindo as perdas financeiras, para alguns dos envolvidos, e medidas de proteção social devem ser adotadas pelos governos. Mas o cronista não entra nesse aspecto. A solução, para ele, parace ser a desobediência civil sem pensar nas consequências que viriam. E elas vieram!   


Ele ainda classifica as medidas protetivas de outros países como “experiência totalitária” e a adesão a essas medidas, por parte da população que ficou em casa respeitando as normas de distanciamento, como “falta de coragem” dos “cordeirinhos que obedecem a tudo”. Simplesmente ultrajante! “Desaparece a racionalidade”, ele completa. Aqui, a palavra racionalidade é utilizada para rotular um explícito negacionismo científico, contrariando o consenso entre epidemiologistas sobre a necessidade do isolamento social.


“Doenças respiratórias matam mais que a covid”

Sem apresentar fontes, Alexandre Garcia afirmou que as doenças respiratórias são mais letais que a covid 19 e que, no Brasil, em 2019, foram responsáveis por 251 mil mortes. Aqui ele faz coro com tantos outros negacionistas que usam números de diversas causas de mortes para minimizar os riscos do coronavírus. Essa falácia pode variar: desde citarem mortos por engasgamento – como fez Caio Coppola [3] – até mortos pela desigualdade social (já ouvi isso na fila de um caixa de supermercado). O problema é que as pessoas vão continuar morrendo pelas diversas outras causas, às quais as mortes pela covid 19 irão se somar. Aliás, ao contrário do que Garcia afirma, a covid superou a média anual de mortes por doenças respiratórias no Brasil [4]. Portanto a afirmação não procede.


Vacina da Pfizer:  logística e alteração no DNA 

Garcia desqualifica a vacina da farmacêutica alemã destacando suas demandas logísticas que supostamente as inviabilizaria no Brasil, como a exigência de freezers de alta capacidade para que as doses sejam mantidas em temperatura menor que 70 graus celsius negativos. Entretanto, é um grande exagero afirmar que por conta disso a vacina da Pfizer seria inviável no país. A pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, já foi por diversas vezes enfática ao afirmar que sim, é possível o país acondicionar, transportar e manipular as doses, mesmo com essa exigência de baixíssima temperatura. Dalcomo tem sido uma uma importante voz para o esclarecimento da população sobre o contexto pandêmico e no combate a falácias e fake news, e a Fiocruz é referência mundial em vacinação e pesquisas na área.  A pesquisadora ressaltou que não é “aceitável que nós deixemos de aproveitar uma vacina que já está aprovada em caráter emergencial por questões logísticas” e que ela própria já foi procurada por diversos empresários do setor privado que se dispuseram a doar freezers com capacidade refrigeradora para armazenar o imunizante [5]. Portanto, há entraves logísticos, mas eles não são incontornáveis. A propósito, o ministro Pazuello não é um especialista em logística? Pois então…


Em seguida, Alexandre Garcia comete o maior dos absurdos, ao afirmar que a vacina da Pfizer “mexe com o DNA”. Voltando a nossa pergunta inicial (será que é só desinformação?), fica difícil afirmar que todas as afirmações enganosas do jornalista sejam somente por desconhecimento sobre o assunto. Nenhuma vacina para a covid-19 altera o DNA. O DNA fica no núcleo das células e as vacinas não chegam nem perto do núcleo celular, como explica o microbiologista Luiz Gustavo de Almeida, em seu importantíssimo texto para a revista Questão de Ciência [6]. Em outro importante esclarecimento, o neurocientista Fabiano de Abreu, doutor em ciências da saúde, refuta a afirmação mentirosa destacando que a vacina contra a covid-19 é de mRNA (uma espécie de cópia do DNA) e que "o RNA mensageiro não altera o código genético pois ele é uma cópia da fita e não o autêntico" [7]. Pois é. O código genético autêntico fica bem protegido no núcleo celular. Alexandre Garcia sequer se dá ao trabalho de explicar, do ponto de vista genético, como a vacina poderia “mexer com a genética”. Em vez disso ele parte para uma evasiva ao dizer quem em se tratando de “manipulação genética” só confia na Embrapa.  Só que a Embrapa é outra história, faz manipulação genética, por exemplo, com o gado. Essa tem a confiança de Garcia.


Ivermectina

Se faltou a defesa da cloroquina, não faltou a da ivermectina. O ex-cronista global defendeu a disseminação da ivermectina como tratamento preventivo, fazendo coro com o governo federal e seu Ministério da Saúde, quase como um porta-voz dos mesmos. Daí então ele dispara dados, novamente sem fontes, sobre lugares em que a ivermectina teria sido distribuída e ajudado a reduzir casos letais da covid-19. Nenhum estudo científico é apresentado. Não há comprovação de eficácia da ivermectina e nem de nenhum suposto “tratamento preventivo” (incluindo a cloroquina e hidroxicloroquina). Como destaca a bióloga Natália Pasternak, o remédio antiparasitário, usado para controle de piolho, pulgas, carrapatos e algumas verminoses em animais e seres humanos, demonstrou funcionar contra a atividade viral in vitro, ou seja, em cultura de células, e mesmo assim em doses elevadíssimas, o que poderia provocar uma overdose em um ser humano [8].  


Cabe ressaltar que o uso “preventivo” da medicação, mesmo sem comprovação clínica, vem sendo adotado por pessoas e até por alguns municípios, sem no entanto demonstrar eficácia. Itajaí tem a maior letalidade por covid-19 dentre as grandes cidades de Santa Catarina, mesmo tendo sido notícia por conta da prefeitura local distribuir o vermífugo gratuitamente como medida “profilática” [9]. Desde julho, mais de 2,2 milhões de comprimidos foram entregues à população. Até mesmo em Manaus, um médico que coordena UTI desabafou sobre a ineficácia do “tratamento precoce”, relatando que a maioria dos pacientes que chegam em sua unidade fizeram uso das medicações indicadas pelo governo federal e pelo jornalista Alexandre Garcia [10].  


