terça-feira, 17 de novembro de 2020

Cinco motivos pelos quais a propaganda do TSE, com Caio Coppolla e Gabriela Prioli, é ruim

 


Faltando poucos dias para a votação em primeiro turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançou uma propaganda em favor da democracia, do respeito àqueles que pensam diferente e do voto consciente, reiterando a necessidade de os eleitores buscarem informações confiáveis sobre seus candidatos [1]. A propaganda gerou polêmica e críticas [2], principalmente por conta da escolha de Caio Coppolla e Gabriela Prioli como garotos-propaganda. Aqui, destaco cinco pontos pelos quais a propaganda é ruim, além de tentar mostrar de que forma ela é sintomática de problemas que tem tomado o debate político e a própria comunicação nos últimos tempos. Implicitamente, a peça publicitária do TSE assimila e reproduz esses problemas. 

1- Se a proposta é criticar a ideia de polarização, que contaminou a política atual, a propaganda termina por implicitamente reproduzí-la, ao colocar, de um lado, o Coppolla (direita), e, de outro, a Prioli ("esquerda"). Isso reforça a polarização e legitima o Fla-Flu político, desconsiderando tantas outras nuances. Não deveria ser esse o papel da publicidade institucional de um órgão tão importante. Isso em um cenário de debate político agressivo, em grande parte influenciado e impulsionado pelas redes sociais, que favorecem o engajamento de discursos agressivos e, ao mesmo tempo, desfavorecem falas mais moderadas ou ponderadas (que normalmente geram menos engajamento).  

2- A propaganda legitima como "comentarista político" um desqualificado como Caio Coppolla. Aqui uso o termo não apenas no sentido pejorativo, mas principalmente no sentido literal. Trata-se de um desqualificado porque 1) não tem nenhuma trajetória de ação política de base (normalmente ligada a ONGs, movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos, associação de moradores ou entidades de classe); 2) não tem nenhum estudo formal em sociologia e ciência política; e 3) como debatedor/argumentador sempre foi um sofista, usando e abusando de falácias argumentativas. Um exemplo vivo do livro "Como vencer um debate sem precisar ter razão", de Arthur Schopenhauer. Se a proposta da peça publicitária é ressaltar o respeito a quem pensa diferente, como disse em seu Twitter o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, não custava terem escolhido um nome melhor do que Coppolla, que tem um histórico de interromper oponentes, aumentar o tom e lançar mão de demais estratagemas sempre que se vê acuado. Coppolla é um bacharel em direito que nunca exerceu a profissão, apenas tendo atuando no marketing (e isso, sem dúvida, ele faz muito bem) e dedicado-se a torrar grana da família com uma banda que quase plagiava o Oasis (com direito a Caio nos vocais imitando o sotaque de Manchester do Liam Gallagher). Caio Coppola é mais uma cria do Youtube que foi alçado ao conhecimento público por conta de mídias reacionárias como a Jovem Pan e a CNN Brasil. Já falei sobre a necessidade de as pessoas pesquisarem realizações e formação dos formadores de opinião para além de suas performances midiáticas. Pois então: Caio Coppola é um exemplo prático dessa necessidade! E aqui está um ponto que destaco sobre o quanto a peça publicitária é sintomática de problemáticas atuais, ao priorizar, dentro do contexto político, figuras que mais se destacam pela forma (retórica, sofisma, manipulação de recursos digitais, marketing agressivo) do que pelo conteúdo [3] [4]. Um cenário em que técnicas comunicacionais, de marketing e relações públicas são cada vez mais preponderantes. Exageradamente até.   

3- Ainda sobre a propaganda do TSE, em terceiro lugar, ela decide que Gabriela Prioli é a representante da esquerda. Mais uma vez, esse papel não deveria caber à propaganda institucional do órgão. Mas é sintomático do quanto o conceito de esquerda tem se deslocado para a direita nos últimos anos na política brasileira. Vale à pena conferir a coluna da ombudsman da Folha de S. Paulo, Flávia Lima, "as direitas se movem" [5], sobre como o jornal paulistano vem servindo a estratégias da direita de se promover como moderada e centrista, incluindo a promoção de uma possível chapa Sérgio Moro/Luciano Huck como uma opção de centro. Não é à toa que o que se "convencionou" chamar de "centrão" é, basicamente, um apanhado de partidos da direita fisiológica tradicional. Um exemplo disso é o partido Progressistas, que, segundo o noticiário hegemônico, faz parte do "centrão". Mas pela árvore genealógica partidária do Brasil, o Progressistas sempre esteve à direita, sendo um remanescente do PP, que por sua vez era remanescente do PPB, que era remanescente do PDS, que, finalmente, era remanescente do Arena, partido governista na ditadura militar. O partido sempre esteve à direita. Do ponto de vista histórico-político, não faz nenhum sentido situá-lo no centro.


4- Ao colocar Coppola e Prioli lado a lado, a propaganda sugere uma simetria entre ambos que não existe (nem em termos ideológicos, nem em termos intelectuais). A falsa simetria é outra característica sintomática do debate político atual. Diversos políticos e partidos se valeram dela nas eleições de 2018 para defender que PT e Bolsonaro seriam ambos radicais, lados de uma mesma moeda. Mas não são! Bolsonaro é um ultradireitista extremista, que, ainda que tenha sido eleito democaticamente, defende abertamente a ditadura e não tem apreço pelas instituições democráticas, frequentemente querendo se impor ao Legislativo e Judiciário. E Caio Coppola, enquanto marqueteiro e defensor de Bolsonaro, situa-se como um extremista também. Há algo de síndrome de Estocolmo por parte da Justiça eleitoral ao chamar para ser garoto-propaganda alguém que parece não se importar muito com o equilíbrio entre os Três Poderes. 

5- Por fim, mas não menos importante, vale destacar que se a proposta da peça publicitária é incentivar o voto consciente e a busca por informações sobre o histórico de cada candidato (conforme seu próprio texto diz), essa proposta passa invariavelmente pela questão das fake news. Esse foi mais um motivo de críticas de internautas à escolha de Coppolla como garoto-propaganda, já que o "comentarista político" já se envolveu diretamente em casos flagrantes de disseminação de desinformação. Em certa ocasião, na CNN, Coppolla endossou falas de Bolsonaro, sem provas, sobre fraude nas urnas eletrônicas [6], o que contraria a posição do TSE, que afirma e reafirma com frequência que o sistema é seguro. Por esse motivo, do ponto de vista da imagem institucional, a escolha de Coppola como garoto-propaganda mereceria, no mínimo, bastante cuidado. Por que associar a imagem da instituição à de alguém que levanta suspeitas, sem provas concretas, sobre seus procedimentos? Além disso, o jovem se mostrou um negacionista científico. Sempre endossando posições do governo Bolsonaro, no início da pandemia Coppolla gravou um vídeo minimizando a doença para contrariar as medidas restritivas e as regras de isolamento. Ele comparou o coronavírus com engasgo e afirmou que nos EUA mais pessoas morriam engasgadas do que de covid-19 [7]. A comparação não faz nenhum sentido, pois não dá para comparar uma doença epidêmica, ou seja,  que se multiplica e pode gerar um surto epidêmico, com um incidente como um engasgo, que não se replica (se você engasgar em público, outras pessoas que estão ao seu lado não vão sair engasgando por aí). Isso significa que, ainda que em uma específica semana morra-se mais de engasgo do que em decorrência de um vírus, dois ou três meses depois, por ter se multiplicado, o número de vítimas do vírus será bem maior que o de pessoas engasgadas. Fazer tal comparação é uma demonstração de ignorância ou mesmo de desonestidade. Como então justificar a escolha dessa figura pública para uma propaganda que aborda o trato adequado da informação?


