quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Freixo no Flow: uma falácia armamentista analisada a partir do conceito de tecnologia

Na semana passada o deputado Marcelo Freixo esteve no Flow Podcast, apresentado por Monark e Igor. Em certo ponto da entrevista, o assunto foi a flexibilização das armas de fogo [1]. O deputado é conhecdo, dentre outras razões, por ter um posicionamento contrário à flexibilização. Monark o questionou dizendo que o problema não são as armas em si, mas as intenções das pessoas. Na visão do apresentador, quem quer matar outra pessoa mata até com um automóvel.

Monark: - Por que você confia que eu tenha um carro e não confia que eu tenha uma arma?

Freixo: - Por que o carro foi feito para dirigir.

Monark: - Mas serve para matar.

Freixo: - Você sai com o carro procurando alguém para atropelar?

Monark: - Você sai com a arma procurando alguém para matar?

Freixo: - Sai com a arma para que? Para dirigir?

Não é a primeira vez que comparações desse tipo são usadas nesse contexto. Frequentemente aqueles que pedem maior flexibilização do uso de armas de fogo as comparam com outros utensílios para defender essa posição. Aqui pretendo mostrar de que modo armamentistas lançam mão de uma falácia lógica conhecida como “falsa equivalência” [2]. Chamo de “armamentistas” aqueles que defendem, de modo geral, maior facilidade na compra, venda e aquisição das armas de fogo.

Em janeiro de 2019, tivemos um outro exemplo da falsa equivalência: o ministro da Casa Civil Onix Lorenzoni comparou armas de fogo a liquidificadores. Na perspectiva dele, o risco para uma criança de alguém manter uma arma de fogo em casa equivaleria ao risco de a mesma criança se acidentar com um liquidificador. Segundo o ministro, evitar acidentes é uma questão de “educação” e “orientação”.

“A gente vê criança pequena botar o dedo dentro do liquidificador e ligar o liquidificador e perder o dedinho. Então, nós vamos proibir os liquidificadores? Não.”, disse Lorenzoni [3]

Assim como Monark, o ministro comparou a arma de fogo a um outro utensílio, neste caso, a um eletrodoméstico. Além de falaciosa, a comparação desconsidera alguns dados, como o número de acidentes e de mortes envolvendo armas de fogo e liquidificadores nos Estados Unidos entre 2011 e 2014 [4]. No período, o número anual de mortes somente de crianças por armas de fogo foi de 1.290, enquanto que por conta de acidentes domésticos envolvendo liquidificadores foi de zero!

Monark, Lorenzoni e tantos outros que pedem mais facilidade na circulação de armas ignoram também a posição da maioria dos especialistas em segurança pública no Brasil e a grande maioria dos estudos mundiais que – para usar uma palavra pertinente ao tema – “municiam” com os melhores embasamentos Freixo e os demais que pedem restrições às armas. Esses estudos apontam correlação entre mais armas e mais crimes e mortes [5]

Poderia não ser um carro ou um liquidificador, mas qualquer outra coisa, como um ferro de passar roupa ou cacos de vidro. Essa estratégia retórica pode ser resumida nas seguintes frases: “Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas”. Frequentemente essas frases são repetidas pelos defensores das armas para ressaltar que quem quer matar vai matar de qualquer jeito, utilizando qualquer coisa. De fato, é possivel matar com um ferro de passar ou um caco de vidro (com liquidificador, creio ser bem mais complicado). Os inúmeros casos de atropelamentos que resultaram em mortes mostram que o carro também pode ser uma arma letal. Sendo assim, essas comparações portanto são pertinentes, fazem sentido, certo?


O conceito de tecnologia

Errado! Primeiro, porque as comparações desconsideram o próprio conceito de tecnologia, que é um produto da ciência e da engenharia que envolve um conjunto de instrumentos, métodos e técnicas que visam a resolução de problemas. Uma aplicação prática do conhecimento científico, nas mais variadas áreas do saber, para resolver coisas específicas .

Como explica o sociólogo Alan Mocellin, a tecnologia envolve um conjunto de práticas visando a execução de um determinado fim. “A tecnologia tem como seu horizonte totalizante o discurso científico, sendo derivação prática desse discurso” (2015, p. 83). Ou seja, ela é a face prática da ciência, quando você pega um conjunto de saberes e aplica para criar coisas ou procedimentos que possibilitem a resolução de algo concreto.