E tem mais…

Uma refutação mais minuciosa do vergonhoso vídeo renderia mais e mais parágrafos. Cabe-nos destacar brevemente outras falas absurdas do ex-porta-voz de general, que disse que fechar ou não fechar as atividades comerciais “não faz diferença nenhuma”, coisa que, com já abordamos, contraria as recomendações de especialistas e também os números. Basta comparar a proporção de mortos em função do coronavírus no Brasil com os números da Nova Zelândia ou Alemanha, onde houve severas restrições. O próprio Bolsonaro, em maio do ano passado, fez a mesma tentativa de Garcia e se deu mal. Tentou comparar Argentina com Suécia para “confirmar” que as medidas de isolamento não fariam diferença (o primeiro país havia adotado as medidas; o segundo, não).  Veículos do jornalismo profissional fizeram as contas: a Argentina tinha 7,4 mortes por milhão de habitantes, enquanto o país escandinavo tinha 346,5 mortes por milhão [11]. A matemática é implacável, com Bolsonaro e com Alexandre Garcia. Para contestar as pessoas que estão dentro de casa por precaução, o jornalista ainda solta outra pérola: “nada como ar puro”. Um acinte!!


Por fim, a política 

No mesmo vídeo, ao final, o jornalista divulga o resultado de uma pesquisa de intenção de votos para a presidência em 2022, do site Poder 360. Garcia diz não confiar em pesquisas de institutos tradicionais, mas nessa ele confia: “São meus vizinhos de escritório”, disse ele, referindo-se à equipe do site. Segundo os dados, se a eleição fosse hoje, Bolsonaro venceria logo no primeiro turno, com quase o triplo de votos do segundo colocado, que seria Fernando Haddad. Divulgação de pesquisas é prática comum entre jornalistas, mas é interessante como Garcia “assina embaixo” desta pesquisa específica (logo, deste resultado), ao mesmo tempo em que desqualifica outras possibilidades. 


Pode parecer que neste momento ele muda de assunto, mas em um esforço de análise do discurso, não muda. Desde o começo do vídeo a narrativa sobre a covid-19, incluindo críticas às medidas restritivas, curas não comprovadas, mentiras sobre a vacina etc, é basicamente a narrativa bolsonarista. A divulgação de uma pesquisa favorável ao atual presidente só deixa explícito o que já estava claro. É por isso que ao analisarmos notícias falsas, distorções e teorias conspiratórias, devemos buscar uma contextualização sociopolítica da narrativa. Por exemplo, no caso da vacina e a falsamente alegada mudança genética que ela provoca, não adianta somente explicar, em termos da biologia, da genética e da medicina, como isso não é possível. Observem que o jornalista não se preocupou muito em fazer detalhamentos nessas áreas para convencer o público sobre a falsa afirmação. O esclarecimento nessas áreas é fundamental, mas o mapeamento sociopolítico é aquilo que vai puxar o fio da narrativa, seguir esse fio e chegar à raiz: o comprometimento político. O cerne político pode parecer óbvio para alguns, mas para muitos não é.  


Gostaríamos de dizer que o vídeo serve como exemplo da importância da especialização do profissional da comunicação em assuntos de ciência e saúde, mas isso seria um tanto ingênuo. Seria partir do princípio de que Alexandre Garcia é meramente um desinformado. Claro que a especialização é muitíssimo importante e faz diferença. Mas, voltando a nossa pergunta inicial,  possivelmente não é uma questão somente de desinformação. O vídeo está mais para um bom exemplo de distorção da ciência e da divulgação científica como fruto de propaganda política.   Neste caso, o de Garcia, certamente se aplica o que diz o físico americano Alan Sokal: “Os piores inimigos da ciência são os políticos e a propaganda” [12]. Um vídeo que, analisado em perspectiva com os desdobramentos ocorridos em Manaus no mês seguinte ao que foi produzido, mostra-se um case do quanto o jornalismo dito profissional pode ser irresponsável e prestar um desserviço à saúde pública e à população.


 REFERÊNCIAS

[1] Vídeo de Alexandre Garcia

https://www.youtube.com/watch?v=mcKlFPN-RrE&fbclid=IwAR1cAFnhmxjkf-mNx8pbTRNRPLTdSIIu_vIwlsRtGac3_e4rT1XmJ7tIFik


[2[ Repercussão mundial do drama vivido em Manaus

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/01/15/imprensa-mundial-repercute-sobre-o-colapso-do-sistema-de-saude-em-manaus


[3] Caio Coppola compara mortos pelo coronavírus com mortos por engasgamento nos EUA

https://tribunahoje.com/noticias/politica/2020/04/29/apos-subestimar-doenca-caio-coppola-testa-positivo-para-coronavirus/


[4] Comparação entre mortos pela covid e por doenças respiratórias

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/07/25/covid-19-ja-supera-mortes-anuais-por-doencas-respiratorias-desde-1996.htm


[5] Sobre a logística para a vacina da Pfizer

https://www.band.uol.com.br/noticias/pesquisadora-da-fiocruz-inaceitavel-nao-aproveitar-vacina-por-questao-logistica-16318806


[6] Sobre vacina e DNA

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2020/11/25/nenhuma-vacina-vai-mexer-com-o-seu-dna


[7] Sobre vacina e DNA

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/vacina-de-mrna-contra-covid-19-nao-altera-codigo-genetico-explica-neurocientista.phtml


[8] Sobre a ineficácia da ivermectina no combate ao coronavírus

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2020/06/15/ivermectina-e-o-novo-bezerro-de-ouro-da-pandemia


