quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"O Dilema das redes" e a ditadura dos likes e da objetividade

 


Lançado neste ano pela Netflix, o documentário O Dilema das rede (The Social Dilemma), dirigido por Jeff Orlowski, tem dado o que falar ao tratar sobre estratégias de manipulação das mídias digitais e seus efeitos na sociedade. Aqueles que não curtiram têm reclamado principalmente do "gosto duvidoso" da parte dramatizada e do tom apelativo do filme; os que gostaram ressaltam, por exemplo, a riqueza e abrangência das informações e o quanto a combinação entre informação e recursos dramáticos tornam a produção mais palatável [1].


O novo filme da plataforma de streaming se junta a outros (documentais e de ficção), como Privacidade hackeada e Rede de ódio, que chamam a atenção para os perigos das redes sociais e seus algoritmos. Mais O dilema das redes tem alguns diferenciais. Um deles são os depoimentos dos próprios tecnólogos de gigantes da tecnologia, como Facebook e Google, tecendo críticas sobre as ferramentas que ajudaram a criar. Um momento mea culpa com um toque do mito de Frankestein: "criadores perplexos com o quanto a criatura fugiu do controle."


Um outro diferencial está em não se ater somente à política, dando um bom espaço para questões ligadas aos costumes e seus aspectos psicológicos. O filme fala sobre vício digital/tecnológico e os impactos das novas mídias na autoestima. Nesses pontos, as cenas dramatizadas funcionam para dar o recado, por mais apelativas e pueris que possam parecer. Uma família mal conversa durante a refeição, pois todos estão compenetrados em seus próprios aparelhos celulares. A mãe propõe um desafio: deixar os celulares em um vaso fechado por um tempo. A menina adolescente não aguenta e, pouco depois, quebra o vaso para pegar seu aparelho. As cenas são mescladas a dados sobre o aumento do tempo médio em que ficamos conectados e sobre estratégias das redes para ganharem nossa atenção e nosso tempo de navegação [2] [3] [4].


Ao tratar dos efeitos da rede na autoestima, O dilema das redes traz sequências que me soaram sensíveis e humanizadas, o que é um diferencial positivo. A mesma menina que quebra o vaso para pegar seu celular dedica boa parte de seu tempo ensaiando selfies e testando sua popularidade ao postar suas próprias fotos. Isso é o que eu chamo de ditadura dos likes e da objetividade. Talvez os mais jovens, aqueles que nasceram e cresceram em meio às redes sociais, não entendam o que estou dizendo, mas houve um tempo em que ter um feedback sobre o quanto se é feio ou bonito, o quanto aquela pessoa gosta de você e sobre a própria popularidade não era tão óbvio como é hoje. Claro que nunca foi algo totalmente subjetivo e claro que sempre foi possível mensurar a reação de terceiros, mas havia algum espaço para a subjetividade: será que ele ou ela sente algo por mim? Será que tenho alguma chance? Em um tempo não muito remoto, de maior contato presencial – ou pelo menos de menor contato virtual – olhares e tons de voz eram indicativos importantes para responder a essas perguntas.


Hoje, com a profusão de redes sociais, cada uma com suas características específicas, o feedback sobre a popularidade ou grau de atração é diariamente alimentado e atualizado. Tudo é muito bem quantificado, de forma esmagadoramente objetiva, praticamente sem espaço para ilusão ou autoengano, demolindo a autoestima de uns, inflando o ego de outros. As métricas são várias e se somam: a quantidade de likes nas fotos do Instagram, o teor dos comentários (isso quando eles existem) nas postagens no Facebook, o tempo levado para se receber a resposta à mensagem que enviamos no Whatsapp após ela ser visualizada (se for visualizada, se for respondida), a quantidade de interação em geral, a não interação...


Nunca foi tão fácil termos retorno sobre nós mesmos, sabermos o que os outros pensam do mundo e de nós. As novas mídias possibilitaram algo parecido com a telepatia (claro que isso depende muito do quanto cada pessoa expõe os próprios pensamentos e visão de mundo), algum tipo de telepatia digital. Aplicativos de relacionamentos, como o Tinder, encurtam o tempo que gastamos com um potencial parceiro. É que dependendo das ideias e opiniões do pretendente, pulamos fora o quanto antes. Quem nunca? Em alguns aspectos, a objetividade pode ter suas vantagens. Talvez na otimização do tempo para algumas coisas.


Mas a objetividade das redes e a ditadura dos likes têm um preço. O dilema das redes aborda a relação entre as novas mídias e a saúde mental e chama a atenção para o aumento alarmante de suicídios entre jovens. Há estudos que apontam que o uso excessivo das redes pode causar depressão e ansiedade, doenças que se não forem tratadas agravam pensamentos negativos e suicidas [5] [6].


Retomando a ideia de telepatia digital, finalizo este texto com um pensamento que me era recorrente nos tempos de adolescente, aqueles tempos um pouco mais analógicos e não tão remotos: "se você pudesse escolher um poder mutante, qual seria?" Eu era um fã de X-men e de quadrinhos em geral e, dentre os possíveis poderes que eu gostaria de possuir estava a telepatia. A principal razão era óbvia: saber o que pensavam de mim, quais sentimentos nutriam ao meu respeito e, a partir disso, quais possibilidades eu tinha. Hoje isso me parece menos necessário e até pouco salutar. Saber o que pensam sobre nós e sobre o mundo pode se tornar uma experiência complicada. A objetividade e o excesso de transparência cobram um custo alto. Não à toa personagens como o Professor Xavier e Jean Gray são meio atormentados.


Referências:


[1] "O Dilema das Redes" usa fórmula apelativa para agradar ao público jovem:

https://www.uol.com.br/splash/colunas/andre-barcinski/2020/09/22/o-dilema-das-redes-usa-formula-apelativa-para-agradar-ao-publico-jovem.htm


[2] “O Dilema das Redes”: por que assistir ao novo documentário da Netflix

https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/dilema-das-redes-por-que-assistir-documentario-netflix/


[3] Os 5 segredos dos donos de redes sociais para viciar e manipular, segundo o ‘Dilema das Redes’

https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-54274664


[4] 5 lições de "O Dilema das Redes", doc que mostra o vício nas redes sociais:

https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2020/09/14/5-licoes-de-o-dilema-das-redes-doc-que-mostra-o-vicio-nas-redes-sociais/


[5] A influência das redes sociais nos casos de suicídio entre jovens e adolescentes brasileiros e o seu aumento durante a pandemia:

https://www.migalhas.com.br/depeso/332002/a-influencia-das-redes-sociais-nos-casos-de-suicidio-entre-jovens-e-adolescentes-brasileiros-e-o-seu-aumento-durante-a-pandemia


[6] O risco de depressão e ansiedade com o mau uso das redes sociais:

https://www.selecoes.com.br/saude/o-risco-de-depressao-e-ansiedade-com-o-mau-uso-das-redes-sociais/


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Fake news e eleições: dez dicas de filmes e livros para entender o assunto

 


As eleições municipais estão chegando no Brasil e um fenômeno que preocupa profissionais da comunicação, do direito, das ciências sociais e políticas e a sociedade civil em geral são as fake news. Muito tem se falado sobre isso e, nos últimos meses, diversas lives reuniram especialistas de várias áreas para debaterem o tema e tentarem antever os desafios eleitorais. Tive a satisfação de mediar uma delas, "Cobertura eleitoral em tempos de fake news", pela Associação de Jornalistas do Sul Fluminense (Ajosul). A live foi bastante ampla, reunindo representantes da área acadêmica, das fact-checking e meio jurídico. Vale a pena conferir [1].


As fake news são apontadas como parte de um fenômeno mais amplo, que é o da pós-verdade (ou pós-fato, como preferem alguns especialistas). O termo pós-verdade foi eleito a palavra do ano de 2016 do Dicionário Oxford. No entendimento da Universidade de Oxford, a expressão pós-verdade relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais [2]. As fake news, vale lembrar, não são uma novidade. Elas existem desde os primórdios do jornalismo. A diferença da atualidade está no casamento com a tecnologia, que amplia a velocidade de compartilhamento, as facilidades de edição e simulação de veículos noticiosos (cada vez mais surgem páginas de fake news que imitam a diagramação, layout e redação típicos do jornalismo) e o engajamento das pessoas com as mentiras. Sim, muita gente quer acreditar na mentira simplesmente porque concorda com ela, porque ela contribui, de alguma forma, para seus valores e visões de mundo. 