A palavra tecnologia vem do grego "tekhne", que significa "técnica, arte, ofício", juntamente com o sufixo "logia", que significa "estudo" [6]. Quando pensamos em tecnologia, costumamos imaginar coisas “modernosas”, como satélites e computadores, mas as tecnologias são desenvolvidas pelos homens desde tempos primórdios. As tecnologias primitivas ou clássicas, por exemplo, envolvem a descoberta do fogo, a invenção da roda, a escrita, dentre outras.

Nessa perspectiva, dentro do conceito e da filosofia da tecnologia, podemos concluir que a melhor maneira de executar uma tarefa costuma ser, via de regra, usando os objetos projetados especificamente para a tal tarefa. Por exemplo, você pode cortar um queijo com uma faca de pão? Claro que sim. Mas um cortador de queijo corta as fatias com mais precisão e praticidade, porque foi projetado exatamente para isso. Da mesma forma, você até pode beber água em um prato, mas no copo fica muito melhor e mais fácil. O prato serve melhor para coisas sólidas, não líquidas. E você sabe bem disso.

Parece óbvio, correto? Mas quando armamentistas usam da falsa equivalência para comparar armas de fogo a qualquer outra coisa que lhes venha à cabeça, parecem ignorar esse conceito básico. Mas apenas parecem. Eles não ignoram de fato. A falácia da falsa equivalência é apenas (como toda falácia) uma estratégia retórica usada para ludibriar os interlocutores (aquelas pessoas para quem eles falam). E aí vem o nosso segundo ponto: se os defensores das armas realmente acreditassem nas comparações que fazem, não precisariam defender a flexibilização das armas, bastariam usar um ferro de passar, cacos de vidro ou um carro.

Mas eles continuam a defender a flexibilização das armas de fogo, mesmo tendo acesso a coisas e objetos, segundo eles, também letais. Continuam justamente porque sabem que as armas têm vantagem competitiva na finalidade para a qual foram projetadas (alvejar e até matar) quando comparadas a outros artefatos. Só que é justamente essa vantagem competitiva que leva à necessidade de maior regulamentação das armas em relação a tantas outras coisas que você pode comprar com facilidade por ai. O grau de letalidade da arma é o que justifica sua maior regulamentação.

O próprio Monark da exemplo dessa estratégia retórica enganadora e do quanto ele próprio no fundo não acredita nela. Ele diz que quer adquirir uma arma e argumenta que é para a própria proteção. Logo em seguida, compara armas de fogo e automóveis para se contrapor às restrições. Ora, se ele já tem um carro, então não precisa de uma arma. Se não tem, pode comprar um. Como poderia comprar qualquer outra coisa. Não precisaria defender a flexibilização de armas. E assunto encerrado!

Mas isso se ele realmente acreditasse na comparação que faz. Armamentistas não acreditam, de fato, nas comparações absurdas que fazem. Como dissemos, é pura estratégia retórica.


A tecnologia em 2001- Uma odisseia no espaço

Conforme dito, a tecnologia acompanha o homem há muitos anos, e o filme 2001- Uma odisseia no espaço (1968), do diretor Stanley Kubrick, traz boas reflexões sobre o assunto. Esse clássico do cinema nos faz pensar sobre os seus usos desde os primórdios hominídeos até as naves espaciais desenvolvidas por nós, Homo sapiens. Em uma sequência maravilhosa [7] (que provavelmente mesmo aqueles que nunca assistiram ao filme conhecem), vemos um macaco segurando um grande osso. Ele para, pensa, olha para o osso, olha para o chão, bate o osso no chão, bate com o osso em outros pedaços de ossos que estavam espalhados pelo chão e que se quebram com a pancada. O macaco parece ter uma espécie de revelação!

Extasiado, o animal estava naquele momento descobrindo que aquele pedaço grande de osso que em sua mão poderia ser usado para quebrar coisas e também como arma, para ferir e abater outros animais. Era o início do uso da tecnologia, um passo a mais no estágio evolutivo da espécie da qual mais tarde decorreriam os humanos. Vemos na cena o macaco pensando, usando o seu saber – ainda que um saber limtado – testando o osso como ferramenta. Cada pequena pancada era um teste. A verificação por meio de testes seriam uma forma rudmentar de fazer ciência, para finalmente chegar ao domínio de uma nova tecnologia.