[9] Mesmo com distribuição gratuita de ivermectina, Itajaí tem elevado número de casos de covid

https://www.nsctotal.com.br/colunistas/dagmara-spautz/com-distribuicao-de-ivermectina-itajai-tem-a-maior-letalidade-por-covid?fbclid=IwAR0ytTQSPx2vq_2CtV1nS93D4jtp8X3tiawMV0sPEoEbIhyQJz5ORPprBvc


[10] Manaus: coordenador de UTI desabafa sobre ineficácia do tratamento precoce

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/15/manaus-coordenador-de-uti-desabafa-sobre-ineficacia-do-tratamento-precoce.htm?utm_source=facebook&utm_medium=social-media&utm_campaign=noticias&utm_content=geral&fbclid=IwAR1faITw8V1XnYgyy5oWOg0wU3ZG1Zr0uhbRURX_rQwJ3KO5iwI4rMEsNGg


[11] Comparação entre Argentina e Suécia: mortos por milhão de habitantes

https://www.acidadeon.com/cotidiano/brasil-e-mundo/NOT,0,0,1517429,Bolsonaro%20pediu%20para%20comparar%20as%20mortes%20de%20Brasil%20e%20Argentina-%20O%20resultado%20e%20pessimo%20para%20ele.aspx


[12] Entrevista com o físico americano Alan Sokal

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/05/ciencia/1491416759_691895.html

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Cinco motivos pelos quais a propaganda do TSE, com Caio Coppolla e Gabriela Prioli, é ruim

 


Faltando poucos dias para a votação em primeiro turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançou uma propaganda em favor da democracia, do respeito àqueles que pensam diferente e do voto consciente, reiterando a necessidade de os eleitores buscarem informações confiáveis sobre seus candidatos [1]. A propaganda gerou polêmica e críticas [2], principalmente por conta da escolha de Caio Coppolla e Gabriela Prioli como garotos-propaganda. Aqui, destaco cinco pontos pelos quais a propaganda é ruim, além de tentar mostrar de que forma ela é sintomática de problemas que tem tomado o debate político e a própria comunicação nos últimos tempos. Implicitamente, a peça publicitária do TSE assimila e reproduz esses problemas. 

1- Se a proposta é criticar a ideia de polarização, que contaminou a política atual, a propaganda termina por implicitamente reproduzí-la, ao colocar, de um lado, o Coppolla (direita), e, de outro, a Prioli ("esquerda"). Isso reforça a polarização e legitima o Fla-Flu político, desconsiderando tantas outras nuances. Não deveria ser esse o papel da publicidade institucional de um órgão tão importante. Isso em um cenário de debate político agressivo, em grande parte influenciado e impulsionado pelas redes sociais, que favorecem o engajamento de discursos agressivos e, ao mesmo tempo, desfavorecem falas mais moderadas ou ponderadas (que normalmente geram menos engajamento).  

2- A propaganda legitima como "comentarista político" um desqualificado como Caio Coppolla. Aqui uso o termo não apenas no sentido pejorativo, mas principalmente no sentido literal. Trata-se de um desqualificado porque 1) não tem nenhuma trajetória de ação política de base (normalmente ligada a ONGs, movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos, associação de moradores ou entidades de classe); 2) não tem nenhum estudo formal em sociologia e ciência política; e 3) como debatedor/argumentador sempre foi um sofista, usando e abusando de falácias argumentativas. Um exemplo vivo do livro "Como vencer um debate sem precisar ter razão", de Arthur Schopenhauer. Se a proposta da peça publicitária é ressaltar o respeito a quem pensa diferente, como disse em seu Twitter o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, não custava terem escolhido um nome melhor do que Coppolla, que tem um histórico de interromper oponentes, aumentar o tom e lançar mão de demais estratagemas sempre que se vê acuado. Coppolla é um bacharel em direito que nunca exerceu a profissão, apenas tendo atuando no marketing (e isso, sem dúvida, ele faz muito bem) e dedicado-se a torrar grana da família com uma banda que quase plagiava o Oasis (com direito a Caio nos vocais imitando o sotaque de Manchester do Liam Gallagher). Caio Coppola é mais uma cria do Youtube que foi alçado ao conhecimento público por conta de mídias reacionárias como a Jovem Pan e a CNN Brasil. Já falei sobre a necessidade de as pessoas pesquisarem realizações e formação dos formadores de opinião para além de suas performances midiáticas. Pois então: Caio Coppola é um exemplo prático dessa necessidade! E aqui está um ponto que destaco sobre o quanto a peça publicitária é sintomática de problemáticas atuais, ao priorizar, dentro do contexto político, figuras que mais se destacam pela forma (retórica, sofisma, manipulação de recursos digitais, marketing agressivo) do que pelo conteúdo [3] [4]. Um cenário em que técnicas comunicacionais, de marketing e relações públicas são cada vez mais preponderantes. Exageradamente até.   

3- Ainda sobre a propaganda do TSE, em terceiro lugar, ela decide que Gabriela Prioli é a representante da esquerda. Mais uma vez, esse papel não deveria caber à propaganda institucional do órgão. Mas é sintomático do quanto o conceito de esquerda tem se deslocado para a direita nos últimos anos na política brasileira. Vale à pena conferir a coluna da ombudsman da Folha de S. Paulo, Flávia Lima, "as direitas se movem" [5], sobre como o jornal paulistano vem servindo a estratégias da direita de se promover como moderada e centrista, incluindo a promoção de uma possível chapa Sérgio Moro/Luciano Huck como uma opção de centro. Não é à toa que o que se "convencionou" chamar de "centrão" é, basicamente, um apanhado de partidos da direita fisiológica tradicional. Um exemplo disso é o partido Progressistas, que, segundo o noticiário hegemônico, faz parte do "centrão". Mas pela árvore genealógica partidária do Brasil, o Progressistas sempre esteve à direita, sendo um remanescente do PP, que por sua vez era remanescente do PPB, que era remanescente do PDS, que, finalmente, era remanescente do Arena, partido governista na ditadura militar. O partido sempre esteve à direita. Do ponto de vista histórico-político, não faz nenhum sentido situá-lo no centro.