Referências:

[1] TSE junta Gabriela Prioli e Coppola em campanha contra polarização. Veja o vídeo:

https://congressoemfoco.uol.com.br/video/tse-junta-gabriela-prioli-e-coppola-em-campanha-contra-polarizacao-veja-o-video/


[2] Justiça Eleitoral é criticada por campanha com Caio Coppolla e Gabriela Prioli:

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/justica-eleitoral-e-criticada-por-campanha-com-caio-coppolla-e-gabriela-prioli-45510


[3] Quem é Caio Coppolla?

https://www.youtube.com/watch?v=VIWe2kKpvJs&fbclid=IwAR3ZVbSIPSdkd1KfCCjIZkcRN0HRwo0DXAOXfI6hr1JDitMxNdTTAwJED-A


[4] Quem é Caio Coppolla, o comentarista conservador da CNN Brasil?

https://observatoriodatv.uol.com.br/noticias/quem-e-caio-coppolla-o-comentarista-conservador-da-cnn-brasil?fbclid=IwAR3x_UalqdJS0mKqZ8XJWm0bTMDSULC2NpZTt9Z9tn-azGet75MXgmcaIHI


[5] As direitas se movem:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/flavia-lima-ombudsman/2020/11/as-direitas-se-movem.shtml


[6] VÍDEO: Garoto-propaganda do TSE, Caio Coppola detona as urnas eletrônicas

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-garoto-propaganda-do-tse-caio-coppola-detona-as-urnas-eletronicas/


[7] Caio Coppolla e Gabriela Prioli aparecem em campanha do TSE e web critica

https://catracalivre.com.br/entretenimento/caio-coppolla-e-gabriela-prioli-aparecem-em-campanha-do-tse-e-web-critica/

       

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Telenovelas servem como registro histórico? A comparação entre duas obras e o preconceito com a terceira idade

 


Não sou de ver novela, mas acho que elas são muito boas para retratar a sociedade e contextos de uma época. Percebi esse grande potencial da teledramaturgia assistindo involuntariamente algumas novelas no Canal Viva, por às vezes estar no mesmo recinto que a minha mãe (ela é noveleira, daí não tem jeito...). Comecei a reparar nos figurinos antigos, maquiagem, penteados, cenografia, carros. Talvez esses elementos sejam os que mais saltam aos olhos como registro de um tempo antigo. Mesmo que o tempo nem seja tão antigo assim. Uma novela ambientada há uns 15 anos já é o bastante para nos gerar certa estranheza quando assistimos em uma perspectiva comparada à atualidade. 

Mas não fica só nisso. Logo você começa a reparar em outros elementos: gestos, gírias e expressões. Tudo descortinando as diferenças entre contextos e épocas. Em Pai Herói por exemplo, novela de 1979 reprisada recentemente pelo Viva, me chamou a atenção o modo como o personagem André (Tony Ramos) agarrava e sacudia Carina (Elizabeth Savalla) com certa truculência nas brigas de casal, mesmo sem ser um vilão. Pelo contrário, era o protagonista e herói da trama. Naquela dramatização de gestos é possível encontrar um registro da micro-história contemporânea, de como eram as relações cotidianas na década de 1970, incluindo o machismo e a subordinação feminina na cultura da época? Creio que sim.

Mesmo as novelas de época, que retratam um período diferente daquele em que foram feitas, ainda assim nos dizem alguma coisa em perspectiva histórica. A versão original de Sinhá Moça (1986) e o seu remake (2006), quando vistos em perspectiva comparada, nos mostram o quanto os aspectos técnicos das produções audiovisuais avançaram. A iluminação é um exemplo que salta aos olhos, literalmente: a versão original tinha tomadas bem mais escuras, principalmente em ambientes internos.    

Podemos ir além. Duas novelas do autor Manoel Carlos estão sendo reprisadas atualmente na Globo e no Viva: Laços de Família (2000) e Mulheres Apaixonadas (2003), respectivamente. Maneco, como é chamado o dramaturgo, ficou conhecido como o novelista do Leblon, bairro mais caro e nobre do Rio de Janeiro. As Helenas, suas heroínas – outra característica de Manoel Carlos – vivenciavam suas histórias nos círculos de elite, em um Brasil aristocrático de poucos privilegiados. Em um desses episódios aleatórios e involuntários com os quais me deparo, ouço a frase: “Pai, preciso tirar logo minha carteira de motorista. Não aguento mais andar de táxi”, disse a adolescente para seu papai. Surreal. Ao menos para mim. E para a esmagadora maioria da população também. 

A frase é de Mulheres Apaixonadas, exibida na primeira metade da década passada. De lá para cá, o Brasil passou por transformações sociais – pude sentir e observar algumas delas – que possibilitaram uma ascensão de poder aquisitivo das classes C, D e E. Você pode até discordar dessa perspectiva e não pretendo me aprofundar em questões políticas, mas experimente observar a teledramaturgia desta última década. Observe como o enquadramento das temáticas mudou nas novelas. O universo teledramatúrgico burguês de Manoel Carlos e similares foi perdendo espaço e sendo substituído por obras, digamos, mais inclusivas, cujos eixos temáticos estão mais próximos das classes populares: Avenida Brasil (2012), Salve Jorge (2012), A Força do Querer (2017), Amor de Mãe (2019)... Isso não acontece por acaso. É a produção cultural acompanhando as mudanças sociais.

De Sassaricando a Haja Coração: corpolatria e culto à juventude aumentaram nos últimos anos?

Mas como a história não é linear e nem toda mudança é “positiva”, vamos lá... Assistindo à novela Haja Coração (2016), inspirada em Sassaricando (1987), fiquei surpreso ao ver Alexandre Borges no papel de Aparício, que era interpretado na obra original por Paulo Autran. O que me surpreendeu foi o fato de Borges ser visivelmente mais jovem do que Autran era quando fazia o personagem. Daí vi que alguns outros personagens da novela atual são interpretados por atores mais jovens do que os originais. 

Resolvi passar para uma análise mais minuciosa (a quem chame isso de “falta do que fazer", rsrs). Pesquisei as idades de algumas atrizes quando atuavam em ambas as obras (as idades estão entre parênteses). O trio de amigas Rebeca, Penélope e Leonora, interpretado em Sassaricando por, respectivamente, Tônia Carrero (65), Eva Wilma (54) e Irene Ravache (43), foi substituído em Haja Coração por Malu Mader (50), Carolina Ferraz (48) e Ellen Rocche (37). Somando e dividindo as idades das atrizes recentes, temos uma média de 45 anos, nove a menos que a média de 54 anos das atrizes originais em 1987. Isso em uma sociedade em que a expectativa de vida aumentou nos últimos anos. Não é curioso que vivamos mais, mas sejamos descartados e/ou desvalorizados mais cedo? 
 
Daí achei que eu tivesse descoberto a pólvora com esse contraste de faixa etária entre as obras (que ingenuidade! Mas como eu disse anteriormente, não sou muito fã de novela), porém, quando fui procurar na internet sobre as duas produções e as diferenças de idade entre os atores, me deparei com uma excelente matéria[1] que já fala sobre isso, que parte dessas diferenças para discutir a sociedade atual e a discriminação com as pessoas de mais idade, não só nas produções audiovisuais, mas no mercado de trabalho em geral, incluindo falas de um sociólogo, recortes de gênero e de classe. Matéria muito boa mesmo!  

Se for verdade o que afirmo, que telenovelas servem mesmo como documento histórico ao retratar contextos sociais, gostos e idéias de uma época, Haja Coração, em comparação à obra oitentista que a inspirou, serve como um bom exemplo de nosso atual culto exagerado à juventude, de nossa corpolatria e do quanto esses aspectos sociais foram acentuados em um intervalo de tempo relativamente curto (dos anos 1980 para cá). O fato de a Globo estar reexibindo Haja Coração atualmente ao mesmo tempo em que Sassaricando pode ser assistida no canal Viva facilita que ambas sejam vistas em perspectiva comparada. Cada um pode tirar suas próprias conclusões sobre as mudanças sociais. Ou apenas se divertir com as tramas. 

Referência
[1]   "De Sassaricando a Haja Coração, preconceito com atores veteranos aumentou nas novelas":


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Átila e seu vídeo comparando mercado a formigueiro: o que podemos aprender?