E essa nova tecnologia viria a ser usada em maior escala na cena seguinte. Em um conflito entre dois grupos de macacos, aquele cujos membros estavam com ossos nas mãos usando-os como armas levou a melhor.Eles bateram em seus adversários e dominaram o território. A sequência termina com um dos vencedores jogando o osso/arma para o alto, que praticamente se transforma em uma nave espacial. Talvez a elipse mais famosa da história do cinema, simbolizando todo o desenvolvimento tecnológico dos primórdios até o que havia de mais moderno naquela década. A história da humanidade em dois planos.

Da pré-história para os tempos atuais, as diversas tecnologias foram se desenvolvendo, inclusive na área bélica, com armas cada vez mais modernas. Na Idade Média, por exemplo, usava-se arco e flechas, bestas, espadas e catapultas. As pessoas já matavam umas as outras antes das armas de fogo e do desenvolvimento da pólvora, mas elas sempre preferiram aquilo que a tecnologia oferecia de melhor para esta finalidade em suas épocas. Isso é óbvio e faz sentido. O que não faz sentido são as comparações esdrúxulas feitas pelos armamentistas atuais. Sendo assim, o óbvio precisa ser dito, e este texto se presta ao óbvio. As falácias confundem o debate público, e a combinação de falácia lógica e políticas públicas é um perigo!

Nossos precursores Homo habilis receberam esse nome por desenvolverem habilidades no uso e fabrico de utensílios para fins específicos, como a caça e o combate. Tiveram o domínio e o entendimento da tecnologia. Estamos em 2021 e alguns Homo sapiens, quando fazem comparações entre armas e carros, parecem desconsiderar aquilo que os Homo habilis já sabiam há cerca de 1 milhão de anos. Involuímos?


Referências:

MOCELLIM, Alan. Comunicação e Reencantamento: retórica ou possibilidade?. Esferas, v. 6, p. 79-87, 2015


[1] Cortes do Flow – Debate sobre a diferença entre posse e porte de armas:

https://www.youtube.com/watch?v=DqyvScF9hK0


[2] Falsa equivalência:

http://gestaouniversitaria.com.br/artigos/falsa-equivalencia


[3] Arma em casa é risco para criança tanto quanto liquidificador, compara Onyx https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/15/arma-em-casa-e-risco-para-crianca-tanto-quanto-liquidificador-compara-onyx.ghtml


[4] Comparações de acidentes e mortes por armas de fogo e com liquidificadores:

https://www.consumerreports.org/cro/news/2013/02/blender-injuries-stir-up-more-visits-to-the-emergency-room/index.htm?fbclid=IwAR06j2XaIVxO22f6lPWAqRm_g-0JMeOtWulCbNS3_kOLQpYZqVhYn4deEYE


https://edition.cnn.com/2017/06/19/health/child-gun-violence-study/index.html


[5] Armas, crime, morte: o peso da evidência:

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2019/01/18/armas-crime-morte-o-peso-da-evidencia


[6] Significado de tecnologia

https://www.significados.com.br/tecnologia-2/


[7] O pensamento e a descoberta da ferramenta "2001: Uma Odisseia no Espaço":

https://www.youtube.com/watch?v=9etefsYMm5o



terça-feira, 3 de agosto de 2021

O sudestino do Porta dos Fundos e a invenção do Nordeste

 

Há cerca de duas semanas o grupo humorístico Porta dos Fundos lançou um vídeo chamado “Sudestino”, satirizando as generalizações e estereótipos por meio dos quais as pessoas do Nordeste são vistas e retratadas, principalmente pelo povo do Sul e Sudeste. A sacada da esquete foi justamente fazer uma inversão: um paulistano recém-chegado em Recife é recebido por dois moradores locais, que logo começam a usar e abusar de generalizações, como se mineiro, carioca, paulista e até paranaenses e gaúchos fossem tudo a mesma coisa.

A graça está justamente na inversão. Os moradores do Sul e Sudeste são os que sofrem estereótipos na esquete, o que faz com que estes, por poucos momentos, se coloquem e se sintam no lugar das pessoas que vivem nos estados nordestinos. Temos aqui um exemplo de carnavalização bakhtiniana, no sentido de uma quebra da ordem social com inversão de papéis, criando uma realidade paralela humorística e paródica [1]. Obviamente, o vídeo faz rir e também traz certa reflexão e crítica social, assim como tantos exemplos que as produções humorísticas nos oferecem. 