4- Ao colocar Coppola e Prioli lado a lado, a propaganda sugere uma simetria entre ambos que não existe (nem em termos ideológicos, nem em termos intelectuais). A falsa simetria é outra característica sintomática do debate político atual. Diversos políticos e partidos se valeram dela nas eleições de 2018 para defender que PT e Bolsonaro seriam ambos radicais, lados de uma mesma moeda. Mas não são! Bolsonaro é um ultradireitista extremista, que, ainda que tenha sido eleito democaticamente, defende abertamente a ditadura e não tem apreço pelas instituições democráticas, frequentemente querendo se impor ao Legislativo e Judiciário. E Caio Coppola, enquanto marqueteiro e defensor de Bolsonaro, situa-se como um extremista também. Há algo de síndrome de Estocolmo por parte da Justiça eleitoral ao chamar para ser garoto-propaganda alguém que parece não se importar muito com o equilíbrio entre os Três Poderes. 

5- Por fim, mas não menos importante, vale destacar que se a proposta da peça publicitária é incentivar o voto consciente e a busca por informações sobre o histórico de cada candidato (conforme seu próprio texto diz), essa proposta passa invariavelmente pela questão das fake news. Esse foi mais um motivo de críticas de internautas à escolha de Coppolla como garoto-propaganda, já que o "comentarista político" já se envolveu diretamente em casos flagrantes de disseminação de desinformação. Em certa ocasião, na CNN, Coppolla endossou falas de Bolsonaro, sem provas, sobre fraude nas urnas eletrônicas [6], o que contraria a posição do TSE, que afirma e reafirma com frequência que o sistema é seguro. Por esse motivo, do ponto de vista da imagem institucional, a escolha de Coppola como garoto-propaganda mereceria, no mínimo, bastante cuidado. Por que associar a imagem da instituição à de alguém que levanta suspeitas, sem provas concretas, sobre seus procedimentos? Além disso, o jovem se mostrou um negacionista científico. Sempre endossando posições do governo Bolsonaro, no início da pandemia Coppolla gravou um vídeo minimizando a doença para contrariar as medidas restritivas e as regras de isolamento. Ele comparou o coronavírus com engasgo e afirmou que nos EUA mais pessoas morriam engasgadas do que de covid-19 [7]. A comparação não faz nenhum sentido, pois não dá para comparar uma doença epidêmica, ou seja,  que se multiplica e pode gerar um surto epidêmico, com um incidente como um engasgo, que não se replica (se você engasgar em público, outras pessoas que estão ao seu lado não vão sair engasgando por aí). Isso significa que, ainda que em uma específica semana morra-se mais de engasgo do que em decorrência de um vírus, dois ou três meses depois, por ter se multiplicado, o número de vítimas do vírus será bem maior que o de pessoas engasgadas. Fazer tal comparação é uma demonstração de ignorância ou mesmo de desonestidade. Como então justificar a escolha dessa figura pública para uma propaganda que aborda o trato adequado da informação?


Referências:

[1] TSE junta Gabriela Prioli e Coppola em campanha contra polarização. Veja o vídeo:

https://congressoemfoco.uol.com.br/video/tse-junta-gabriela-prioli-e-coppola-em-campanha-contra-polarizacao-veja-o-video/


[2] Justiça Eleitoral é criticada por campanha com Caio Coppolla e Gabriela Prioli:

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/justica-eleitoral-e-criticada-por-campanha-com-caio-coppolla-e-gabriela-prioli-45510


[3] Quem é Caio Coppolla?

https://www.youtube.com/watch?v=VIWe2kKpvJs&fbclid=IwAR3ZVbSIPSdkd1KfCCjIZkcRN0HRwo0DXAOXfI6hr1JDitMxNdTTAwJED-A


[4] Quem é Caio Coppolla, o comentarista conservador da CNN Brasil?

https://observatoriodatv.uol.com.br/noticias/quem-e-caio-coppolla-o-comentarista-conservador-da-cnn-brasil?fbclid=IwAR3x_UalqdJS0mKqZ8XJWm0bTMDSULC2NpZTt9Z9tn-azGet75MXgmcaIHI


[5] As direitas se movem:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/flavia-lima-ombudsman/2020/11/as-direitas-se-movem.shtml


[6] VÍDEO: Garoto-propaganda do TSE, Caio Coppola detona as urnas eletrônicas

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-garoto-propaganda-do-tse-caio-coppola-detona-as-urnas-eletronicas/


[7] Caio Coppolla e Gabriela Prioli aparecem em campanha do TSE e web critica

https://catracalivre.com.br/entretenimento/caio-coppolla-e-gabriela-prioli-aparecem-em-campanha-do-tse-e-web-critica/

       

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Telenovelas servem como registro histórico? A comparação entre duas obras e o preconceito com a terceira idade

 


Não sou de ver novela, mas acho que elas são muito boas para retratar a sociedade e contextos de uma época. Percebi esse grande potencial da teledramaturgia assistindo involuntariamente algumas novelas no Canal Viva, por às vezes estar no mesmo recinto que a minha mãe (ela é noveleira, daí não tem jeito...). Comecei a reparar nos figurinos antigos, maquiagem, penteados, cenografia, carros. Talvez esses elementos sejam os que mais saltam aos olhos como registro de um tempo antigo. Mesmo que o tempo nem seja tão antigo assim. Uma novela ambientada há uns 15 anos já é o bastante para nos gerar certa estranheza quando assistimos em uma perspectiva comparada à atualidade. 