Tenho como um dos meus filtros de internet pesquisar o currículo de uma personalidade quando ela se destaca como formadora de opinião. Vale Lattes, Linkedin, Vitae. Vejo a formação, a experiência profissional, o que mais eu puder. Já fui criticado por isso, mas no terreno arenoso da internet, onde cada um diz qualquer coisa, acho válido. Na sociedade de espetacularização midiática em que vivemos, as estratégias de propaganda, marketing e relações públicas estão a todo o momento atropelando o conhecimento e se sobrepondo a ele. É a forma frequentemente esmagando o conteúdo. É a velocidade superando a reflexão.

Dito isso, quero usar o exemplo recente do Átila Iamarino, que fez um vídeo para seu canal Nerdologia comparando o funcionamento do mercado financeiro a um formigueiro (vídeo este declaradamente patrocinado por uma corretora)[1]. É o tipo de analogia com carga ideológica que dá um verniz de fenômeno da natureza a um construto social, "biologiza" o capitalismo fazendo-o parecer natural, inerente ao ser humano e, logo, o melhor (ou mesmo o único) caminho possível. 

Sobre esse tipo de analogia falha entre natureza e fenômenos socioeconômicos e políticos, recomento o pequeno livro "O que é Darwinismo"[2], do biólogo Nélio Marco. Nesta obra o autor mostra como as comparações entre natureza e funcionamento do capitalismo já permeavam o trabalho do naturalista Charles Darwin. A idéia de competição, marcante na economia de mercado e também presente na selva (quem nunca ouviu a expressão “capitalismo selvagem”?). O livro do biólogo desconstrói essas analogias e mostra o quanto elas estão impregnadas de ideologia, o quanto cientistas como o próprio Darwin tendem a interpretar a natureza e as coisas a partir dos pressupostos do mundo em que vivem, inclusive os pressupostos econômicos. A visão da natureza como uma analogia da competição capitalista desconsidera, por exemplo, inúmeros exemplos de mutualismo e de cooperação entre animais de uma mesma espécie. Marco cita como um dos exemplos o “trabalho conjunto” feito por zebras movimentando-se em círculos e supostamente usando suas listras para confundir os predadores. 
     
Há implicitamente um argumento de autoridade no vídeo do Nerdologia: Átila, um biólogo respeitável, lança mão de seu prestígio para ir além de sua área. Assim sendo, é um argumento de autoridade bem truncado, pois o fato de ele ser um grande biólogo não faz dele um economista ou cientista social.

Isso também não significa que Átila e seus seguidores sejam estúpidos, como agora, aborrecida com o vídeo, quer fazer crer os críticos mais mordazes do vídeo (pessoas politicamente à esquerda, incomodadas com o modo como o livre mercado foi retratado). Pelo contrário: no contexto pandêmico atual, Átila, youtubers e demais produtores de conteúdo semelhante (de popularização da ciência) são aliados importantes contra o negacionismo científico. E não adianta muito apenas atacar sem explicar por A mais B, com algum didatismo, onde o vídeo está errado.

Por isso volto à importância de se ter em mente a formação e a vivência de alguma celebridade de internet para além de suas atuações no espaço virtual. Átila é biólogo, e a chance de um especialista cometer algum equívoco ou distorção aumenta muito na medida em que ele desliza para outras áreas distantes da sua. Isso vale para todos, pois ninguém é onisciente. No caso do Átila, mais vale isolar o vídeo em questão do restante de seu trabalho (a meu ver, muito bom!), explicar os simplismos e erros do vídeo específico e valorizar os acertos do conjunto da obra.

Ninguém sabe tudo e acho importante as pessoas se informarem que o Olavo de Carvalho não é filósofo, que o Leandro Narloch não é historiador, que a Gabriela Pugliese não é nutricionista ou professora de educação física (ela é formada em desenho industrial). Vale a pena levar certas informações em conta para se estabelecer o quanto de valor se dá àqueles que ajudam a formar nossa opinião. É um filtro que está longe de ser infalível, mas que acho válido, que uso e recomendo. E este texto, como já se deve ter ficado claro, não é uma crítica ao trabalho de um youtuber, mas um exercício de aprimoramento da literacia midiática[3] valendo-se de um exemplo concreto. A literacia midiática vai se elaborando e reelaborando conforme a mídia se transforma.  
    
Referência:

[1] Vídeo “O livre mercado é um computador”, de Átila Iamarino do canal Nerdologia:

[2] MARCO, Nélio. O Que é Darwinismo? São Paulo: Brasiliense, 1987.

[3] Entendendo o que é Literacia Midiática:


terça-feira, 20 de outubro de 2020

A mensagem subliminar na publicidade é real?*

Você já deve ter ouvido, lido ou visto alguma notícia assustadora sobre como propagandas subliminares são usadas no meio publicitário e a capacidade que elas têm de afetar nossas escolhas sem que sequer a percebamos. Vou dar um exemplo clássico: imagine você estar assistindo sua programação preferida na televisão e, de repente, uma imagem pisca na sua tela. Essa imagem é de uma marca, vamos supor… de cosméticos. Você repara nesse frame, segue assistindo a sua programação e sente uma vontade incontrolável de consumir aquele produto. Será que é assim que funciona? Será que, naquela mesma hora, você ficou interessado em consumir essa marca? Ficou interessado em descobrir que marca é essa? Ficou assustado com a potencial capacidade de uma marca influenciar nas suas ações?

James Vicary, esse é o nome do responsável por cunhar o termo propaganda subliminar e o autor, segundo ele mesmo, de um comercial da Coca-Cola que utilizou da estratégia semelhante ao do exemplo dos cosméticos. No ano de 1957, em uma sala de cinema, Vicary colocou projetores que transmitiam palavras “Beba Coca-Cola” e “Coma pipoca”, durante um intervalo de 1/3.000 de segundo, a cada cinco segundos, em todas as sessões do filme. O resultado foi extraordinário: aumento de 18,1% nas vendas de Coca-Cola e de 57,8% no aumento das vendas de pipoca. A população ficou assustada: “o que as marcas farão conosco a partir de agora?; será que os russos transformarão todos em comunistas?” (afinal, eram tempos de Guerra Fria); “como saber se já fui ou serei afetado por esse tipo de publicidade?”; “como me proteger?”. Esses foram alguns dos questionamentos da população sobre o novo medo.

Se esse caso da Coca-Cola de Vicary foi o primeiro, de tempos em tempos surgem exemplos que complementam essa história. Filmes infantis que escrevem palavras não apropriadas para crianças (caso de “s-e-x” na animação O Rei Leão), disco da Xuxa que se ouvido de trás para a frente é uma “exaltação ao demônio” ou frames imperceptíveis a olho nu criam um estímulo de consumo irresistível. De acordo com essa perspectiva, podemos definir, então, que propagandas subliminares são estímulos visuais, auditivos, sensoriais que estão um pouco abaixo do nosso nível de percepção consciente, sendo registrados apenas pelo nosso inconsciente, que, por sua vez, executa vontades sem que notemos o processo. 

Toda essa história e esse medo já seriam, realmente, assustadores e preocupantes. Sim, seriam, se tudo isso, de fato, fosse propaganda subliminar. A começar por Vicary. O que ele contou não passou de uma mentira. Nada de aumento de venda, nada de propaganda subliminar, nada de sala de cinema. Nada! Nem quando realmente tentou colocar esse experimento em prática, teve resultado positivo. Nada de “s-e-x” escrito nas animações. Em O Rei Leão, a sigla era “s-f-x”, referente aos efeitos especiais. Os animadores colocavam a sigla de brincadeira em todos os filmes que faziam para mostrar o quão orgulhosos eram dos seus efeitos especiais. Por último, muito menos o disco da Xuxa tocado ao contrário queria dizer alguma coisa. Isso foi uma lenda das décadas de 1980 e 1990.  E, afinal, quem escuta um disco ao contrário?!