O roteirista do vídeo, o potiguar Edu Araújo, explica que a ideia da esquete foi inspirada no sentimento que ele próprio carrega: "Quando entrei no Porta, a Márcia Zanelatto, que era chefe da sala de roteiro, me disse: onde te dói? Acesse sua dor. O humor vem disso. A gente pega um pouco da raiva que sente do mundo e joga nele. Ele é uma crônica. A esquete nasceu justamente desse incômodo com a naturalização dessa generalização.", conta Edu [2].

O roteirista cita como uma de suas referências para e a esquete o livro “A invenção do Nordeste e outras artes”, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. Na pesquisa, o historiador analisa como a visão estereotipada e generalizada do Nordeste foi criada e ganhou o Brasil. Apesar de ter seu trabalho servindo como fonte de inspiração, Durval fez críticas ao vídeo, pois reforçaria as imagens de “nordestino ignorante” e do paulista como detentor da intelectualidade [3].

Críticas à parte, o vídeo viralizou e dividiu opiniões. Teve gente que se reconheceu na piada, admitindo usar generalizações em relação àqueles que vêm da região Nordeste. E, claro, teve também quem não gostou da piada. O filósofo Henry Bugalho faz uma análise interessante, do vídeo, da reação provocada por ele e de como a mídia e a industria cultural costumam consolidar estereótipos [4].  

Vale, entretanto, focarmos no Nordeste, em busca das origens desse imaginário que predomina no Brasil a respeito da região, que inclui signos como seca e Caatinga, além de generalizações de sotaques e expressões. Essa é nossa intenção neste artigo e, para isso, o trabalho de Durval Muniz de Albuquerque Jr. é a nossa base.      


A invenção do Nordeste

A ideia de Nordeste não existia até o início do século 20. Ela não figurou no Brasil Colônia ou no Brasil Império [5]. Ao longo da década de 1920, no entanto, esse conceito começa a ser desenvolvido e a ganhar um conjunto de sentidos e significados, por conta de intelectuais e políticos, sujeitos a quem o conceito de Nordeste, enquanto recorte espacial e cultural, interessava por razões políticas e econômicas. A elite nordestina estava em declínio, então viu a necessidade de demarcar uma região do país para sedimentar seu domínio. Uma forma de entrincheiramento político e econômico. O Nordeste surgiu então como um modo de se criar um nicho. 

O conceito unificado de Nordeste e do nordestino surge quando essas elites, ligadas ao açúcar, pecuária e algodão, perdem a nação para as elites do Centro-Sul. Isso vinha acontecendo por conta do processo de industrialização e expansão do capitalismo. A ideia de Nordeste, conforme explica o historiador, surge de forma reacionária e conservadora para se contrapor às transformações pelas quais o país passava com o fim da escravidão e a modernização capitalista [6]. 

Essa ideia de um Nordeste generalizado começa a ser gestada em Recife, com o movimento regionalista. Em 1924 é formado o Centro Regionalista do Nordeste, por Gilberto Freyre. De acordo com Durval, o livro “Nordeste”, de Freyre, é uma certidão de nascimento do Nordeste, em 1937. Outra obra importante é “O outro Nordeste”, patrocinado por Gilberto Freyre e escrito por DJacir Menezes, em 1938. 

São essas elites que vão cercar o espaço que entendemos como Nordeste, dotando-o de símbolos que formam todo um imaginário generalizante, para exercer o domínio econômico, político e cultural sobre esse espaço. Este último domínio, o cultural, é o que vai veicular essa construção de Nordeste, difundindo todo o imaginário que se popularizaria. Alguns elementos de sua formação são aquelas primeiras coisas que pensamos quando pensamos no Nordeste:  seca, Caatinga, semiárido, êxodo, retirada, cangaço, coronelismo, beato. 

Só que dentro do recorte genérico de Nordeste enquadra-se toda uma diversidade cultural. Esse conflito entre diversidade e generalização é antigo e ocorre desde a “invenção do Nordeste”, lá pela década de 1920, o que, inicialmente, levou a alguns problemas e divergências entre correntes de representação. A intelectualidade pernambucana difundia o Nordeste litorâneo e da cana-de-açúcar. A intelectualidade cearense difundia o Nordeste interiorano e da seca. A segunda prevaleceu sobre a primeira por conta da seca, usada como argumento para as elites locais conseguirem verbas, obras e recursos. Portanto, do ponto de vista político e econômico, o Nordeste árido, das secas, era mais vantajoso. 