Mas não fica só nisso. Logo você começa a reparar em outros elementos: gestos, gírias e expressões. Tudo descortinando as diferenças entre contextos e épocas. Em Pai Herói por exemplo, novela de 1979 reprisada recentemente pelo Viva, me chamou a atenção o modo como o personagem André (Tony Ramos) agarrava e sacudia Carina (Elizabeth Savalla) com certa truculência nas brigas de casal, mesmo sem ser um vilão. Pelo contrário, era o protagonista e herói da trama. Naquela dramatização de gestos é possível encontrar um registro da micro-história contemporânea, de como eram as relações cotidianas na década de 1970, incluindo o machismo e a subordinação feminina na cultura da época? Creio que sim.

Mesmo as novelas de época, que retratam um período diferente daquele em que foram feitas, ainda assim nos dizem alguma coisa em perspectiva histórica. A versão original de Sinhá Moça (1986) e o seu remake (2006), quando vistos em perspectiva comparada, nos mostram o quanto os aspectos técnicos das produções audiovisuais avançaram. A iluminação é um exemplo que salta aos olhos, literalmente: a versão original tinha tomadas bem mais escuras, principalmente em ambientes internos.    

Podemos ir além. Duas novelas do autor Manoel Carlos estão sendo reprisadas atualmente na Globo e no Viva: Laços de Família (2000) e Mulheres Apaixonadas (2003), respectivamente. Maneco, como é chamado o dramaturgo, ficou conhecido como o novelista do Leblon, bairro mais caro e nobre do Rio de Janeiro. As Helenas, suas heroínas – outra característica de Manoel Carlos – vivenciavam suas histórias nos círculos de elite, em um Brasil aristocrático de poucos privilegiados. Em um desses episódios aleatórios e involuntários com os quais me deparo, ouço a frase: “Pai, preciso tirar logo minha carteira de motorista. Não aguento mais andar de táxi”, disse a adolescente para seu papai. Surreal. Ao menos para mim. E para a esmagadora maioria da população também. 

A frase é de Mulheres Apaixonadas, exibida na primeira metade da década passada. De lá para cá, o Brasil passou por transformações sociais – pude sentir e observar algumas delas – que possibilitaram uma ascensão de poder aquisitivo das classes C, D e E. Você pode até discordar dessa perspectiva e não pretendo me aprofundar em questões políticas, mas experimente observar a teledramaturgia desta última década. Observe como o enquadramento das temáticas mudou nas novelas. O universo teledramatúrgico burguês de Manoel Carlos e similares foi perdendo espaço e sendo substituído por obras, digamos, mais inclusivas, cujos eixos temáticos estão mais próximos das classes populares: Avenida Brasil (2012), Salve Jorge (2012), A Força do Querer (2017), Amor de Mãe (2019)... Isso não acontece por acaso. É a produção cultural acompanhando as mudanças sociais.

De Sassaricando a Haja Coração: corpolatria e culto à juventude aumentaram nos últimos anos?

Mas como a história não é linear e nem toda mudança é “positiva”, vamos lá... Assistindo à novela Haja Coração (2016), inspirada em Sassaricando (1987), fiquei surpreso ao ver Alexandre Borges no papel de Aparício, que era interpretado na obra original por Paulo Autran. O que me surpreendeu foi o fato de Borges ser visivelmente mais jovem do que Autran era quando fazia o personagem. Daí vi que alguns outros personagens da novela atual são interpretados por atores mais jovens do que os originais. 

Resolvi passar para uma análise mais minuciosa (a quem chame isso de “falta do que fazer", rsrs). Pesquisei as idades de algumas atrizes quando atuavam em ambas as obras (as idades estão entre parênteses). O trio de amigas Rebeca, Penélope e Leonora, interpretado em Sassaricando por, respectivamente, Tônia Carrero (65), Eva Wilma (54) e Irene Ravache (43), foi substituído em Haja Coração por Malu Mader (50), Carolina Ferraz (48) e Ellen Rocche (37). Somando e dividindo as idades das atrizes recentes, temos uma média de 45 anos, nove a menos que a média de 54 anos das atrizes originais em 1987. Isso em uma sociedade em que a expectativa de vida aumentou nos últimos anos. Não é curioso que vivamos mais, mas sejamos descartados e/ou desvalorizados mais cedo? 
 
Daí achei que eu tivesse descoberto a pólvora com esse contraste de faixa etária entre as obras (que ingenuidade! Mas como eu disse anteriormente, não sou muito fã de novela), porém, quando fui procurar na internet sobre as duas produções e as diferenças de idade entre os atores, me deparei com uma excelente matéria[1] que já fala sobre isso, que parte dessas diferenças para discutir a sociedade atual e a discriminação com as pessoas de mais idade, não só nas produções audiovisuais, mas no mercado de trabalho em geral, incluindo falas de um sociólogo, recortes de gênero e de classe. Matéria muito boa mesmo!  

Se for verdade o que afirmo, que telenovelas servem mesmo como documento histórico ao retratar contextos sociais, gostos e idéias de uma época, Haja Coração, em comparação à obra oitentista que a inspirou, serve como um bom exemplo de nosso atual culto exagerado à juventude, de nossa corpolatria e do quanto esses aspectos sociais foram acentuados em um intervalo de tempo relativamente curto (dos anos 1980 para cá). O fato de a Globo estar reexibindo Haja Coração atualmente ao mesmo tempo em que Sassaricando pode ser assistida no canal Viva facilita que ambas sejam vistas em perspectiva comparada. Cada um pode tirar suas próprias conclusões sobre as mudanças sociais. Ou apenas se divertir com as tramas. 

Referência
[1]   "De Sassaricando a Haja Coração, preconceito com atores veteranos aumentou nas novelas":


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Átila e seu vídeo comparando mercado a formigueiro: o que podemos aprender?