De acordo com estudiosos dos fenômenos das fake news e pós-verdade, o marco desta onda tecnológica atual foi mesmo o ano de 2016, por conta das eleições de Donald Trump, nos Estados Unidos, e do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia, coisa que até hoje tem dado muito o que falar por lá). Enquanto as eleições não chegam, a gente pode entender um pouco mais sobre os impactos da desinformação na política e no cotidiano e aprender quais sãos seus mecanismos e as motivações de quem está por trás das principais máquinas de mentiras espalhadas pelo mundo: no Brasil, na Russia e até na pacata Macedônia. Aqui selecionamos dez obras (seis filmes e quatro livros) nacionais e estrangeiras que discutem as fake news no contexto eleitoral. 


FILMES


Privacidade Hackeada (2019): Este documentário, disponível na Netflix, foca no escândalo da participação da Cambridge Analytica em algumas eleições, inclusive na americana, em que Trump foi eleito. Por meio de depoimentos, até mesmo de alguns ex-colaboradores da empresa, o filme se aprofunda nas artimanhas tecnológicas das redes sociais que se apropriam dos nossos dados e influenciam nosso comportamento e, claro, nosso voto. O ex-CEO da empresa, Alexander Nix, a classificava como uma "empresa de comunicação orientada por dados". Privacidade Hackeada expõe de forma impressionante o nível de influência e manipulação que as técnicas da Cambridge Analytica tiveram em diversas campanhas do mundo, como na Argentina (2015), Trinidade e Tobago (2009), Malásia (2013), Itália (2012), dentre outros países. "É a personalidade que impulsiona  o comportamento, e o comportamento obviamente influencia em quem você vota", diz Nix [3].


The Waldo Moment (2013): que Black Mirror é o tipo de obra que nos ajuda a entender a atualidade acho que ninguém que tenha assistido alguns bons episódios da série tem dúvidas. O terceiro episódio da segunda temporada – The Waldo Moment – mostra como Waldo, um ursinho azul desbocado, gerado por computação gráfica para debochar e ofender políticos, acaba se tornando candidato nas eleições locais do Reino Unido. Com um discurso niilista contra "tudo o que aí está", Waldo,  arrebata corações de um eleitorado apolítico e cheio de revolta. No entanto, o humorista Jamie Salter, responsável pelo personagem, não gosta muito da ideia da candidatura, mas, contra a sua vontade, se vê obrigado a aceitar e conduzir o sucesso do personagem. Salter sabe que a candidatura não tem proposta e nem conteúdo. É puro escárnio e irrealidade. O processo eleitoral  é o fio condutor desta trama. E você, conhece algum Waldo de carne e osso em alguma eleição? [4]


O dilema das redes (2020): semelhante a Privacidade Hackeada, esta produção, lançada neste ano pela Netflix, também foca nos algorítimos e aspectos técnicos das redes sociais, embora não aborde o caso da Cambridge Analytica. O filme nos mostra como a arquitetura dessas plataformas é feita para gerar mudanças em nosso comportamento, prender nossa atenção e até nos viciar. Os próprios tecnólogos comentam quais são os seus vícios digitais. O que é preocupante: se eles, que têm consciência das artimanhas tecnológicas, se vêem reféns em alguns casos, imagine nós, pobres mortais. O dilema das redes possui algumas sequências dramatizadas que retratam muito bem o quanto ficamos viciados em telefone celular e a baixa autoestima que as novas mídias têm gerado nos mais jovens, que se vêem em uma sociedade de superexposição e excesso de objetividade com a ditadura dos likes. O filme também traz todas essas problematizações para o campo político, mostrando como as redes têm favorecido ideias radicais e influenciado nas eleições. A propósito, com referências ao Brasil e à eleição do presidente Jair Bolsonaro [5].


Fake news – baseado em fatos reais (2017): mais um documentário, só que, desta vez, brasileiro, produzido pela equipe do Que mundo é esse?, da Globonews. A produção vai aos Estados Unidos, Reino Unido, Russia e até à Macedônia para investigar o fenômeno das fake news. Apesar de ser um documentário brasileiro, peca por não se aprofundar tanto na realidade do próprio país. Realizado um ano antes das eleições de 2018, a impressão que dá ao revermos o filme atualmente é que a tsunami das fake news foi um tanto subestimada quanto a seus impactos políticos e eleitorais no Brasil. Mas certamente o ponto alto de Fake news – baseado em fatos reais é a pacata e insuspeita Macedônia. Por ser um polo de mão de obra barata no ramo da tecnologia digital, o país europeu virou celeiro mundial de produção de fake news, influenciando eleições como a de Trump, nos EUA, e o Brexit, no Reino Unido. A equipe entrevista um dos "Veles Boys". O grupo de profissionais da cidade de Veles ficou assim conhecido por conta do trabalho com desinformação em larga escala. O entrevistado, um garoto de 19 anos muito esperto e inteligente, mostra sem pudores como produz e dissemina seu conteúdo falso. Embora a tônica do documentário seja de que fake news pode ser de esquerda ou de direita, o Veles boy não poupa crítica e deboche aos eleitores de Trump. Ele diz que o diferencial entre as mentiras de direita e de esquerda, ao menos no contexto americano, está na adesão e engajamento do público. "Os eleitores de Bernie Sanders têm pensamento crítico. Já os eleitores de Trump acreditam em qualquer coisa", tira sarro o garoto. Detalhe: mesmo sem ser nativo no idioma inglês, o jovem macedônio consegue criar textos mentirosos que convencem o eleitorado americano trumpista. Mérito do Veles boy ou demérito dos eleitores de Trump? [6]


Rede de ódio (2020): para o crítico José Geraldo Couto, "não pode haver filme mais atual, especialmente para nós, brasileiros", do que esta produção polonesa dirigida por Jam Komasa. O filme mostra como a desregulamentação das práticas de marketing digital e eleitoral possibilita com que empresas e grupos ligados a essa atividade possam se valer das artimanhas mais antiéticas e mentirosas, gerando caos social e destruição. Mais do que isso, o filme aborda como poucos aspectos psicológicos, mostrando o peso do rancor, do ressentimento, da sexualidade e da falta de autoestima na política. A narrativa gira em torno do jovem Tomasz Giemsa (Maciej Musialowski),  uma espécie de sobrevivente neste mundo com o tecido social esgarçado pelas novas tecnologias. Tomasz é vítima e ao mesmo tempo algoz: é influenciado psicologicamente por suas interações nas redes e, como profissional de estratégias espúrias de marketing digital, torna-se um manipulador de pessoas tão ressentidas e outsiders quanto ele. A eleição em curso ajuda a mostrar a ascensão de tendências como xenofobia, racismo, homofobia e fascismo pelos meios digitais [7].


Contágio (2011): vista em tempos de coronavirus, esta produção americana dirigida por Steven Soderbergh soa profética em alguns aspectos ao retratar uma pandemia fictícia que possui pontos semelhantes à situação que o mundo vive atualmente. Dentre eles, a chamada "infodemia", a epidemia de informação, incluindo muita mentira e fake news. A ideia do filme parece ser mostrar que as informações falsas podem se replicar tanto quanto um vírus. A trama inclui um blogueiro metido a jornalista que propaga um falso remédio para a doença. Poderia se chamar cloroquina ou ivermectina, mas, na trama, recebe o nome de "forsítia". Embora Contágio não mostre especificamente nenhum processo eleitoral, o filme entra em nossa lista justamente por conta do contexto pandêmico, que tem influenciado e sido influenciado pela política. Com certeza o problema da covid-19 terá protagonismo nas eleições municipais brasileiras [8].    


LIVROS


A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump (Michiko Kakutani): escrito pela jornalista norte-americana (de origem japonesa) Michiko Kakutani, com experiência de longos anos no “The New York Times”, esta é mais uma das obras que situam o ano de 2016 e a eleição de Trump como marcos do fenômeno da pós-verdade. Em um livro curto, Kakutani conseguiu condensar e, ao mesmo tempo, abordar com profundidade, características como o enfraquecimento do conceito de fato, as guerras culturais, o tribalismo que enclausura cada vez mais os indivíduos em suas respectivas bolhas, o uso da ironia por parte dos políticos como forma de propagar inconsequências e preconceitos de forma descompromissada (na pior das hipóteses, basta depois dizer que foi mal compreendido) e, claro, a propaganda política flagrantemente mentirosa e seus "fatos alternativos".  A jornalista e escritora demonstra um desapreço especial pelo pós-modernismo e seus impactos filosóficos na percepção da realidade. Com uma minúcia digna de um bom trabalho de linguística, ela mostra como conservadores religiosos e extremistas de direita valeram-se de um mesmo modus operandi do discurso pós-moderno para legitimarem suas narrativas: "O argumento pós-moderno de que todas as verdades são parciais (e dependem da perspectiva de uma pessoa) levou ao argumento de que existem diversas maneiras legítimas de entender ou representar um acontecimento. Isso tanto encorajou um discurso mais igualitário quanto possibilitou que as vozes dos outrora excluídos fossem ouvidas. Mas também foi explorado por aqueles que quiseram defender teorias ofensivas ou desacreditadas, ou equiparar coisas que não podem ser equiparadas. Os criacionistas, por exemplo, reivindicaram que a teoria do "design inteligente" fosse ensinada junto com a teoria da evolução nas escolas. "Ensine as duas", alguns sugeriram. Outros disseram: "Ensine a controvérsia".


Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais (Jaron Lanier): o tecnólogo e filósofo da tecnologia Jaron Lanier é uma figura exótica e carismática. Com suas longas madeixas rastafari, ele percorre o mundo alertando sobre os riscos das redes sociais, que classifica como verdadeiras máquinas de mudança de comportamento e manipulação. Sem dúvida, Lanier entende do assunto, já que é cria do Vale do Silício, da geração de tecnólogos que ajudou a moldar as plataformas digitais que temos hoje, como Facebook e Twitter. Mas Lenier faz parte do time de tecnólogos que, apesar das boas intenções iniciais, perceberam que as consequências fugiram um pouco do controle. A propósito, Lanier é um dos profissionais a dar depoimento no documentário O dilema das redes, já sugerido aqui. Sua proposta, resumida no título do livro, parece radical. Afinal, será que conseguiremos deletar nossas redes sociais e viver mais offline? Mas Lanier diz que a ideia não é deletar nada para sempre, mas só por um tempo, para que as empresas responsáveis pelas plataformas digitais sejam forçadas a adotar uma postura mais ética e responsável. Dentre os problemas apontados pelo autor neste livro bombástico e por vezes desalentador, estão os modos como a inteligência artificial aprende com as tarefas dos seres humanos para, em seguida, torná-los obsoletos, ampliando o desemprego. E, claro, a política e as eleições não ficam de fora. O assunto é abordado principalmente no capítulo 9 – "As redes sociais tornam a política impossível". Isso porque elas vão aos poucos erodindo os pressupostos comuns, distanciando as pessoas e dificultando o diálogo. Tendo em vista que a política é um espaço de luta, porém uma luta regrada, isso significa que para se fazer política é preciso estabelecer acordos e consensos, o que tem ficado cada vez mais complicado em tempos de tribalismo digital.


Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news (Matthew D'Ancona): o livro nos mostra como diversos pilares da democracia e modernidade, como mídia, ciência, universidades e instituições políticas, vêm sendo cada vez mais desacreditados. Ao mesmo tempo em que jornalistas são difamados, as mídias digitais favorecem o crescimento de teorias conspiratórias sem fundamento. Novamente, as eleições americana e britânica, nas quais obtiveram êxito, respectivamente, Trump e o Brexit, são apontadas como ápice da era da pós-verdade. D'Ancona, jornalista britânico com passagem por veículos como The Guardian, The New York Times, Telegraph e The Times, ressalta que a mentira e o uso proposital da desinformação sempre existiram. A diferença agora é o engajamento do público, que, em parte desiste de procurar a verdade em meio a tantas mentiras, conformando-se em abraçar as narrativas que melhor se encaixam em suas visões de mundo e, também em parte, acredita piamente nas informações disponibilizadas em suas bolhas e tribos. Mais uma vez, nesta obra vemos o poder das novas tecnologias e das mídias sociais de manipularem, polarizarem e enraizarem opiniões. 


A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital (Patrícia Campos Mello): por fim, mas não menos importante, o recém-lançado livro da jornalista brasileira Patrícia Campos Mello tem o mérito de esmiuçar a situação do Brasil, com foco nas eleições de 2018.  A autora tem larga experiência em cobertura política e mostra o quanto as mídias digitais ganharam espaço nas eleições da década passada para cá. O livro faz uma crítica não só às mentiras, mas às campanhas de difamação que se valem do discurso de ódio para desconstruir a imagem de jornalistas profissionais (e as mulheres jornalistas são um alvo ainda maior). Nesse aspecto, a obra ganha mais um trunfo, por seu cunho autobiográfico, já que a autora foi responsável pela primeira de uma série de reportagens sobre o financiamento de disparos em massa no Whatsapp e demais redes de disseminação de notícias falsas, na maioria das vezes em benefício de Jair Bolsonaro. Desde então, ela se tornou alvo de uma pesada campanha de difamação arquitetada pelo chamado "gabinete do ódio" e por suas milícias digitais. Campos Mello discute de forma minuciosa os modos como líderes populistas (ou tecnopopulistas) se valem de seus exércitos de trolls e robôs para manipular grandes parcelas da população em redes sociais como Twitter, Facebook, Instagram e Whatsapp. 


Referências:


[1] Live "Cobertura eleitoral em tempos de fake news":

https://www.youtube.com/watch?v=Ke6HlMpLzkM&t=70s


[2] "O que é pós-verdade, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford":

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford


[3] Crítica sobre Privacidade Hackeada:

https://observatoriodocinema.uol.com.br/artigos/2019/07/privacidade-hackeada-da-netflix-te-fara-repensar-tudo-o-que-voce-ve-na-internet


[4] Black Mirror e a eleição de Bolsonaro: 

https://epoca.globo.com/como-black-mirror-ajuda-entender-fenomeno-bolsonaro-23148634


[5] O dilema nas redes: 

https://ninalemos.blogosfera.uol.com.br/2020/09/14/5-licoes-de-o-dilema-das-redes-doc-que-mostra-o-vicio-nas-redes-sociais/


[6] Fake news – baseado em fatos reais:

https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/09/22/direto-da-macedonia-eu-ganhei-dinheiro-publicando-noticias-falsas/


[7] Crítica de José Geraldo Couto sobre Rede de ódio: 

https://ims.com.br/blog-do-cinema/a-engrenagem-do-odio-por-jose-geraldo-couto/


[8] "Contágio, o filme: profecias sobre a cloroquina e o (mau) uso da internet:

http://www.diretodaciencia.com/2020/05/31/contagio-o-filme-profecias-sobre-cloroquina-e-o-mau-uso-da-internet/



       


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Amanhã estarei mediando live sobre fake news e eleições

Nesta quarta-feira (26), às 20h, estarei mediando a live "Cobertura eleitoral em tempos de fake news", realizada pela Associação de Jornalistas do Sul Fluminense (Ajosul). O tema não poderia ser mais pertinente: profissionais de comunicação e informação, do direito, da política e de instituições públicas – como o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – vêm buscando se preparar e aprimorar suas práticas para o que está por vir. Porém, a desinformação ganhou muita força nos últimos anos, impulsionada pelas novas tecnologias de comunicação, principalmente as redes sociais (Whatsapp, Facebook, Twitter...). Tudo acontece muito rápido e não tem sido sido nada fácil para a sociedade civil organizada acompanhar essa rapidez. O tempo do aprimoramento jurídico e institucional é naturalmente mais lento, Então, como fazer em 2020? Esse é o grande desafio, e o debate é muito bem-vindo. 


As fake news são apontadas como parte de um fenômeno mais amplo, que é o da pós-verdade. O termo pós-verdade foi eleito a palavra do ano de 2016 do Dicionário Oxford. No entendimento da Universidade de Oxford, a expressão pós-verdade se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais [1]. Nada disso é novo, mas a conexão com as tecnologias comunicacionais tornaram a coisa mais complicada. 


Mais do que pertinente, o tema para mim é bastante familiar. Muito antes dos termos "fake news" e "pós-verdade" virarem moda, na "longínqua" primeira década deste milênio, minhas monografias já tratavam do assunto. No curso de Cinema e Audiovisual, minha pesquisa tratou da suposta sincronia entre o álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, e o filme O mágico de Oz, de Victor Fleming. A “lenda” da sincronia proposital entre ambas as obras ganhara força nos primórdios da internet como um boato (na época da monografia, usava-se o termo "hoax" para se referir a boato/fake news). Pouco depois, em Jornalismo, a pesquisa foi sobre o “roubo da Amazônia”, um dos primeiros grandes boatos brasileiros de internet, que afirmava que livros didáticos estrangeiros continham mapas nos quais a Amazônia brasileira era classificada como “área internacional”. A história tinha todos os contornos de teoria conspiratória. Nos primórdios da internet no Brasil, uma página de direita ligada a militares saudosistas da ditadura disseminou esse boato aparentemente como forma de fazer lobby pelo aumento de recursos para que as Forças Armadas protegessem a região. O roubo da Amazônia foi um precedente menos nocivo da "mamadeira de piroca" e do "kit gay". 