Então quer dizer que propagandas subliminares não existem? Que não preciso me preocupar com o risco de ser estimulado inconscientemente por uma marca? Não, não é isso! O que quero dizer é que propagandas sublimares são muito piores do que parecem. Elas estão gritando na sua cara e você, ainda assim, não as percebe. Elas o atingem muito mais sensorialmente e, ainda que você perceba, tende a ser atraído para seus produtos.

 

É proibido fumar? O porquê das companhias de cigarro estarem sempre um passo à frente

Vamos começar de “leve”, com as propagandas de televisão. Quando você assiste a um comercial do Itaú, antes mesmo de a marca ser visível, você já sabe ou desconfia que é um comercial do Itaú, por conta de algumas identidades visuais elaboradas pela marca dentro dos estudos de branding. Repare que a coloração do comercial é levemente alaranjada, que objetos ou roupas dos personagens são azuis, que o estilo musical se mantém em praticamente todas as propagandas e por ai vai. Evidente que isso não é exclusivo do Itaú, mas se repete nos comerciais do Santander, Bradesco ou qualquer outro banco que utilize o branding. O mesmo se aplica a outras marcas fora do setor bancário, como Claro, Tim, Oi, Vivo, posto Ipiranga, Skol, Antarctica, etc, etc e etc.

E se isso ainda não é necessariamente impressionante ou mesmo assustador, é porque os logos ainda aparecem em seus comerciais, nunca foram proibidos. Fazendo um exercício de imaginação, se marcas de bancos forem proibidas em publicidade, basta o Itaú fazer esse mesmo estilo de anúncio e apenas suprimir seu logo no final. Ainda assim, você conhecerá qual marca está falando com você.

E se esse exercício de imaginação for difícil, tudo bem, aconteceu isso com comerciais de cigarro. Em 1950 começaram os burburinhos de que o cigarro causava câncer. A Malboro resolveu inovar em filtros para os produtos, mas inovou também nos comerciais. Contrataram Robert “Bob” Norris (que nunca fumou durante seus 90 anos de vida!), um cowboy do Colorado, para estrelar um comercial. Esse estilo, que se ligava à liberdade (não se esqueça, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, a Guerra Fria estava a todo vapor) se tornou a identidade da marca nos anos seguintes. Com o slogan: “Venha para onde está o sabor. Venha para o mundo de Marlboro”, a marca teve um estrondoso sucesso, chegando a ser a marca de cigarros mais vendida do mundo. Sucesso que perdura até hoje. Além, é claro, do ideal de liberdade, a Malboro se colocava ao lado de um ideal de virilidade, saúde e beleza. Avançando um pouco mais no tempo, você acha coincidência que a marca de cigarro tenha escolhido patrocinar uma equipe de Fórmula 1, cujo carro é extremamente veloz, eficaz, forte e vencedor? O mesmo se aplica ao seu patrocínio na Nascar. Segundo o site da Nascar, seus fãs são considerados os mais fiéis a marcas do esporte. A propósito, as 500 maiores empresas norte-americanas apontadas pela Fortune patrocinam mais a Nascar do que qualquer outra associação ou federação esportiva.[1]

Quando os comerciais de cigarros passaram a ser proibidos, novas estratégias foram obrigadas a ser pensadas pelos anunciantes, que se viram forçados a dar um salto para o futuro, a estarem à frente do próprio tempo. Retiraram suas marcas, mas mantiveram um homem andando a cavalo, uma paisagem desértica com um belo pôr do sol, dois vaqueiros conversando sobre um sol avermelhado etc. Na verdade, eles foram ainda mais além, escolheram uma escuderia da formula 1, com seu tom de vermelho, vestiram pilotos e estamparam a marca nos carros. Se em 2007 ficou proibido estamparem sua marca nos carros da Ferrari, tudo bem, substituíram pelo seu ícone. Se o ícone foi proibido, tudo bem, vamos lançar uma frase Mission Winnow, que reflete o nosso novo posicionamento mundial (reparem que o M é parecido com o do logo).


E aí, você deve estar pensado: por que, então, não proíbem qualquer alusão à marca em qualquer mídia? E aqui a história de propaganda subliminar fica ainda pior. Elas podem ser proibidas, elas podem ficar sem gastar um centavo com publicidade, o governo já está fazendo isso por elas. Sim, sabe aquelas imagens chocantes que ficam nos maços de cigarro e estão expostas em bares, mercados, totens ou mercearias? Então, elas funcionam como comerciais para cigarros e, diferente do que pensamos, estimulam ainda mais a fumar.

É isso que mostra o maior estudo de neuromarketing, que começou em 2004, foi finalizado em 2007 e selecionou mais de 2.000 voluntários vindos de diversos lugares do planeta – Estados Unidos, Inglaterra, Japão, Reino Unido, Alemanha e China – para entrarem em uma máquina de IRMf (Imagem por Ressonância Magnética funcional), “nada mais que um aparelho que faz um minifilme amador do cérebro a cada intervalo de poucos segundos – e em dez minutos pode reunir uma quantidade espetacular de informações” (LINDSTROM, 2009). Desses 2.000 voluntários, 32 fumantes foram selecionados e a eles, com esse aparelho que escaneia o cérebro, foram mostradas diversas imagens de advertência sobre cigarros em vários ângulos (pulmões cinzas, câncer em estágio avançado, aborto espontâneo etc) e em uma das mãos um botão era apertado pelos voluntários todas as vezes em que eles tinha vontade de fumar.

Analisando o resultado dos 32 voluntários, a conclusão foi de que as imagens de advertência em maços de cigarros não surtiam efeito algum na supressão do desejo de fumantes. Em outras palavras, foram bilhões de dólares investidos por mais de 123 países que não surtiram efeito nenhum e, pior: as imagens estimulavam ainda mais o consumo do cigarro pelos pacientes. Isso porque o escâner detectou aumento na atividade do nucleus accumbens, conhecido como “ponto do desejo”, uma malha de neurônios especializada em ativar quando o corpo deseja algo (sexo, apostas, álcool, drogas etc). Em outras palavras, as campanhas não só não serviram para diminuir a vontade de fumar, mas funcionaram como uma ferramenta gratuita de marketing para a indústria do tabaco. Portanto, por mais que anúncios de cigarros sejam proibidos, as campanhas governamentais antitabagismo, ajudam nos anúncios de cigarro. Basta que algumas imagens (como essas abaixo), mesmo sem as palavras “fumo”, “cigarro” ou correlatas, para você saber qual é o produto e, pior: para despertar ainda mais em você a vontade do fumante (caso você seja fumante).


Você pode estar se questionando: mas eu não fumo e não sinto vontade de fumar quando vejo esses anúncios, portanto essa propaganda não me atinge! É verdade, mas ela é um dinheiro público investido para que, primeiramente, os fumantes repensem o uso do cigarro. Ainda que novos adeptos não sintam vontade de fumar vendo esse anúncio, você sabe, só por essa campanha que naquele estabelecimento tem cigarro disponível.


Quero café! Quero café!

E a propaganda subliminar vai além. Sim, ela consegue despertar a vontade de tomar café enquanto você anda de ônibus. Foi o que a Dukin’ Donuts fez na Coréia do Sul. A marca, conhecida mundialmente por vender suas rosquinhas recheadas, também comercializa café. Porém esse produto é menos associado à Dukin’ Donuts pela população. Devido à competitividade com diversas cafeterias populares no país asiático, a empresa resolveu inovar em uma de suas publicidades. Como é comum a utilização de transportes públicos no país, eles resolveram fazer uma campanha nos rádios desses transportes e, junto desses rádios, foram instalados aromatizadores. Então, todas as vezes em que o jingle da campanha era tocado, o aromatizador automaticamente expelia um cheiro de café. E não acaba por aí. Os rádios tocavam o jingle quando os veículos estavam próximos a algumas lojas da Dukin’ Donuts. Assim que o passageiro descia do ônibus, adivinha: uma loja da Dukin’ Donuts estava esperando para aquele cafezinho.

Resultados: 350 mil pessoas foram expostas aos anúncios da campanha e foi registrado um aumento de 16% de visitantes nas lojas da empresa, sendo que a venda de cafés em lojas próximas às paradas de ônibus aumentou em 29%. O vídeo sobre a campanha está disponível no Youtube [2].