Tenho como um dos meus filtros de internet pesquisar o currículo de uma personalidade quando ela se destaca como formadora de opinião. Vale Lattes, Linkedin, Vitae. Vejo a formação, a experiência profissional, o que mais eu puder. Já fui criticado por isso, mas no terreno arenoso da internet, onde cada um diz qualquer coisa, acho válido. Na sociedade de espetacularização midiática em que vivemos, as estratégias de propaganda, marketing e relações públicas estão a todo o momento atropelando o conhecimento e se sobrepondo a ele. É a forma frequentemente esmagando o conteúdo. É a velocidade superando a reflexão.

Dito isso, quero usar o exemplo recente do Átila Iamarino, que fez um vídeo para seu canal Nerdologia comparando o funcionamento do mercado financeiro a um formigueiro (vídeo este declaradamente patrocinado por uma corretora)[1]. É o tipo de analogia com carga ideológica que dá um verniz de fenômeno da natureza a um construto social, "biologiza" o capitalismo fazendo-o parecer natural, inerente ao ser humano e, logo, o melhor (ou mesmo o único) caminho possível. 

Sobre esse tipo de analogia falha entre natureza e fenômenos socioeconômicos e políticos, recomento o pequeno livro "O que é Darwinismo"[2], do biólogo Nélio Marco. Nesta obra o autor mostra como as comparações entre natureza e funcionamento do capitalismo já permeavam o trabalho do naturalista Charles Darwin. A idéia de competição, marcante na economia de mercado e também presente na selva (quem nunca ouviu a expressão “capitalismo selvagem”?). O livro do biólogo desconstrói essas analogias e mostra o quanto elas estão impregnadas de ideologia, o quanto cientistas como o próprio Darwin tendem a interpretar a natureza e as coisas a partir dos pressupostos do mundo em que vivem, inclusive os pressupostos econômicos. A visão da natureza como uma analogia da competição capitalista desconsidera, por exemplo, inúmeros exemplos de mutualismo e de cooperação entre animais de uma mesma espécie. Marco cita como um dos exemplos o “trabalho conjunto” feito por zebras movimentando-se em círculos e supostamente usando suas listras para confundir os predadores. 
     
Há implicitamente um argumento de autoridade no vídeo do Nerdologia: Átila, um biólogo respeitável, lança mão de seu prestígio para ir além de sua área. Assim sendo, é um argumento de autoridade bem truncado, pois o fato de ele ser um grande biólogo não faz dele um economista ou cientista social.

Isso também não significa que Átila e seus seguidores sejam estúpidos, como agora, aborrecida com o vídeo, quer fazer crer os críticos mais mordazes do vídeo (pessoas politicamente à esquerda, incomodadas com o modo como o livre mercado foi retratado). Pelo contrário: no contexto pandêmico atual, Átila, youtubers e demais produtores de conteúdo semelhante (de popularização da ciência) são aliados importantes contra o negacionismo científico. E não adianta muito apenas atacar sem explicar por A mais B, com algum didatismo, onde o vídeo está errado.

Por isso volto à importância de se ter em mente a formação e a vivência de alguma celebridade de internet para além de suas atuações no espaço virtual. Átila é biólogo, e a chance de um especialista cometer algum equívoco ou distorção aumenta muito na medida em que ele desliza para outras áreas distantes da sua. Isso vale para todos, pois ninguém é onisciente. No caso do Átila, mais vale isolar o vídeo em questão do restante de seu trabalho (a meu ver, muito bom!), explicar os simplismos e erros do vídeo específico e valorizar os acertos do conjunto da obra.

Ninguém sabe tudo e acho importante as pessoas se informarem que o Olavo de Carvalho não é filósofo, que o Leandro Narloch não é historiador, que a Gabriela Pugliese não é nutricionista ou professora de educação física (ela é formada em desenho industrial). Vale a pena levar certas informações em conta para se estabelecer o quanto de valor se dá àqueles que ajudam a formar nossa opinião. É um filtro que está longe de ser infalível, mas que acho válido, que uso e recomendo. E este texto, como já se deve ter ficado claro, não é uma crítica ao trabalho de um youtuber, mas um exercício de aprimoramento da literacia midiática[3] valendo-se de um exemplo concreto. A literacia midiática vai se elaborando e reelaborando conforme a mídia se transforma.  
    
Referência:

[1] Vídeo “O livre mercado é um computador”, de Átila Iamarino do canal Nerdologia:

[2] MARCO, Nélio. O Que é Darwinismo? São Paulo: Brasiliense, 1987.

[3] Entendendo o que é Literacia Midiática:


terça-feira, 20 de outubro de 2020

A mensagem subliminar na publicidade é real?*

Você já deve ter ouvido, lido ou visto alguma notícia assustadora sobre como propagandas subliminares são usadas no meio publicitário e a capacidade que elas têm de afetar nossas escolhas sem que sequer a percebamos. Vou dar um exemplo clássico: imagine você estar assistindo sua programação preferida na televisão e, de repente, uma imagem pisca na sua tela. Essa imagem é de uma marca, vamos supor… de cosméticos. Você repara nesse frame, segue assistindo a sua programação e sente uma vontade incontrolável de consumir aquele produto. Será que é assim que funciona? Será que, naquela mesma hora, você ficou interessado em consumir essa marca? Ficou interessado em descobrir que marca é essa? Ficou assustado com a potencial capacidade de uma marca influenciar nas suas ações?