Os termos são controversos. Para especialistas da área de comunicação, "fake news" é um termo incorreto, pois, se é fake não pode ser news (se o conteúdo é falso, não pode ser considerado notícia). Quanto à "pós-verdade", há quem prefira o termo "pós-fato". Mas fato mesmo é que no Brasil e no mundo a escalada das notícias fraudulentas e manipulação da informação, o que inclui não só textos, mas imagens e até vídeos falsos (por exemplo, os chamados "deep fakes"[2]), já comprometem o processo democrático, decidindo eleições e, consequentemente, os rumos das nações e suas políticas públicas por meio de irrealidades, o que termina por distanciar as gestões dos problemas práticos. O próprio conceito de pós-verdade foi impulsionado no bojo de processos eleitorais como a vitória de Donald Trump, nos EUA, e do Brext, no Reino Unido (a saída do Reino Unido da União Europeia).  


Em 2020, soma-se a isso o problema da pandemia de coronavirus. No Brasil, assim como em alguns outros países, o enfrentamento à covid-19 foi bastante politizado. A percepção do problema, de seus riscos e de seus modos de prevenção depende muito do alinhamento político que o cidadão possui. Por exemplo: aqueles mais simpatizantes do presidente Bolsonaro podem acreditar mais na eficácia de medicamentos como a cloroquina e ivermectina; já os críticos ao bolsonarismo tendem a respeitar mais as regras de isolamento social e não compram a ideia dos medicamentos citados como solução. O professor de Comunicação da UFRGS, Luiz Artur Ferrareto, um dos debatedores da live da Ajosul/RJ, escreveu, em parceria com Fernando Morgado, o guia "Covid-19 e comunicação: um guia prático para enfrentar a crise"[3]. É praticamente certo que as eleições municipais brasileiras deste ano serão fortemente influenciadas pela pandemia e pela "infodemia", o excesso de informações, muitas delas completamente falsas ou distorcidas. Confira abaixo o release completo da Ajosul/RJ sobre a live desta quarta-feira. 


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Ajosul/RJ promove live "Cobertra eleitoral em tempos de fake news" nesta quarta, 26


A Ajosul/RJ (Associação dos Jornalistas do Sul Fluminense) promove nesta quarta-feira (dia 26), a partir das 20h, uma live com o tema “Cobertura eleitoral em tempos de fake news”. A transmissão será feita pelo canal da Ajosul/RJ no Youtube. O evento terá a participação de Luiz Artur Ferraretto, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Comunicação e Informação; do jornalista Bernardo Moura, editor da Agência Aos Fatos; e da advogada Andresa Leal, idealizadora do projeto ‘Isso é Fake News’. 


 O objetivo do evento - organizado pela entidade que reúne mais de 100 profissionais da imprensa de toda a região - é esclarecer dúvidas dos profissionais da imprensa e demais interessados sobre a nova legislação eleitoral, que criminaliza a criação e divulgação de fake news, além de debater como as notícias falsas podem comprometer o processo democrático. 


 Luiz Artur Ferraretto é doutor em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também atua como professor no curso de Jornalismo e no Programa de Pós-graduação em Comunicação. É ainda coordenador do Núcleo de Estudos de Rádio, grupo de pesquisa certificado pela UFRGS junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ferraretto também é autor dos livros Rádio – O veículo, a história e a técnica; Rádio no Rio Grande do Sul (anos 20, 30 e 40); Rádio e capitalismo no Rio Grande do Sul: as emissoras comerciais e suas estratégias de programação na segunda metade do século 20; e Rádio – Teoria e prática. Com Elisa Kopplin Ferraretto, escreveu Técnica de redação radiofônica e Assessoria de imprensa – Teoria e prática e, com Fernando Morgado, Covid-19 e comunicação, um guia prático para enfrentar a crise e Dez passos para o ensino emergencial no rádio em tempos de covid-19.


Bernardo Moura é editor da agência Aos Fatos, especializada em checagem de fatos e combate à desinformação nas redes sociais. Jornalista formado pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), já trabalhou na redação dos jornais Extra, Agora SP e O Globo. Atuou também como assessor de imprensa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais Do Município do Rio de Janeiro.


Andresa Paula Leal é advogada, idealizadora do projeto ‘Isso é Fake News’. O trabalho de conclusão de curso de Andresa - formada pela UFF (Universidade Federal Fluminense) - teve como tema “Fake News: uma análise a partir do Direito e da prática do justiçamento”, no qual analisa a desinformação causada pelas notícias falsas e seus efeitos na comunidade. 


Referências:


[1] "O que é pós-verdade, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford": https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford


[2] Sobre Deep fakes: https://www.techtudo.com.br/noticias/2018/07/o-que-e-deepfake-inteligencia-artificial-e-usada-pra-fazer-videos-falsos.ghtml


[3] PDF gratuito de "Covid-19 e comunicação: um guia prático para enfrentar a crise": http://grupomontevideo.org/sitio/wp-content/uploads/2020/04/ner_covid-19_e_comunicacao.pdf


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Marcelo Adnet e a crítica à "fala acadêmica da esquerda"

 



O humorista Marcelo Adnet foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira (17/08)[1]. Considerando-se de esquerda e progressista, Adnet ainda assim fez críticas ao espectro político do qual diz fazer parte, chamando a atenção para o quanto o "discurso acadêmico" de grande parte da esquerda a afasta da população. Por outro lado, a direita governista, ou seja, a direita bolsonarista, possui, ainda segundo ele, estratégias de comunicação mais diretas e simples, que colam mais fácil com as massas.


– O lado governista tem uma forma de comunicação muito breve: um meme, uma frase, um "chora mais"(...). Enquanto a esquerda é muito mais psicologizada, foucaultiana (...), e todo esse discurso acadêmico da esquerda, que eu tenho também, acaba afastando a maioria da população, porque ele não comunica. Ele é chato, velho e pesado, disse Adnet.


Primeiramente, já virou uma espécie de lugar-comum na política brasileira criticar algum político ou grupo político chamando-o de "acadêmico" ou "academicista". É tiro e queda. Virou crítica mesmo. Motivo de descrédito e até vergonha. Por mais que existam fundamentos pertinentes e construtividade nesse tipo de crítica, não dá para negar que ela é permeada também pelo anti-intelectualismo e antiacademicismo nossos de cada dia. Gosto mais do termo "antiacademicismo", pois mostra o quanto o anti-intelectualismo já se converteu, sociopoliticamente, em aversão às instituições produtoras de conhecimento (universidades e institutos de pesquisa). Sem contar que antiacademicismo é menos subjetivo que anti-intelectualismo, pois há muita gente que se vê como intelectual aparentemente sem ser. Esse provavelmente é o caso de Olavo de Carvalho. Para ele, não existem intelectuais de esquerda ao seu nível[2]. Autoestima é tudo!


Vale destacar que, apesar da crítica ao "academicismo de esquerda", nunca houve na história política brasileira um partido no qual acadêmicos tenham de fato tido hegemonia quantitativa, no poder decisório como dirigentes e nas escolhas dos representantes políticos para candidaturas e cargos na gestão pública. Há ainda, neste tipo de crítica, uma oposição equivocada entre prática e reflexão, entre fazer as coisas (ainda que essas coisas sejam irrelevantes ou equivocadas) e pensar sobre elas. 


Adnet é um excelente humorista. Um dos melhores da TV brasileira, sem dúvida. Com seu talento e criatividade, ele tem abordado temas políticos e satirizado questões que merecem o escárnio. Nem precisava dizer, como disse no programa, que tem uma visão de "esquerda e progressista", pois isso é, em grande medida, perceptível em seu trabalho. Mas foi bom que tenha dito, pois mostra que o pensamento anti-intelectual e antiacadêmico permeia a direita e também a esquerda. Sua crítica sobre a "fala acadêmica" da esquerda é pertinente e foi feita de forma construtiva. Mas foca muito na comunicação e pouco na ideologia e na política propriamente dita. Isso significa dizer que ela foca muito forma e pouco no conteúdo.


Explico: o problema não é só como se diz, mas o que se diz. Estratégias de comunicação política são fundamentais para candidatos, políticos, partidos, governos, ONGs, movimentos sociais etc. Um "chora mais" aqui, uma hashtag ali, um meme, podem, sim, fazer a diferença nesta nova esfera pública que são as redes sociais, onde, para o mal e para o bem, grande parte do debate político é travado. Mas, somadas a essas questões de forma, de estratégias de comunicação e marketing político, há o conteúdo: algumas ideias políticas são mais complexas que outras, portanto a simplificação dessas ideias será naturalmente mais difícil. Como fazer? Essa é a questão!