Concluindo, a propaganda subliminar não precisa atingir o seu inconsciente, como se acreditava na década de 1950. Não é preciso um frame imperceptível a olho nu, mas sim que a propaganda atinja os seus sentidos, com você percebendo ou não cada segundo dessa aproximação. Isso já basta e tem um efeito poderoso! Propagandas subliminares estão a sua volta. Você as vê, sente seu cheiro, escuta o seu som, mas nem sempre presta atenção.


* Artigo de Adler Mendes. Publicitário e mestre em Mídia e Cotidiano (UFF)


Referências:

[1] LINDSTROM, Martin. A lógica do consumo. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2009.

[2] Case Dunkin' Donuts: https://www.youtube.com/watch?v=7_Us9AVnQCM



 


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"O Dilema das redes" e a ditadura dos likes e da objetividade

 


Lançado neste ano pela Netflix, o documentário O Dilema das rede (The Social Dilemma), dirigido por Jeff Orlowski, tem dado o que falar ao tratar sobre estratégias de manipulação das mídias digitais e seus efeitos na sociedade. Aqueles que não curtiram têm reclamado principalmente do "gosto duvidoso" da parte dramatizada e do tom apelativo do filme; os que gostaram ressaltam, por exemplo, a riqueza e abrangência das informações e o quanto a combinação entre informação e recursos dramáticos tornam a produção mais palatável [1].


O novo filme da plataforma de streaming se junta a outros (documentais e de ficção), como Privacidade hackeada e Rede de ódio, que chamam a atenção para os perigos das redes sociais e seus algoritmos. Mais O dilema das redes tem alguns diferenciais. Um deles são os depoimentos dos próprios tecnólogos de gigantes da tecnologia, como Facebook e Google, tecendo críticas sobre as ferramentas que ajudaram a criar. Um momento mea culpa com um toque do mito de Frankestein: "criadores perplexos com o quanto a criatura fugiu do controle."


Um outro diferencial está em não se ater somente à política, dando um bom espaço para questões ligadas aos costumes e seus aspectos psicológicos. O filme fala sobre vício digital/tecnológico e os impactos das novas mídias na autoestima. Nesses pontos, as cenas dramatizadas funcionam para dar o recado, por mais apelativas e pueris que possam parecer. Uma família mal conversa durante a refeição, pois todos estão compenetrados em seus próprios aparelhos celulares. A mãe propõe um desafio: deixar os celulares em um vaso fechado por um tempo. A menina adolescente não aguenta e, pouco depois, quebra o vaso para pegar seu aparelho. As cenas são mescladas a dados sobre o aumento do tempo médio em que ficamos conectados e sobre estratégias das redes para ganharem nossa atenção e nosso tempo de navegação [2] [3] [4].


Ao tratar dos efeitos da rede na autoestima, O dilema das redes traz sequências que me soaram sensíveis e humanizadas, o que é um diferencial positivo. A mesma menina que quebra o vaso para pegar seu celular dedica boa parte de seu tempo ensaiando selfies e testando sua popularidade ao postar suas próprias fotos. Isso é o que eu chamo de ditadura dos likes e da objetividade. Talvez os mais jovens, aqueles que nasceram e cresceram em meio às redes sociais, não entendam o que estou dizendo, mas houve um tempo em que ter um feedback sobre o quanto se é feio ou bonito, o quanto aquela pessoa gosta de você e sobre a própria popularidade não era tão óbvio como é hoje. Claro que nunca foi algo totalmente subjetivo e claro que sempre foi possível mensurar a reação de terceiros, mas havia algum espaço para a subjetividade: será que ele ou ela sente algo por mim? Será que tenho alguma chance? Em um tempo não muito remoto, de maior contato presencial – ou pelo menos de menor contato virtual – olhares e tons de voz eram indicativos importantes para responder a essas perguntas.


Hoje, com a profusão de redes sociais, cada uma com suas características específicas, o feedback sobre a popularidade ou grau de atração é diariamente alimentado e atualizado. Tudo é muito bem quantificado, de forma esmagadoramente objetiva, praticamente sem espaço para ilusão ou autoengano, demolindo a autoestima de uns, inflando o ego de outros. As métricas são várias e se somam: a quantidade de likes nas fotos do Instagram, o teor dos comentários (isso quando eles existem) nas postagens no Facebook, o tempo levado para se receber a resposta à mensagem que enviamos no Whatsapp após ela ser visualizada (se for visualizada, se for respondida), a quantidade de interação em geral, a não interação...


Nunca foi tão fácil termos retorno sobre nós mesmos, sabermos o que os outros pensam do mundo e de nós. As novas mídias possibilitaram algo parecido com a telepatia (claro que isso depende muito do quanto cada pessoa expõe os próprios pensamentos e visão de mundo), algum tipo de telepatia digital. Aplicativos de relacionamentos, como o Tinder, encurtam o tempo que gastamos com um potencial parceiro. É que dependendo das ideias e opiniões do pretendente, pulamos fora o quanto antes. Quem nunca? Em alguns aspectos, a objetividade pode ter suas vantagens. Talvez na otimização do tempo para algumas coisas.


Mas a objetividade das redes e a ditadura dos likes têm um preço. O dilema das redes aborda a relação entre as novas mídias e a saúde mental e chama a atenção para o aumento alarmante de suicídios entre jovens. Há estudos que apontam que o uso excessivo das redes pode causar depressão e ansiedade, doenças que se não forem tratadas agravam pensamentos negativos e suicidas [5] [6].


Retomando a ideia de telepatia digital, finalizo este texto com um pensamento que me era recorrente nos tempos de adolescente, aqueles tempos um pouco mais analógicos e não tão remotos: "se você pudesse escolher um poder mutante, qual seria?" Eu era um fã de X-men e de quadrinhos em geral e, dentre os possíveis poderes que eu gostaria de possuir estava a telepatia. A principal razão era óbvia: saber o que pensavam de mim, quais sentimentos nutriam ao meu respeito e, a partir disso, quais possibilidades eu tinha. Hoje isso me parece menos necessário e até pouco salutar. Saber o que pensam sobre nós e sobre o mundo pode se tornar uma experiência complicada. A objetividade e o excesso de transparência cobram um custo alto. Não à toa personagens como o Professor Xavier e Jean Gray são meio atormentados.


Referências:


[1] "O Dilema das Redes" usa fórmula apelativa para agradar ao público jovem:

https://www.uol.com.br/splash/colunas/andre-barcinski/2020/09/22/o-dilema-das-redes-usa-formula-apelativa-para-agradar-ao-publico-jovem.htm


[2] “O Dilema das Redes”: por que assistir ao novo documentário da Netflix

https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/dilema-das-redes-por-que-assistir-documentario-netflix/


[3] Os 5 segredos dos donos de redes sociais para viciar e manipular, segundo o ‘Dilema das Redes’

https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-54274664


[4] 5 lições de "O Dilema das Redes", doc que mostra o vício nas redes sociais:

https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2020/09/14/5-licoes-de-o-dilema-das-redes-doc-que-mostra-o-vicio-nas-redes-sociais/


[5] A influência das redes sociais nos casos de suicídio entre jovens e adolescentes brasileiros e o seu aumento durante a pandemia:

https://www.migalhas.com.br/depeso/332002/a-influencia-das-redes-sociais-nos-casos-de-suicidio-entre-jovens-e-adolescentes-brasileiros-e-o-seu-aumento-durante-a-pandemia


[6] O risco de depressão e ansiedade com o mau uso das redes sociais:

https://www.selecoes.com.br/saude/o-risco-de-depressao-e-ansiedade-com-o-mau-uso-das-redes-sociais/


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Fake news e eleições: dez dicas de filmes e livros para entender o assunto

 


As eleições municipais estão chegando no Brasil e um fenômeno que preocupa profissionais da comunicação, do direito, das ciências sociais e políticas e a sociedade civil em geral são as fake news. Muito tem se falado sobre isso e, nos últimos meses, diversas lives reuniram especialistas de várias áreas para debaterem o tema e tentarem antever os desafios eleitorais. Tive a satisfação de mediar uma delas, "Cobertura eleitoral em tempos de fake news", pela Associação de Jornalistas do Sul Fluminense (Ajosul). A live foi bastante ampla, reunindo representantes da área acadêmica, das fact-checking e meio jurídico. Vale a pena conferir [1].