James Vicary, esse é o nome do responsável por cunhar o termo propaganda subliminar e o autor, segundo ele mesmo, de um comercial da Coca-Cola que utilizou da estratégia semelhante ao do exemplo dos cosméticos. No ano de 1957, em uma sala de cinema, Vicary colocou projetores que transmitiam palavras “Beba Coca-Cola” e “Coma pipoca”, durante um intervalo de 1/3.000 de segundo, a cada cinco segundos, em todas as sessões do filme. O resultado foi extraordinário: aumento de 18,1% nas vendas de Coca-Cola e de 57,8% no aumento das vendas de pipoca. A população ficou assustada: “o que as marcas farão conosco a partir de agora?; será que os russos transformarão todos em comunistas?” (afinal, eram tempos de Guerra Fria); “como saber se já fui ou serei afetado por esse tipo de publicidade?”; “como me proteger?”. Esses foram alguns dos questionamentos da população sobre o novo medo.

Se esse caso da Coca-Cola de Vicary foi o primeiro, de tempos em tempos surgem exemplos que complementam essa história. Filmes infantis que escrevem palavras não apropriadas para crianças (caso de “s-e-x” na animação O Rei Leão), disco da Xuxa que se ouvido de trás para a frente é uma “exaltação ao demônio” ou frames imperceptíveis a olho nu criam um estímulo de consumo irresistível. De acordo com essa perspectiva, podemos definir, então, que propagandas subliminares são estímulos visuais, auditivos, sensoriais que estão um pouco abaixo do nosso nível de percepção consciente, sendo registrados apenas pelo nosso inconsciente, que, por sua vez, executa vontades sem que notemos o processo. 

Toda essa história e esse medo já seriam, realmente, assustadores e preocupantes. Sim, seriam, se tudo isso, de fato, fosse propaganda subliminar. A começar por Vicary. O que ele contou não passou de uma mentira. Nada de aumento de venda, nada de propaganda subliminar, nada de sala de cinema. Nada! Nem quando realmente tentou colocar esse experimento em prática, teve resultado positivo. Nada de “s-e-x” escrito nas animações. Em O Rei Leão, a sigla era “s-f-x”, referente aos efeitos especiais. Os animadores colocavam a sigla de brincadeira em todos os filmes que faziam para mostrar o quão orgulhosos eram dos seus efeitos especiais. Por último, muito menos o disco da Xuxa tocado ao contrário queria dizer alguma coisa. Isso foi uma lenda das décadas de 1980 e 1990.  E, afinal, quem escuta um disco ao contrário?!


Então quer dizer que propagandas subliminares não existem? Que não preciso me preocupar com o risco de ser estimulado inconscientemente por uma marca? Não, não é isso! O que quero dizer é que propagandas sublimares são muito piores do que parecem. Elas estão gritando na sua cara e você, ainda assim, não as percebe. Elas o atingem muito mais sensorialmente e, ainda que você perceba, tende a ser atraído para seus produtos.

 

É proibido fumar? O porquê das companhias de cigarro estarem sempre um passo à frente

Vamos começar de “leve”, com as propagandas de televisão. Quando você assiste a um comercial do Itaú, antes mesmo de a marca ser visível, você já sabe ou desconfia que é um comercial do Itaú, por conta de algumas identidades visuais elaboradas pela marca dentro dos estudos de branding. Repare que a coloração do comercial é levemente alaranjada, que objetos ou roupas dos personagens são azuis, que o estilo musical se mantém em praticamente todas as propagandas e por ai vai. Evidente que isso não é exclusivo do Itaú, mas se repete nos comerciais do Santander, Bradesco ou qualquer outro banco que utilize o branding. O mesmo se aplica a outras marcas fora do setor bancário, como Claro, Tim, Oi, Vivo, posto Ipiranga, Skol, Antarctica, etc, etc e etc.

E se isso ainda não é necessariamente impressionante ou mesmo assustador, é porque os logos ainda aparecem em seus comerciais, nunca foram proibidos. Fazendo um exercício de imaginação, se marcas de bancos forem proibidas em publicidade, basta o Itaú fazer esse mesmo estilo de anúncio e apenas suprimir seu logo no final. Ainda assim, você conhecerá qual marca está falando com você.

E se esse exercício de imaginação for difícil, tudo bem, aconteceu isso com comerciais de cigarro. Em 1950 começaram os burburinhos de que o cigarro causava câncer. A Malboro resolveu inovar em filtros para os produtos, mas inovou também nos comerciais. Contrataram Robert “Bob” Norris (que nunca fumou durante seus 90 anos de vida!), um cowboy do Colorado, para estrelar um comercial. Esse estilo, que se ligava à liberdade (não se esqueça, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, a Guerra Fria estava a todo vapor) se tornou a identidade da marca nos anos seguintes. Com o slogan: “Venha para onde está o sabor. Venha para o mundo de Marlboro”, a marca teve um estrondoso sucesso, chegando a ser a marca de cigarros mais vendida do mundo. Sucesso que perdura até hoje. Além, é claro, do ideal de liberdade, a Malboro se colocava ao lado de um ideal de virilidade, saúde e beleza. Avançando um pouco mais no tempo, você acha coincidência que a marca de cigarro tenha escolhido patrocinar uma equipe de Fórmula 1, cujo carro é extremamente veloz, eficaz, forte e vencedor? O mesmo se aplica ao seu patrocínio na Nascar. Segundo o site da Nascar, seus fãs são considerados os mais fiéis a marcas do esporte. A propósito, as 500 maiores empresas norte-americanas apontadas pela Fortune patrocinam mais a Nascar do que qualquer outra associação ou federação esportiva.[1]

Quando os comerciais de cigarros passaram a ser proibidos, novas estratégias foram obrigadas a ser pensadas pelos anunciantes, que se viram forçados a dar um salto para o futuro, a estarem à frente do próprio tempo. Retiraram suas marcas, mas mantiveram um homem andando a cavalo, uma paisagem desértica com um belo pôr do sol, dois vaqueiros conversando sobre um sol avermelhado etc. Na verdade, eles foram ainda mais além, escolheram uma escuderia da formula 1, com seu tom de vermelho, vestiram pilotos e estamparam a marca nos carros. Se em 2007 ficou proibido estamparem sua marca nos carros da Ferrari, tudo bem, substituíram pelo seu ícone. Se o ícone foi proibido, tudo bem, vamos lançar uma frase Mission Winnow, que reflete o nosso novo posicionamento mundial (reparem que o M é parecido com o do logo).