Bolsonaro é um catalizador de senso comum. Portanto o bolsonarismo surfa em uma onda que já existe. E já se formava antes mesmo das famigeradas manifestações de 2013. A tarefa da esquerda é desconstruir essa onda ou criar uma onda nova. Ou seja, ela é naturalmente mais difícil. Catalizar senso comum, reprocessá-lo e devolvê-lo às massas em forma de meme e texto raso é mais simples. Exemplos: é mais fácil dizer que bandido bom é bandido morto do que apontar as raízes sociais da violência, demonstrando sua relação com a pobreza, com a falta de oportunidades e de acesso à educação, evidenciando os aspectos sociológicos para além dos psicológicos e morais do criminoso; é mais fácil defender castração química de estuprador do que denunciar o machismo estrutural e a cultura de estupro; é mais fácil dizer que a riqueza é fruto do trabalho e do mérito individual do que explicar como funciona o capitalismo; é mais fácil dizer para as pessoas pobres que a vida delas é ruim porque os políticos roubam (recorrendo às imagens estereotipadas de dólares na cueca ou saindo pelas bordas da pasta de couro) do que falar sobre os modos como o estado é capturado pelos interesses privados para que esse mesmo estado funcione segundo os interesses do rentismo e das elites, que precisam da pobreza para que haja mão de obra barata a serviço de seus negócios. Aliás, este último tôpico leva invariavelmente a outros, como luta de classes e mais-valia. Para o bolsonarismo (e boa parte da direita), é melhor ficar só na corrupção e nos políticos corruptos.


Aliás, por que o tema "corrupção" tem um espaço tão amplo no debate político das massas? Uma das respostas é porque a corrupção é realmente um grande problema, mas é também porque discutir política pelo enfoque da corrupção é uma das formas mais fáceis de se discutir e pensar a política. Se você diz que Fulano roubou e Beltrano não roubou, a dona de casa com pouca instrução, mas de bom coração e valores morais, compreende rapidamente que Fulano está errado e Beltrano, não; que Fulano merece punição, enquanto Beltrano pode ser uma esperança. Não à toa o combate à corrupção foi uma das principais estratégias de marketing político da chapa vencedora das últimas eleições. É um mote fácil. O lavajatismo somou forças a esse marketing anticorrupção no reducionismo do debate político-eleitoral de 2018, sendo amplamente usado pelo bolsonarismo e pela direita (aqui não me refiro à operação Lava Jato em seus aspectos jurídicos, mas ao lavajatismo, entendido como desdobramentos político, eleitoral e discursivo da Lava Jato). 


Cabe ressaltar que as áreas acadêmicas mais afeitas ao estudo da política (como ciência política, sociologia, história...) possuem uma epistemologia desconstrutiva, justamente no sentido ideologicamente contra-hegemônico. Ou, para falar de uma forma mais popular: normalmente elas desconstroem o senso comum em vez de se valerem dele; frequentemente elas nos mostram que coisas que vemos como naturais não são tão naturais assim. O  cientista político Luis Felipe Miguel, ao abordar o suposto partidarismo à esquerda nessas áreas, explica que elas nasceram “de um esforço de desnaturalização do mundo social, o que leva à contestação das hierarquias e desigualdades. É o oposto do projeto da direita”[3]. Para o pesquisador, isso explicaria a predominância do pensamento de esquerda nesse segmento.  


Embora assertivo em certa medida, Adnet preferiu focar na forma, na comunicação. "Os governistas foram muito competentes nessa guerra de comunicação e semiótica", disse ele. Pois é, Adnet, mas a questão não é só essa. Ela envolve o debate político nas desconstruções do senso comum; envolve refletir sobre questões complexas que dificilmente serão solucionadas com ideias simples; envolve mostrar ao eleitorado que todos nós devemos desconfiar das soluções fáceis. 


Em minha atuação na área da comunicação pública/governamental, trabalhei com muitos políticos e gestores públicos que tinham a percepção de que estavam fazendo um excelente trabalho (alguns até estavam mesmo), mas que seus governos colhiam poucos frutos dessas ações por conta de falhas e ineficiências da comunicação. Acontece que não podemor resumir todos os problemas a problemas de comunicação ou marketing. Existem plataformas políticas mais complexas que outras; existem aquelas que são menos vistosas, ainda que muito importantes; existem aquelas que são mesmo antipáticas, ainda que necessárias (por exemplo, desapropriações em áreas de risco. Já fiz parte da comunicação de gestão que teve que tomar essa atitude. E claro que isso gera um desgaste político). 


No fundo, a comuncação política se assemelha, em alguns aspectos, à advocacia: não existe causa ganha! E, em algumas causas, devido às circunstâncias – o juiz, o material probatório –  o advogado de defesa terá muito mais dificuldade de obter êxito para o seu cliente. Gosto da analogia entre advogados e profissionais da comunicação; entre procuradorias e setores de comunicação de órgãos públicos, de partidos e de políticos: a mídia é um tipo de tribunal e tem seus modos de julgamento.   


Para Adnet, "Há uma classe política que, com a mudança da comunicação para a internet, não está investindo em ações políticas, mas está investindo em espetacularizações". Concordo. Como transpor certos ideários e suas plataformas políticas para a linguagem das novas mídias sociais é um desafio para políticos, partidos e instituições. E quanto mais complexas e contra-hegemônicas forem essas ideias políticas, maior o desafio. Na área da comunicação, isso é algo que guarda alguma semelhança com a divulgação científica: traduzir conhecimentos complexos de uma forma mais leve, fácil e cotidiana. As críticas à esquerda são pertinentes, mas elas devem vir acompanhadas do entendimento de que o desafio deste espectro político é maior do que o de seus adversários. 



Referências:

[1] "O discurso acadêmico da esquerda acaba afastando a população", comenta Marcelo Adnet: https://www.youtube.com/watch?v=AXUiH7ao6G4


[2] Olavo de Carvalho diz que não existem intelectuais da esquerda a seu nível: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/11/guru-de-bolsonaro-diz-que-nao-existem-intelectuais-da-esquerda-a-seu-nivel.shtml


[3] "Liberdades em disputa", texto de Luiz Felipe Miguel: https://grupo-demode.tumblr.com/post/148975395702/liberdades-em-disputa?fbclid=IwAR25F7UYhCtdsvZi-OpA4Fq94lJiIxeLkM3M18QIlORXL_5m8JuIO7t7VSk


 

sábado, 9 de maio de 2020

Trump, Bolsonaro e a pandemia: dados mostram a influência dos líderes e as consequências de suas ações


Nesta semana o Brasil ultrapassou 9 mil mortes causadas pelo novo coronavírus, tornando-se o oitavo país do mundo com maior número de casos da covid-19 e o sexto em número de óbitos. Os dados podem ser ainda mais graves se levarmos em conta o problema da subnotificação devido à falta de testagem. No momento, os três países com maior número de mortos – Estados Unidos, Reino Unido e Itália – possuem algo em comum: todos têm governos de direita que abraçaram o negacionismo científico, negando os impactos do coronavírus até que os números explodissem.

A postura dos líderes vem sendo importante na estratégia de prevenção. Enquanto alguns têm se destacado positivamente na prevenção à pandemia, caso da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e da chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, outros, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, vêm recebendo críticas constantes da imprensa mundial [1]. Não se trata apenas do modo como esses líderes têm gerido a crise, mas do quanto são capazes de influenciar negativamente as sociedades das quais estão à frente com suas declarações e atitudes. Juntamente com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Trump e Bolsonaro figuram entre os três líderes mundiais mais populares nas redes sociais, o que é um indicativo do quanto esses chefes de estado são formadores de opinião [2].

Trump e o desinfetante

Trump desdenhou inicialmente da covid-19, foi reticente quanto à necessidade do isolamento social e, com frequência, politiza a pandemia chamando o coronavírus de “vírus chinês” [3]. Na medida em que os casos explodiram, reviu sua posição e passou a defender o isolamento. Entretanto, sua postura tem sido de altos e baixos. Há duas semanas, o presidente americano fez uma declaração sugerindo que profissionais de saúde poderiam testar injetar algum material desinfetante no organismo dos pacientes. Afinal, já que o desinfetante mata o vírus em diversas superfícies externas, por que não mataria dentro do corpo de alguém?

Logo em seguida à declaração, a cidade de Nova Iorque registrou um aumento no número de casos de intoxicação por desinfetante, segundo informações da rede americana NBC. O centro de controle de envenenamento da cidade recebeu 30 chamadas relacionadas à ingestão do produto nas 18 horas seguintes à sugestão do presidente, mais que o dobro do mesmo período no ano anterior, quando apenas 13 casos foram registrados [4]. Após sua declaração, Trump defendeu-se dizendo que estava sendo sarcástico. 