As fake news são apontadas como parte de um fenômeno mais amplo, que é o da pós-verdade (ou pós-fato, como preferem alguns especialistas). O termo pós-verdade foi eleito a palavra do ano de 2016 do Dicionário Oxford. No entendimento da Universidade de Oxford, a expressão pós-verdade relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais [2]. As fake news, vale lembrar, não são uma novidade. Elas existem desde os primórdios do jornalismo. A diferença da atualidade está no casamento com a tecnologia, que amplia a velocidade de compartilhamento, as facilidades de edição e simulação de veículos noticiosos (cada vez mais surgem páginas de fake news que imitam a diagramação, layout e redação típicos do jornalismo) e o engajamento das pessoas com as mentiras. Sim, muita gente quer acreditar na mentira simplesmente porque concorda com ela, porque ela contribui, de alguma forma, para seus valores e visões de mundo. 


De acordo com estudiosos dos fenômenos das fake news e pós-verdade, o marco desta onda tecnológica atual foi mesmo o ano de 2016, por conta das eleições de Donald Trump, nos Estados Unidos, e do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia, coisa que até hoje tem dado muito o que falar por lá). Enquanto as eleições não chegam, a gente pode entender um pouco mais sobre os impactos da desinformação na política e no cotidiano e aprender quais sãos seus mecanismos e as motivações de quem está por trás das principais máquinas de mentiras espalhadas pelo mundo: no Brasil, na Russia e até na pacata Macedônia. Aqui selecionamos dez obras (seis filmes e quatro livros) nacionais e estrangeiras que discutem as fake news no contexto eleitoral. 


FILMES


Privacidade Hackeada (2019): Este documentário, disponível na Netflix, foca no escândalo da participação da Cambridge Analytica em algumas eleições, inclusive na americana, em que Trump foi eleito. Por meio de depoimentos, até mesmo de alguns ex-colaboradores da empresa, o filme se aprofunda nas artimanhas tecnológicas das redes sociais que se apropriam dos nossos dados e influenciam nosso comportamento e, claro, nosso voto. O ex-CEO da empresa, Alexander Nix, a classificava como uma "empresa de comunicação orientada por dados". Privacidade Hackeada expõe de forma impressionante o nível de influência e manipulação que as técnicas da Cambridge Analytica tiveram em diversas campanhas do mundo, como na Argentina (2015), Trinidade e Tobago (2009), Malásia (2013), Itália (2012), dentre outros países. "É a personalidade que impulsiona  o comportamento, e o comportamento obviamente influencia em quem você vota", diz Nix [3].


The Waldo Moment (2013): que Black Mirror é o tipo de obra que nos ajuda a entender a atualidade acho que ninguém que tenha assistido alguns bons episódios da série tem dúvidas. O terceiro episódio da segunda temporada – The Waldo Moment – mostra como Waldo, um ursinho azul desbocado, gerado por computação gráfica para debochar e ofender políticos, acaba se tornando candidato nas eleições locais do Reino Unido. Com um discurso niilista contra "tudo o que aí está", Waldo,  arrebata corações de um eleitorado apolítico e cheio de revolta. No entanto, o humorista Jamie Salter, responsável pelo personagem, não gosta muito da ideia da candidatura, mas, contra a sua vontade, se vê obrigado a aceitar e conduzir o sucesso do personagem. Salter sabe que a candidatura não tem proposta e nem conteúdo. É puro escárnio e irrealidade. O processo eleitoral  é o fio condutor desta trama. E você, conhece algum Waldo de carne e osso em alguma eleição? [4]


O dilema das redes (2020): semelhante a Privacidade Hackeada, esta produção, lançada neste ano pela Netflix, também foca nos algorítimos e aspectos técnicos das redes sociais, embora não aborde o caso da Cambridge Analytica. O filme nos mostra como a arquitetura dessas plataformas é feita para gerar mudanças em nosso comportamento, prender nossa atenção e até nos viciar. Os próprios tecnólogos comentam quais são os seus vícios digitais. O que é preocupante: se eles, que têm consciência das artimanhas tecnológicas, se vêem reféns em alguns casos, imagine nós, pobres mortais. O dilema das redes possui algumas sequências dramatizadas que retratam muito bem o quanto ficamos viciados em telefone celular e a baixa autoestima que as novas mídias têm gerado nos mais jovens, que se vêem em uma sociedade de superexposição e excesso de objetividade com a ditadura dos likes. O filme também traz todas essas problematizações para o campo político, mostrando como as redes têm favorecido ideias radicais e influenciado nas eleições. A propósito, com referências ao Brasil e à eleição do presidente Jair Bolsonaro [5].


Fake news – baseado em fatos reais (2017): mais um documentário, só que, desta vez, brasileiro, produzido pela equipe do Que mundo é esse?, da Globonews. A produção vai aos Estados Unidos, Reino Unido, Russia e até à Macedônia para investigar o fenômeno das fake news. Apesar de ser um documentário brasileiro, peca por não se aprofundar tanto na realidade do próprio país. Realizado um ano antes das eleições de 2018, a impressão que dá ao revermos o filme atualmente é que a tsunami das fake news foi um tanto subestimada quanto a seus impactos políticos e eleitorais no Brasil. Mas certamente o ponto alto de Fake news – baseado em fatos reais é a pacata e insuspeita Macedônia. Por ser um polo de mão de obra barata no ramo da tecnologia digital, o país europeu virou celeiro mundial de produção de fake news, influenciando eleições como a de Trump, nos EUA, e o Brexit, no Reino Unido. A equipe entrevista um dos "Veles Boys". O grupo de profissionais da cidade de Veles ficou assim conhecido por conta do trabalho com desinformação em larga escala. O entrevistado, um garoto de 19 anos muito esperto e inteligente, mostra sem pudores como produz e dissemina seu conteúdo falso. Embora a tônica do documentário seja de que fake news pode ser de esquerda ou de direita, o Veles boy não poupa crítica e deboche aos eleitores de Trump. Ele diz que o diferencial entre as mentiras de direita e de esquerda, ao menos no contexto americano, está na adesão e engajamento do público. "Os eleitores de Bernie Sanders têm pensamento crítico. Já os eleitores de Trump acreditam em qualquer coisa", tira sarro o garoto. Detalhe: mesmo sem ser nativo no idioma inglês, o jovem macedônio consegue criar textos mentirosos que convencem o eleitorado americano trumpista. Mérito do Veles boy ou demérito dos eleitores de Trump? [6]


Rede de ódio (2020): para o crítico José Geraldo Couto, "não pode haver filme mais atual, especialmente para nós, brasileiros", do que esta produção polonesa dirigida por Jam Komasa. O filme mostra como a desregulamentação das práticas de marketing digital e eleitoral possibilita com que empresas e grupos ligados a essa atividade possam se valer das artimanhas mais antiéticas e mentirosas, gerando caos social e destruição. Mais do que isso, o filme aborda como poucos aspectos psicológicos, mostrando o peso do rancor, do ressentimento, da sexualidade e da falta de autoestima na política. A narrativa gira em torno do jovem Tomasz Giemsa (Maciej Musialowski),  uma espécie de sobrevivente neste mundo com o tecido social esgarçado pelas novas tecnologias. Tomasz é vítima e ao mesmo tempo algoz: é influenciado psicologicamente por suas interações nas redes e, como profissional de estratégias espúrias de marketing digital, torna-se um manipulador de pessoas tão ressentidas e outsiders quanto ele. A eleição em curso ajuda a mostrar a ascensão de tendências como xenofobia, racismo, homofobia e fascismo pelos meios digitais [7].