E aí, você deve estar pensado: por que, então, não proíbem qualquer alusão à marca em qualquer mídia? E aqui a história de propaganda subliminar fica ainda pior. Elas podem ser proibidas, elas podem ficar sem gastar um centavo com publicidade, o governo já está fazendo isso por elas. Sim, sabe aquelas imagens chocantes que ficam nos maços de cigarro e estão expostas em bares, mercados, totens ou mercearias? Então, elas funcionam como comerciais para cigarros e, diferente do que pensamos, estimulam ainda mais a fumar.

É isso que mostra o maior estudo de neuromarketing, que começou em 2004, foi finalizado em 2007 e selecionou mais de 2.000 voluntários vindos de diversos lugares do planeta – Estados Unidos, Inglaterra, Japão, Reino Unido, Alemanha e China – para entrarem em uma máquina de IRMf (Imagem por Ressonância Magnética funcional), “nada mais que um aparelho que faz um minifilme amador do cérebro a cada intervalo de poucos segundos – e em dez minutos pode reunir uma quantidade espetacular de informações” (LINDSTROM, 2009). Desses 2.000 voluntários, 32 fumantes foram selecionados e a eles, com esse aparelho que escaneia o cérebro, foram mostradas diversas imagens de advertência sobre cigarros em vários ângulos (pulmões cinzas, câncer em estágio avançado, aborto espontâneo etc) e em uma das mãos um botão era apertado pelos voluntários todas as vezes em que eles tinha vontade de fumar.

Analisando o resultado dos 32 voluntários, a conclusão foi de que as imagens de advertência em maços de cigarros não surtiam efeito algum na supressão do desejo de fumantes. Em outras palavras, foram bilhões de dólares investidos por mais de 123 países que não surtiram efeito nenhum e, pior: as imagens estimulavam ainda mais o consumo do cigarro pelos pacientes. Isso porque o escâner detectou aumento na atividade do nucleus accumbens, conhecido como “ponto do desejo”, uma malha de neurônios especializada em ativar quando o corpo deseja algo (sexo, apostas, álcool, drogas etc). Em outras palavras, as campanhas não só não serviram para diminuir a vontade de fumar, mas funcionaram como uma ferramenta gratuita de marketing para a indústria do tabaco. Portanto, por mais que anúncios de cigarros sejam proibidos, as campanhas governamentais antitabagismo, ajudam nos anúncios de cigarro. Basta que algumas imagens (como essas abaixo), mesmo sem as palavras “fumo”, “cigarro” ou correlatas, para você saber qual é o produto e, pior: para despertar ainda mais em você a vontade do fumante (caso você seja fumante).


Você pode estar se questionando: mas eu não fumo e não sinto vontade de fumar quando vejo esses anúncios, portanto essa propaganda não me atinge! É verdade, mas ela é um dinheiro público investido para que, primeiramente, os fumantes repensem o uso do cigarro. Ainda que novos adeptos não sintam vontade de fumar vendo esse anúncio, você sabe, só por essa campanha que naquele estabelecimento tem cigarro disponível.


Quero café! Quero café!

E a propaganda subliminar vai além. Sim, ela consegue despertar a vontade de tomar café enquanto você anda de ônibus. Foi o que a Dukin’ Donuts fez na Coréia do Sul. A marca, conhecida mundialmente por vender suas rosquinhas recheadas, também comercializa café. Porém esse produto é menos associado à Dukin’ Donuts pela população. Devido à competitividade com diversas cafeterias populares no país asiático, a empresa resolveu inovar em uma de suas publicidades. Como é comum a utilização de transportes públicos no país, eles resolveram fazer uma campanha nos rádios desses transportes e, junto desses rádios, foram instalados aromatizadores. Então, todas as vezes em que o jingle da campanha era tocado, o aromatizador automaticamente expelia um cheiro de café. E não acaba por aí. Os rádios tocavam o jingle quando os veículos estavam próximos a algumas lojas da Dukin’ Donuts. Assim que o passageiro descia do ônibus, adivinha: uma loja da Dukin’ Donuts estava esperando para aquele cafezinho.

Resultados: 350 mil pessoas foram expostas aos anúncios da campanha e foi registrado um aumento de 16% de visitantes nas lojas da empresa, sendo que a venda de cafés em lojas próximas às paradas de ônibus aumentou em 29%. O vídeo sobre a campanha está disponível no Youtube [2].

Concluindo, a propaganda subliminar não precisa atingir o seu inconsciente, como se acreditava na década de 1950. Não é preciso um frame imperceptível a olho nu, mas sim que a propaganda atinja os seus sentidos, com você percebendo ou não cada segundo dessa aproximação. Isso já basta e tem um efeito poderoso! Propagandas subliminares estão a sua volta. Você as vê, sente seu cheiro, escuta o seu som, mas nem sempre presta atenção.


* Artigo de Adler Mendes. Publicitário e mestre em Mídia e Cotidiano (UFF)


Referências:

[1] LINDSTROM, Martin. A lógica do consumo. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2009.

[2] Case Dunkin' Donuts: https://www.youtube.com/watch?v=7_Us9AVnQCM



 


1 ano sem Maurício Tuffani: um gigante da divulgação científica, para além das redes sociais

No último dia 31 de maio de 2022, um ano se completou da morte do jornalista e divulgador científico Maurício Tuffani. Lembro-me bem da dat...