Pode ser que o aumento do número de casos de intoxicação seja apenas coincidência ou oscilação normal? Sim. Pode ser que Trump estivesse, de fato, sendo irônico ou sarcástico? Talvez. Mas o fato é que o uso de ironias e sarcasmos não costuma ser apropriado para líderes políticos, já que esse tipo de linguagem frequentemente gera dúbias interpretações e maior dificuldade de compreensão, confundindo a opinião pública. Entretanto, alguns especialistas em política e em linguística destacam que líderes como Trump se valem propositalmente desse tipo de linguagem imprecisa, uma vez que a ironia não se compromete com a verdade.  Sendo assim, essa linguagem escorregadia dá margem para que seu emissor deslize de um lado para o outro na medida em que é confrontado ou desmentido.

Quem explica esse tipo de uso da linguagem na política pela direita americana é a jornalista Michiko Kakutani, autora do livro A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump. Ela explica que o presidente americano levou a linguagem e o modus operandi das redes sociais para os pronunciamentos oficiais institucionais, mais especificamente os da Casa Branca. Trump, conforme diz Kakutani, age como um troll, usa a ironia e os memes como arma. 

Os comentários mais chocantes de cunho racista, sexista e perversamente cruéis vêm das redes socias (muitas vezes acompanhados de uma piscadela ou de um sorriso de sarcasmo). Quando repreendidos, os autores frequentemente respondem que estavam apenas brincando – do mesmo jeito que os assessores da Casa Branca dizem que Trump estava apenas brincando ou que foi mal interpretado quando faz comentários ofensivos.” [5]   

Bolsonaro influencia redução do isolamento, diz estudo 

No Brasil, a influência de Bolsonaro tem sido sentida de forma ainda mais dramática. Diferentemente de Trump, Bolsonaro tem se mantido firme contra o isolamento social e, mesmo depois da explosão de casos confirmados e de óbitos, o presidente brasileiro foi incapaz de rever sua posição. Inicialmente, chegou a chamar a covid-19 de “Gripezinha” e “resfriadinho”, acusando a imprensa de fazer “histeria”. Bolsonaro adotou uma narrativa segundo a qual existe um conflito entre a saúde e a economia, de modo que fazer isolamento social – a melhor medida segundo cientistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS) – seria prejudicial para a economia do país, destruindo empresas, gerando perda de empregos e provocando mais danos do que a pandemia em si.

Desde a chegada do vírus ao Brasil, Bolsonaro tem comprado uma briga com governadores e prefeitos brasileiros, que em grande parte optaram pelos estudos técnicos que apontam para a necessidade do isolamento social e da quarentena, ou mesmo do lockdown, em casos mais graves. O presidente frequentemente é visto em aglomerações, cumprimentando pessoas, contrariando as orientações de prevenção. Nesta semana, ele juntou um grupo de empresários e andou pelo Planalto até o STF para advogar em defesa da abertura do comércio e da retomada das atividades econômicas, mesmo com a explosão de casos confirmados e mortes. Em suma, diariamente Bolsonaro age como garoto-propaganda contra o isolamento.

Uma pesquisa publicada na última semana mostra que o desrespeito ao isolamento social foi maior em áreas onde Jair Bolsonaro tem mais eleitores [6]. A análise foi feita por meio de cruzamento de dados de localização geográfica de 60 milhões de aparelhos celulares e de informações eleitorais dos votos que o presidente recebeu na eleição presidencial em 2018. A pesquisa é um forte indicativo de que o trabalho de Bolsonaro contra as medidas protetivas, ou melhor, seu desserviço contra o isolamento, lamentavelmente teve algum efeito.

O artigo, assinado por dois pesquisadores brasileiros e um argentino, está disponível na internet, em inglês, com o título "More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior During a Pandemic" (Mais do que palavras: discurso dos líderes e comportamento arriscado durante a pandemia, em tradução livre).

Os pesquisadores separaram as regiões onde Bolsonaro é popular e impopular de acordo com a votação de 2018. Locais em que o presidente teve mais de 50% dos votos, a exemplo de cidades do Sul e Centro-Oeste, Sudeste e Norte, foram definidos como de apoiadores. Já as regiões onde Bolsonaro foi menos votado, como o nordeste, foram consideradas de não apoiadores. O resultado obtido mostra que após Bolsonaro pronunciar-se publicamente, de forma enfática, minimizando os riscos do coronavirus e desaconselhando o isolamento, as medidas de distanciamento social dos cidadãos em localidades pró-governo diminuíram em relação aos lugares em que o apoio ao presidente é mais fraco. Quem assina o trabalho são os pesquisadores Daniel da Mata, Ph.D em economia pela Universidade de Cambridge, Nicolás Ajzenman, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Cargas (FGV) e mestre em administração pública em Harvard, e Tiago Cavalcanti, professor da Universidade de Cambridge. Os autores pretendem concluir o levantamento e publicar o material até o final do ano.

Por conta dessa postura presidencial e do frequente embate e desencontro entre, de um lado, Bolsonaro, e, de outro, governadores e prefeitos, o isolamento social no Brasil até o momento não foi feito com a intensidade e seriedade que deveria ter. Frequentemente houve dias em que ele não chegou a 50%, mesmo em cidades com altas taxas de infectados e mortos pelo coronavírus, como São Paulo. O ideal, segundo especialistas, é um índice acima dos 70%. 

Saúde ou economia? Uma lembrança da Segunda Guerra Mundial

O conflito entre saúde e economia, tônica da narrativa de Bolsonaro, entretanto, não colou com a maioria da população e nem com especialistas, tanto das áreas biomédicas quanto da economia. De modo geral, o entendimento é de que não há como dissociar uma coisa da outra e, caso seja preciso priorizar alguma delas, a prioridade será sempre a saúde, ou melhor, a vida [9].    

O fato é que invariavelmente a economia será afetada por uma pandemia desta proporção, o que já está ocorrendo. Sendo assim, o jeito é preservar vidas, para que o estrago não seja ainda maior. Além disso, como disse em entrevista o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, “a economia a gente recupera; as vidas, não”. Witzel contraiu coronavírus e foi um dos governadores que lideraram o embate contra o governo Bolsonaro, juntamente com João Dória (SP) e Ronaldo Caiado (GO).

O jornalista e analista econômico Carlos Alberto Sardenberg, durante uma de suas lives na Globo News, ilustrou muito bem o problema ao lembrar um fato histórico: o Acordo de Munique, uma fracassada tentativa de paz pouco antes de se iniciar a Segunda Guerra Mundial. Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, como parte de sua política de apaziguamento, assina em Munique um pacto com Hitler e Mussolini. O documento entregava os Sudetos da República Checa desde que esta fosse a última reivindicação dos nazistas, o que selaria a paz. Chamberlain volta exitoso para a Inglaterra, balançando o documento em suas mãos para o público. 

Winston Churchill, sabedor de que aquilo não seria suficiente para satisfazer a sede de poder de Hitler e bastante crítico da política de apaziguamento que dominava o Reino Unido, diz sobre Chamberlain, como nos lembrou em sua live o jornalista Sardenberg: “Entre a vergonha e a guerra, escolheu a vergonha. E vai colher a vergonha e a guerra!”. Dito e feito. A guerra foi inevitável. Quem quiser saber mais sobre esse episódio histórico pode assistir ao ótimo filme O destino de uma nação (2017), com Gary Oldman no papel de Churchill [10].

A analogia da história resgatada por Sardenberg com o momento de pandemia em que vivemos é clara e precisa: não adianta criar um conflito entre a saúde e a economia para optar pela segunda, pois, por esse caminho, perderemos ambas.      

O que houve com o slogan “mais Brasil, menos Brasília”?

No mês passado, a briga entre Bolsonaro e governadores e prefeitos foi parar no STF. A Suprema Corte decidiu contra o presidente, determinando que os gestores estaduais e municipais têm autonomia para decretar medidas restritivas contra o coronavírus, mesmo que o governo federal adote providências em sentido contrário. Entre os poderes atribuídos aos gestores locais estão a decretação de isolamento social, quarentena, suspensão de atividades escolares e restrições ao funcionamento do comércio. 

A briga jurídica não condiz com a promessa de Bolsonaro no plano político durante a eleição e nos lembra o quanto os slogans de campanha, que deveriam simbolizar e condensar em poucas palavras diretrizes políticas, muitas vezes são esvaziados de sentido tornando-se apenas frases de efeito (sem efeito algum). Dentre as várias e questionáveis frases da campanha bolsonarista à presidência em 2018, tínhamos “Meu partido é o Brasil”, frase que de certo modo nega o caráter conflitivo da política, que é a disputa pela pólis [7], confundindo partido político com a própria pólis: dizer que seu partido é o seu país como um todo, na prática, não quer dizer muita coisa, ainda mais em um país tão grande, tão diverso e com tantos interesses conflitantes como o Brasil. 