Contágio (2011): vista em tempos de coronavirus, esta produção americana dirigida por Steven Soderbergh soa profética em alguns aspectos ao retratar uma pandemia fictícia que possui pontos semelhantes à situação que o mundo vive atualmente. Dentre eles, a chamada "infodemia", a epidemia de informação, incluindo muita mentira e fake news. A ideia do filme parece ser mostrar que as informações falsas podem se replicar tanto quanto um vírus. A trama inclui um blogueiro metido a jornalista que propaga um falso remédio para a doença. Poderia se chamar cloroquina ou ivermectina, mas, na trama, recebe o nome de "forsítia". Embora Contágio não mostre especificamente nenhum processo eleitoral, o filme entra em nossa lista justamente por conta do contexto pandêmico, que tem influenciado e sido influenciado pela política. Com certeza o problema da covid-19 terá protagonismo nas eleições municipais brasileiras [8].    


LIVROS


A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump (Michiko Kakutani): escrito pela jornalista norte-americana (de origem japonesa) Michiko Kakutani, com experiência de longos anos no “The New York Times”, esta é mais uma das obras que situam o ano de 2016 e a eleição de Trump como marcos do fenômeno da pós-verdade. Em um livro curto, Kakutani conseguiu condensar e, ao mesmo tempo, abordar com profundidade, características como o enfraquecimento do conceito de fato, as guerras culturais, o tribalismo que enclausura cada vez mais os indivíduos em suas respectivas bolhas, o uso da ironia por parte dos políticos como forma de propagar inconsequências e preconceitos de forma descompromissada (na pior das hipóteses, basta depois dizer que foi mal compreendido) e, claro, a propaganda política flagrantemente mentirosa e seus "fatos alternativos".  A jornalista e escritora demonstra um desapreço especial pelo pós-modernismo e seus impactos filosóficos na percepção da realidade. Com uma minúcia digna de um bom trabalho de linguística, ela mostra como conservadores religiosos e extremistas de direita valeram-se de um mesmo modus operandi do discurso pós-moderno para legitimarem suas narrativas: "O argumento pós-moderno de que todas as verdades são parciais (e dependem da perspectiva de uma pessoa) levou ao argumento de que existem diversas maneiras legítimas de entender ou representar um acontecimento. Isso tanto encorajou um discurso mais igualitário quanto possibilitou que as vozes dos outrora excluídos fossem ouvidas. Mas também foi explorado por aqueles que quiseram defender teorias ofensivas ou desacreditadas, ou equiparar coisas que não podem ser equiparadas. Os criacionistas, por exemplo, reivindicaram que a teoria do "design inteligente" fosse ensinada junto com a teoria da evolução nas escolas. "Ensine as duas", alguns sugeriram. Outros disseram: "Ensine a controvérsia".


Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais (Jaron Lanier): o tecnólogo e filósofo da tecnologia Jaron Lanier é uma figura exótica e carismática. Com suas longas madeixas rastafari, ele percorre o mundo alertando sobre os riscos das redes sociais, que classifica como verdadeiras máquinas de mudança de comportamento e manipulação. Sem dúvida, Lanier entende do assunto, já que é cria do Vale do Silício, da geração de tecnólogos que ajudou a moldar as plataformas digitais que temos hoje, como Facebook e Twitter. Mas Lenier faz parte do time de tecnólogos que, apesar das boas intenções iniciais, perceberam que as consequências fugiram um pouco do controle. A propósito, Lanier é um dos profissionais a dar depoimento no documentário O dilema das redes, já sugerido aqui. Sua proposta, resumida no título do livro, parece radical. Afinal, será que conseguiremos deletar nossas redes sociais e viver mais offline? Mas Lanier diz que a ideia não é deletar nada para sempre, mas só por um tempo, para que as empresas responsáveis pelas plataformas digitais sejam forçadas a adotar uma postura mais ética e responsável. Dentre os problemas apontados pelo autor neste livro bombástico e por vezes desalentador, estão os modos como a inteligência artificial aprende com as tarefas dos seres humanos para, em seguida, torná-los obsoletos, ampliando o desemprego. E, claro, a política e as eleições não ficam de fora. O assunto é abordado principalmente no capítulo 9 – "As redes sociais tornam a política impossível". Isso porque elas vão aos poucos erodindo os pressupostos comuns, distanciando as pessoas e dificultando o diálogo. Tendo em vista que a política é um espaço de luta, porém uma luta regrada, isso significa que para se fazer política é preciso estabelecer acordos e consensos, o que tem ficado cada vez mais complicado em tempos de tribalismo digital.


Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news (Matthew D'Ancona): o livro nos mostra como diversos pilares da democracia e modernidade, como mídia, ciência, universidades e instituições políticas, vêm sendo cada vez mais desacreditados. Ao mesmo tempo em que jornalistas são difamados, as mídias digitais favorecem o crescimento de teorias conspiratórias sem fundamento. Novamente, as eleições americana e britânica, nas quais obtiveram êxito, respectivamente, Trump e o Brexit, são apontadas como ápice da era da pós-verdade. D'Ancona, jornalista britânico com passagem por veículos como The Guardian, The New York Times, Telegraph e The Times, ressalta que a mentira e o uso proposital da desinformação sempre existiram. A diferença agora é o engajamento do público, que, em parte desiste de procurar a verdade em meio a tantas mentiras, conformando-se em abraçar as narrativas que melhor se encaixam em suas visões de mundo e, também em parte, acredita piamente nas informações disponibilizadas em suas bolhas e tribos. Mais uma vez, nesta obra vemos o poder das novas tecnologias e das mídias sociais de manipularem, polarizarem e enraizarem opiniões. 


A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital (Patrícia Campos Mello): por fim, mas não menos importante, o recém-lançado livro da jornalista brasileira Patrícia Campos Mello tem o mérito de esmiuçar a situação do Brasil, com foco nas eleições de 2018.  A autora tem larga experiência em cobertura política e mostra o quanto as mídias digitais ganharam espaço nas eleições da década passada para cá. O livro faz uma crítica não só às mentiras, mas às campanhas de difamação que se valem do discurso de ódio para desconstruir a imagem de jornalistas profissionais (e as mulheres jornalistas são um alvo ainda maior). Nesse aspecto, a obra ganha mais um trunfo, por seu cunho autobiográfico, já que a autora foi responsável pela primeira de uma série de reportagens sobre o financiamento de disparos em massa no Whatsapp e demais redes de disseminação de notícias falsas, na maioria das vezes em benefício de Jair Bolsonaro. Desde então, ela se tornou alvo de uma pesada campanha de difamação arquitetada pelo chamado "gabinete do ódio" e por suas milícias digitais. Campos Mello discute de forma minuciosa os modos como líderes populistas (ou tecnopopulistas) se valem de seus exércitos de trolls e robôs para manipular grandes parcelas da população em redes sociais como Twitter, Facebook, Instagram e Whatsapp. 