Mas no que se refere ao conflito entre o governo federal e os estados, é irônico lembrar um outro slogan: “Mais Brasil, menos Brasília”, que trazia uma promessa de descentralização do poder e melhor redistribuição de recursos entre os entes federativos [8]. Teoricamente, poderia ser algo positivo para muitas regiões. Na prática, vemos o oposto: o caráter centralizador do governo federal ficou evidente nesta que é a maior crise política, econômica e sanitária enfrentada por Bolsonaro desde que chegou ao Planalto, inconformado com a prerrogativa dos gestores regionais de poderem tomar medidas que atendam às situações específicas de suas localidades. 

Referências:

1- Revista Lancet aponta Bolsonaro como o maior risco da pandemia no Brasil: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/07/the-lancet-aponta-bolsonaro-como-maior-ameaca-ao-combate-a-covid-19-no-pais.htm

 

2- Os líderes mais populares do mundo nas redes sociais: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-e-o-terceiro-chefe-de-governo-mais-popular-do-mundo-nas-redes-sociais,70003192720?fbclid=IwAR1HM3gBK71ZXtCrBWH3x72EKfho98xAs5lFbkdgoWDWN3lqU7WVFIDDaJM

 

3- O populismo de Trump e Bolsonaro diante da pandemia: http://www.diretodaciencia.com/2020/03/21/entre-os-fatos-e-a-mentira-o-populismo/?fbclid=IwAR3xTQaZCjwMwvexZh_EQ_STHTcbzkw-rtRj10pSb8PHqMQG7RlZ-Jz9NXQ

 

4- Aumento de casos de intoxicação em Nova Iorque: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/ny-registra-intoxicacoes-por-desinfetante-apos-fala-de-trump,a0ea97943e95442d7771c2f537462df4tqx8eyvc.html

 

5-KAKUTANI, Michiko. A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

 

6 – Desrespeito ao isolamento social é maior em áreas onde Bolsonaro tem mais apoio: https://epoca.globo.com/sociedade/desrespeito-ao-isolamento-social-maior-em-areas-onde-bolsonaro-tem-mais-apoio-diz-estudo-24391966?%3Futm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post&fbclid=IwAR3lj53z4qZpRmfNbckE_DSRE85E56U-fu2TxzZLRg4RleIHznMSNmze2gA

 

7- O que vem a ser pólis: https://www.youtube.com/watch?v=X4nNG7FbglY

 

8- Mais Brasil, menos Brasília. Ou o contrário?: 

https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/O-governo-Bolsonaro-na-pr%C3%A1tica-mais-Bras%C3%ADlia-menos-Brasil

 

9 – Brasileiros priorizam a saúde:

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/08/interna_politica,1136759/brasileiros-priorizam-saude-do-que-economia-diferente-de-bolsonaro.shtml

 

10- O destino de uma nação: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-246284/

 


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Feliz Dia do Trabalhador: três filmes para pensar a tecnologia e a uberização do trabalho


Chegamos ao Dia do Trabalhador com pouco a se comemorar. Os impactos econômicos por conta do isolamento social imposto pela pandemia de coronavírus são inevitáveis e se somam a um cenário que já era desanimador. Em 2019, o PIB brasileiro cresceu apenas 1,1%, menos da metade da expectativa que os analistas econômicos haviam projetado no início daquele ano, que era de 2,53% [1]. O mercado de trabalho vem passando por um processo de precarização, que, em linhas gerais, significa uma desvalorização da força de trabalho. Embora nos últimos anos tenha havido aumento do número de contratações com remuneração de até dois salários mínimos, há 14 anos seguidos (desde 2006) o Brasil teve redução dos postos de trabalho com valores acima de dois salários mínimos [2]. Em linhas gerais, isso significa dizer que o mercado de trabalho está pagando menos, que tem ocorrido um achatamento salarial em massa há mais de uma década e que isso vem cada vez mais afetando a classe média, que é justamente o estrato social que disputa os postos de emprego acima dessa faixa salarial. E claro que o governo (todos eles), na hora de alardear a criação de postos de trabalho, fala sobre o aumento de empregos de até dois salários, mas omite a redução dos empregos com remuneração acima desse valor.     

A precarização já seria um problema grave por afetar trabalhadores das classes baixas, mas, como dissemos, tem avançado nas classes mais elevadas. Algumas políticas públicas voltadas para o trabalho e emprego contribuem para esse avanço. A terceirização das atividades-fim é um exemplo: uma coisa é uma empresa terceirizar seus funcionários de limpeza, zeladoria e segurança; outra é fazer o mesmo com engenheiros (se for uma empresa de engenharia) ou nutricionistas (uma empresa da área de saúde), ou seja, profissionais com nível superior (o que, no Brasil, está normalmente relacionado a pessoas até então com maior poder aquisitivo). 

Outras iniciativas se somam na construção de um cenário desolador para a força de trabalho, como a reforma da previdência, que reduziu as expectativas de futuro e de uma aposentadoria digna, e a reforma trabalhista, que, passados dois anos, não cumpriu a promessa de gerar mais vagas de emprego feita por seus defensores na tentativa de convencer a opinião pública e a classe trabalhadora [3]. Tudo isso serve para contextualizar a realidade brasileira, mas o fato é que o trabalho vem passando por transformações muito rápidas no mundo todo, nem sempre traduzidas em vantagens para seu sujeito principal, o protagonista dessa história: o trabalhador.

A tecnologia tem papel primordial nas mudanças. Hoje não há quem não conheça alguém que faz um “bico” como motorista de aplicativo ou mesmo tem nessa atividade sua principal fonte de renda. Aplicativos como a Uber, por exemplo, fazem parte do que vem sendo chamado de “economia de compartilhamento”. Em linhas gerais, um termo que abrange mudanças nas formas de trabalho que incluem o consumo colaborativo e atividades de compartilhamento de bens e serviços mediadas pelas tecnologias. Tudo ainda é muito novo. Embora alguns especialistas apontem que a organização do trabalho tende a se tornar mais flexível e horizontalizada (ou seja, sem rigidez hierárquica, como na imagem clássica do chefe mal-humorado batendo na mesa e distribuindo ordens), muitos cientistas sociais apontam que todo esse ideário da economia compartilhada só esconde uma relação cada vez mais exploratória entre os executivos responsáveis pelas plataformas tecnológicas, de um lado, e os vendedores da força de trabalho, ou seja, os trabalhadores, de outro.

Bertrand Russell, Stephen Hawking e Charles Chaplin: tecnologia e trabalho

Em sua obra, o filósofo britânico Bertrand Russell já nos lembrava na primeira metade do século 20, muito antes da Uber aparecer, que, apesar dos avanços tecnológicos, continuávamos a trabalhar bastante, até exaustivamente. Ele estava se referindo às máquinas industriais, não a aplicativos, mas desde aquela época já havia certa decepção com o fato de que a tecnologia não atendia a expectativa de atenuar, de modo geral, a carga de trabalho para o ser humano. Como dizia Russell, “até agora continuamos a ser tão enérgicos quanto éramos antes que existissem as máquinas. Em relação a isso, temos sido tolos, mas não há razão para que essa tolice continue sempre” [4].

Pois chegamos ao século 21 e o problema persiste. O físico Stephen Hawking teve um trabalho de pesquisa amplamente dedicado à astrofísica, mas deixou algumas considerações sobre a tecnologia e a inteligência artificial. Ele tinha uma grande preocupação com os riscos que máquinas e robôs trazem ao ser humano. Hawking não se referia “apenas” a algum tipo de rebelião ao estilo Matrix ou Blade Runner, mas a questões aparentemente mais triviais, como o risco de desemprego e até de concentração de riquezas. Para ele:

 “Se as máquinas produzirem tudo de que precisamos, o resultado dependerá de como as coisas são distribuídas. Todo mundo poderá aproveitar uma vida de lazer luxuoso se a riqueza produzida pela máquina for compartilhada, ou a maior parte das pessoas pode se tornar miserável se os donos das máquinas conseguirem se posicionar contra a redistribuição da riqueza. Até agora, a tendência tem sido para a segunda opção, com a tecnologia aumentando a desigualdade” [5]. 

No ano passado, o co-fundador da Uber, Garret Camp, arrematou uma mansão em Beverly Hills no valor de U$$ 72 milhões (isso mesmo: setenta e dois milhões de DÓLARES), um montante bem mais alto do que a esmagadora maioria dos trabalhadores do mundo terá trabalhando por toda a vida [6]. A grande aquisição aconteceu em um momento em que muitos trabalhadores da Uber, no Brasil, Reino Unido, EUA e diversos outros países reivindicam melhores condições de trabalho e maiores ganhos. Stephen Hawking tinha razão em se preocupar. Russell também tinha razão em chamar a atenção para o fato de que, ao longo da história, os avanços tecnológicos estão sendo desvirtuados da função que poderiam ter de atenuar o trabalho humano e coletivizar o bem-estar e a prosperidade: apesar dos inúmeros avanços tecnológicos, a sociedade atual trabalha mais do que camponeses medievais, com tempo bem menor de descanso e férias [7]. Por que isso? Porque, como dissemos, Hawking estava certo: não é a tecnologia em si que faz a diferença, mas a forma como ela é apropriada e distribuída. 

 A economia do compartilhamento é a cara do trabalho no século 21. Se Charles Chaplin estivesse vivo e fizesse uma releitura de seu clássico Tempos Modernos, as filmagens provavelmente não seriam em uma fábrica, mas com profissionais sobrecarregados dominados por seus aparelhos celulares. O gênio responsável por Carlitos não está mais entre nós, mas o cinema, seja o de ficção quanto o documental, segue atento às transformações na sociedade, incluindo aquelas relacionadas ao mundo do trabalho. Aqui selecionamos três filmes que mostram a cara do trabalho no século atual. São dois longas-metragens (um documentário e outro de ficção) e um curta, que mostram a realidade da uberização no Brasil e exterior. O processo, apesar de ter sido apelidado de “uberização”, não diz respeito somente à Uber. A empresa de caronas compartilhadas apenas “emprestou” seu nome por ser uma das mais conhecidas do público e dos pesquisadores sobre relações de trabalho. Especialistas e trabalhadores têm apontado alguns caminhos para melhor regulamentação do trabalho no setor. Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de buscar alternativas e políticas públicas de valorização da força de trabalho [9].  

GIG- A uberização do trabalho [10]

Dirigido por Cauê Angeli e produzido pela ONG Repórter Brasil, o filme traz uma grande diversidade de trabalhadores de aplicativos, desde motoristas da Uber até motociclistas, empregadas domésticas e professores. Sim, o processo de uberização chegou à área de educação e um professor de geografia que dá aulas particulares por meio de uma plataforma fala de sua experiência. O filme se propõe a fazer uma abordagem teórica bem contextualizada da economia de compartilhamento e seus impactos nas relações de trabalho, por isso a fala de cientistas sociais brasileiros e estrangeiros divide espaço com a dos trabalhadores. Um desses especialistas é o geógrafo David Harvey, que associa a desregulamentação trabalhista atual, incorporada e fomentada pela economia de compartilhamento, ao avanço do neoliberalismo. Em uma perspectiva histórica, ele diz que o neoliberalismo foi uma resposta à Primavera de 1968, em que estudantes pediram liberdades individuais e justiça social, mas a elite empresarial descartou a justiça social, focando apenas na primeira parte das reivindicações. 

Os especialistas destacam que, apesar de um aparente barateamento dos serviços oferecidos pela uberização, tudo isso tem um custo social, que inclui a redução de renda de um número cada vez maior de trabalhadores, e perguntam qual o risco que as classes média e alta querem assumir para que algumas de suas necessidades sejam atingidas de uma forma mais barata. Afinal, tudo tem seu preço. Os pesquisadores chamam a atenção também para o que nomearam de “gamificação do trabalho”, uma influência do vídeo game nas rotinas e procedimentos de trabalho de motoristas e entregadores. Por meio dos aplicativos, esses trabalhadores passam a se ver como personagens em uma espécie de jogo, em que algumas de suas ações geram bônus, estimulando-os a trabalhar sempre mais e mais e incentivando a competitividade entre os colegas. Tudo isso bem arquitetado por psicólogos ligados às plataformas e intermediado pelas telas de celulares. Do ponto de vista técnico, com a uberização nunca foi tão fácil regular o trabalho: é como se cada trabalhador tivesse milhares de gerentes, já que os clientes dão as notas, nem sempre de forma muito justa. Uma doméstica que faz diária por um app diz que se vê obrigada a limpar até coisas que, teoricamente, não deveria limpar, pois, caso não o faça, sua nota cai. A “profecia” de George Orwell recai sobre as relações de trabalho [8], como bem lembra uma das pesquisadoras ouvidas.

Vidas entregues [11]

Este curta-metragem, dirigido por Renato Prata Biar, tem o Rio de Janeiro como cenário e sons bem conhecidos pelos cariocas, como o sino do VLT, fazendo a ambientação sonora. O veículo sobre trilhos divide o espaço urbano com os ciclistas de aplicativos como Rappi, Ifood e Uber Eats. Sem falas de especialistas, o protagonismo é total para os entregadores de comida, que, aparentemente, são os mais precarizados dentre todos os profissionais que atuam na economia de compartilhamento. Eles falam sobre seus dramas e preocupações, incluindo a falta de perspectiva de futuro. “A mãe do meu filho sempre me cobra: até quando você vai trabalhar com aplicativo?”, diz o entregador Vitor Pinheiro dos Santos. Em falas como essa, vê-se a deterioração do conceito de carreira e de trajetória de vida, algo discutido também em GIG- A uberização do trabalho. Os três principais personagens do filme são negros, o que mostra que o segmento tem um recorte étnico muito perceptível. Mas a personagem que mais se destaca é Bianca Souza dos Santos. Mulher e negra, ela dá ainda um recorte de gênero ao curta. Bianca trabalha com o marido, que também é profissional de aplicativos, fala do cansaço com a rotina de entregas e do quanto a ideia do empreendedorismo pode ser ilusória: “microempreendedora eu não sou, não. Sou uma pessoa desesperada. Não tem emprego, fazer o que?” Todos os personagens preferiam estar trabalhando de carteira assinada.

Você não estava aqui [12]

Por fim, esse filmaço de Ken Loach (mesmo diretor do aclamado Eu, Daniel Blake, que também fala sobre trabalho, com foco no esfacelamento do chamado “estado de bem-estar social”) é de um realismo quase documental. Você não estava aqui (Sorry, we missed you) tem o mérito de ir além do cotidiano de trabalho tão bem retratado nos documentários aqui apresentados para mostrar os impactos desse tipo de atividade na vida privada e familiar. É como se Loach cruzasse uma linha que os documentários não cruzaram para nos trazer uma realidade mais intimista. Você não estava aqui mostra que o maior inimigo da família é o mercado de trabalho predatório. É ele quem atrapalha as pessoas de se casarem. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de ter filhos. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de criá-los. E quando, na medida do possível, elas criam seus filhos, ele atrapalha que esses filhos lhes retribuam a criação com um amparo na velhice. Aliás, essa falta de amparo à terceira idade é trabalhada não por meio de Ricky Turner, o protagonista motorista de um aplicativo de entregas, mas de sua mulher, cuidadora de idosos. Ao falar sobre a rotina extenuante de seu marido para uma de suas clientes/pacientes (uma ex-sindicalista aposentada), é indagada: “mas o que houve com a jornada de trabalho de oito horas?”. Pois é, a desregulamentação atropelou!

Logo de cara, Loach mostra a que veio. No início do filme, durante uma entrevista a qual Turner é submetido, o recrutador diz: “Você não trabalha para nós, você trabalha conosco”. A afirmação dá uma falsa sensação de liberdade (a ideia do “microempreendedor de si mesmo”), que é desconstruída sequencia após sequencia. A escravidão moderna fica cada vez mais clara na medida em que Turner não tem tempo nem de ir ao banheiro, tampouco autonomia para levar a sua filha ao trabalho, mesmo trabalhando com seu próprio veículo. Aos poucos, vê-se que a relação trabalhista não se trata de uma parceria, mas de uma clara subordinação. O desfecho do filme, um final bastante inconclusivo, deixa no espectador o sentimento do quanto é difícil lidar com o problema atual da desregulamentação exploratória do trabalho. Entretanto, em muitos países os trabalhadores já se organizam para reivindicar soluções. Mas é importante lembrar que a história do trabalho mostra que as melhorias e direitos obtidos não caem do céu. Eles são frutos da capacidade de organização e luta da classe trabalhadora.   


Referências

 

4- RUSSEL, Bertrand. O Elogio ao ócio. Disponível em: http://tele.sj.ifsc.edu.br/~msobral/pji/ElogioOcio.pdf  Acesso em 23 abr 2020.





9- Mesa-redonda com o director do filme GIG-A uberização do trabalho: https://www.youtube.com/watch?v=eZfdM16ORY0

10- GIG – A uberização do trabalho: https://reporterbrasil.org.br/gig/

11- Link para o curta Vidas entregues (na íntegra): https://www.youtube.com/watch?v=cT5iAJZ853c


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