Referências:


[1] Live "Cobertura eleitoral em tempos de fake news":

https://www.youtube.com/watch?v=Ke6HlMpLzkM&t=70s


[2] "O que é pós-verdade, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford":

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford


[3] Crítica sobre Privacidade Hackeada:

https://observatoriodocinema.uol.com.br/artigos/2019/07/privacidade-hackeada-da-netflix-te-fara-repensar-tudo-o-que-voce-ve-na-internet


[4] Black Mirror e a eleição de Bolsonaro: 

https://epoca.globo.com/como-black-mirror-ajuda-entender-fenomeno-bolsonaro-23148634


[5] O dilema nas redes: 

https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2020/09/14/5-licoes-de-o-dilema-das-redes-doc-que-mostra-o-vicio-nas-redes-sociais/


[6] Fake news – baseado em fatos reais:

https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/09/22/direto-da-macedonia-eu-ganhei-dinheiro-publicando-noticias-falsas/


[7] Crítica de José Geraldo Couto sobre Rede de ódio: 

https://ims.com.br/blog-do-cinema/a-engrenagem-do-odio-por-jose-geraldo-couto/


[8] "Contágio, o filme: profecias sobre a cloroquina e o (mau) uso da internet:

http://www.diretodaciencia.com/2020/05/31/contagio-o-filme-profecias-sobre-cloroquina-e-o-mau-uso-da-internet/



       


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Amanhã estarei mediando live sobre fake news e eleições

Nesta quarta-feira (26), às 20h, estarei mediando a live "Cobertura eleitoral em tempos de fake news", realizada pela Associação de Jornalistas do Sul Fluminense (Ajosul). O tema não poderia ser mais pertinente: profissionais de comunicação e informação, do direito, da política e de instituições públicas – como o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – vêm buscando se preparar e aprimorar suas práticas para o que está por vir. Porém, a desinformação ganhou muita força nos últimos anos, impulsionada pelas novas tecnologias de comunicação, principalmente as redes sociais (Whatsapp, Facebook, Twitter...). Tudo acontece muito rápido e não tem sido sido nada fácil para a sociedade civil organizada acompanhar essa rapidez. O tempo do aprimoramento jurídico e institucional é naturalmente mais lento, Então, como fazer em 2020? Esse é o grande desafio, e o debate é muito bem-vindo. 


As fake news são apontadas como parte de um fenômeno mais amplo, que é o da pós-verdade. O termo pós-verdade foi eleito a palavra do ano de 2016 do Dicionário Oxford. No entendimento da Universidade de Oxford, a expressão pós-verdade se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais [1]. Nada disso é novo, mas a conexão com as tecnologias comunicacionais tornaram a coisa mais complicada. 


Mais do que pertinente, o tema para mim é bastante familiar. Muito antes dos termos "fake news" e "pós-verdade" virarem moda, na "longínqua" primeira década deste milênio, minhas monografias já tratavam do assunto. No curso de Cinema e Audiovisual, minha pesquisa tratou da suposta sincronia entre o álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, e o filme O mágico de Oz, de Victor Fleming. A “lenda” da sincronia proposital entre ambas as obras ganhara força nos primórdios da internet como um boato (na época da monografia, usava-se o termo "hoax" para se referir a boato/fake news). Pouco depois, em Jornalismo, a pesquisa foi sobre o “roubo da Amazônia”, um dos primeiros grandes boatos brasileiros de internet, que afirmava que livros didáticos estrangeiros continham mapas nos quais a Amazônia brasileira era classificada como “área internacional”. A história tinha todos os contornos de teoria conspiratória. Nos primórdios da internet no Brasil, uma página de direita ligada a militares saudosistas da ditadura disseminou esse boato aparentemente como forma de fazer lobby pelo aumento de recursos para que as Forças Armadas protegessem a região. O roubo da Amazônia foi um precedente menos nocivo da "mamadeira de piroca" e do "kit gay". 


Os termos são controversos. Para especialistas da área de comunicação, "fake news" é um termo incorreto, pois, se é fake não pode ser news (se o conteúdo é falso, não pode ser considerado notícia). Quanto à "pós-verdade", há quem prefira o termo "pós-fato". Mas fato mesmo é que no Brasil e no mundo a escalada das notícias fraudulentas e manipulação da informação, o que inclui não só textos, mas imagens e até vídeos falsos (por exemplo, os chamados "deep fakes"[2]), já comprometem o processo democrático, decidindo eleições e, consequentemente, os rumos das nações e suas políticas públicas por meio de irrealidades, o que termina por distanciar as gestões dos problemas práticos. O próprio conceito de pós-verdade foi impulsionado no bojo de processos eleitorais como a vitória de Donald Trump, nos EUA, e do Brext, no Reino Unido (a saída do Reino Unido da União Europeia).  


Em 2020, soma-se a isso o problema da pandemia de coronavirus. No Brasil, assim como em alguns outros países, o enfrentamento à covid-19 foi bastante politizado. A percepção do problema, de seus riscos e de seus modos de prevenção depende muito do alinhamento político que o cidadão possui. Por exemplo: aqueles mais simpatizantes do presidente Bolsonaro podem acreditar mais na eficácia de medicamentos como a cloroquina e ivermectina; já os críticos ao bolsonarismo tendem a respeitar mais as regras de isolamento social e não compram a ideia dos medicamentos citados como solução. O professor de Comunicação da UFRGS, Luiz Artur Ferrareto, um dos debatedores da live da Ajosul/RJ, escreveu, em parceria com Fernando Morgado, o guia "Covid-19 e comunicação: um guia prático para enfrentar a crise"[3]. É praticamente certo que as eleições municipais brasileiras deste ano serão fortemente influenciadas pela pandemia e pela "infodemia", o excesso de informações, muitas delas completamente falsas ou distorcidas. Confira abaixo o release completo da Ajosul/RJ sobre a live desta quarta-feira. 


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Ajosul/RJ promove live "Cobertra eleitoral em tempos de fake news" nesta quarta, 26


A Ajosul/RJ (Associação dos Jornalistas do Sul Fluminense) promove nesta quarta-feira (dia 26), a partir das 20h, uma live com o tema “Cobertura eleitoral em tempos de fake news”. A transmissão será feita pelo canal da Ajosul/RJ no Youtube. O evento terá a participação de Luiz Artur Ferraretto, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Comunicação e Informação; do jornalista Bernardo Moura, editor da Agência Aos Fatos; e da advogada Andresa Leal, idealizadora do projeto ‘Isso é Fake News’. 


 O objetivo do evento - organizado pela entidade que reúne mais de 100 profissionais da imprensa de toda a região - é esclarecer dúvidas dos profissionais da imprensa e demais interessados sobre a nova legislação eleitoral, que criminaliza a criação e divulgação de fake news, além de debater como as notícias falsas podem comprometer o processo democrático. 


 Luiz Artur Ferraretto é doutor em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também atua como professor no curso de Jornalismo e no Programa de Pós-graduação em Comunicação. É ainda coordenador do Núcleo de Estudos de Rádio, grupo de pesquisa certificado pela UFRGS junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ferraretto também é autor dos livros Rádio – O veículo, a história e a técnica; Rádio no Rio Grande do Sul (anos 20, 30 e 40); Rádio e capitalismo no Rio Grande do Sul: as emissoras comerciais e suas estratégias de programação na segunda metade do século 20; e Rádio – Teoria e prática. Com Elisa Kopplin Ferraretto, escreveu Técnica de redação radiofônica e Assessoria de imprensa – Teoria e prática e, com Fernando Morgado, Covid-19 e comunicação, um guia prático para enfrentar a crise e Dez passos para o ensino emergencial no rádio em tempos de covid-19.


Bernardo Moura é editor da agência Aos Fatos, especializada em checagem de fatos e combate à desinformação nas redes sociais. Jornalista formado pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), já trabalhou na redação dos jornais Extra, Agora SP e O Globo. Atuou também como assessor de imprensa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais Do Município do Rio de Janeiro.


Andresa Paula Leal é advogada, idealizadora do projeto ‘Isso é Fake News’. O trabalho de conclusão de curso de Andresa - formada pela UFF (Universidade Federal Fluminense) - teve como tema “Fake News: uma análise a partir do Direito e da prática do justiçamento”, no qual analisa a desinformação causada pelas notícias falsas e seus efeitos na comunidade. 


Referências:


[1] "O que é pós-verdade, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford": https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford


[2] Sobre Deep fakes: https://www.techtudo.com.br/noticias/2018/07/o-que-e-deepfake-inteligencia-artificial-e-usada-pra-fazer-videos-falsos.ghtml


[3] PDF gratuito de "Covid-19 e comunicação: um guia prático para enfrentar a crise": http://grupomontevideo.org/sitio/wp-content/uploads/2020/04/ner_covid-19_e_comunicacao.pdf


1 ano sem Maurício Tuffani: um gigante da divulgação científica, para além das redes sociais

No último dia 31 de maio de 2022, um ano se completou da morte do jornalista e divulgador científico Maurício Tuffani. Lembro-me bem da dat...