Outro problema da generalização da ideia de Nordeste para abarcar tamanha diversidade é desvelado quando se vê que os nordestinos dos diversos estados se identificam uns com os outros e como nordestinos bem mais fora do Nordeste do que dentro. O conceito vai se enraizando na população a partir dos anos 30, por conta da migração. Fora do Nordeste, os nordestinos têm em comum principalmente o fato de serem trabalhadores pobres e terem vindo dessa região.

O vídeo do Porta dos Fundos faz uma crítica aos “sudestinos”, mas, conforme vimos, vale acrescentar que a generalização das sociedades e culturas da região Nordeste como algo de identidade única não foi criada pelo Sul ou Sudeste, mas pelas elites – intelectual, política e econômica – do próprio Nordeste. É um movimento de dentro para fora da região, não o contrário. Claro que isso serve como acréscimo, mas não invalida a brincadeira proposta pelo vídeo. Afinal, se a generalização e alguns estereótipos foram criados no próprio Nordeste, as sociedades do Sul e Sudeste trataram de repercutí-los e consolidá-los, carregá-los de preconceitos. Piadas como a do grupo humorístico servem para nos fazer pensar sobre o modo como agimos. E, claro, para nos fazer rir. 


Referências:

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A Invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011.


[1]Conceito de carnavalização, segundo Mikhail Baktin: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/carnavalizacao/


[2] [3] 'Tratei o estereótipo com deboche', diz autor de 'Sudestino:

https://www.terra.com.br/diversao/tratei-o-estereotipo-com-deboche-diz-autor-de-sudestino,78cb5b6d777f96ec471a1e5bbab85949s1pjagl1.html


[4] Henry Bugalho analisa o vídeo do Porta dos Fundos:

https://www.youtube.com/watch?v=YLdalkImi4g


[5] Entrevista com o historiador Durval Muniz de Albuquerque conferida ao Café Filosófico abordando seu livro, "A invenção do Nordeste":

https://www.youtube.com/watch?v=Zf-GUxNpiYA


[6] A TV Afiada apresenta a primeira parte da entrevista especial com o professor Durval Muniz Albuquerque Júnior, autor do livro "A invenção do Nordeste e outras artes":

https://www.youtube.com/watch?v=t_Z_e-EK19Y


terça-feira, 27 de julho de 2021

Rayssa Leal é prata no skate: o fato, as narrativas e o trabalho infantil

 

Os modos como as pessoas espremem os fatos para encaixá-los nas próprias narrativas não é um fenômeno novo, mas é algo que parece cada vez mais distante do razoável. Isso mostra muito de nossa capacidade de concatenação de idéias, muitas vezes juntando coisas que não têm nada a ver umas com as outras.

Fica um pouco pior quando isso parte de figuras públicas com poder nas mãos, A medalha de prata nas Olimpíadas de Tóquio da nossa “fadinha do skate”, Rayssa Leal, de apenas 13 anos, serve como exemplo. É um fato. E como fato, é apropriado pelas narrativas. Serve para todos os gostos. Mesmo a contragosto da lógica.

O deputado estadual paranaense Jorge Brand, mais conhecido como “Goura”, publicou uma foto da comemoração da menina Rayssa com a legenda “Mulher, negra e nordestina no topo do mundo. Esse é o Brasil que queremos”. Embora eu concorde no mérito quanto à defesa da diversidade e democratização das oportunidades, não consigo deixar de ver a forçação de barra e chatice em pegar um pódio como gancho para encaixar essa narrativa. Até porque a menina só tem 13 anos. Onde ele viu uma mulher? 

Não conhecia o Goura. Inicialmente achei que fosse uma página de humor. Dei uma olhada nas outras postagens. Não me pareceu ser de humor. Pouco tempo depois entrei novamente na página, ainda meio incrédulo. Fui além e cliquei no link para o site. Vi que se tratava de um deputado estadual. Fiquei surpreso.

Em seguida, vejo no Linkedin uma colega criticando um post do deputado federal Sóstenes, do Rio de Janeiro. Na publicação o parlamentar escreveu: “As crianças brasileiras de 13 anos não podem trabalhar, mas a skatista Rayssa Leal ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas… Ué! É pra pensar… Parabéns a nossa medalhista olímpica! E revisão do Estatuto da Criança e Adolescente já!

Mais uma vez, não acreditei. Poderia ser um print falso espalhado por algum detrator do partamentar. Fui à página oficial de Sóstenes no Facebook para conferir. E, de fato, ele fez essa publicação, que inclusive, de tão absurda, virou notícia [1]. Assim como o post de Goura, a publicação de Sóstenes recebeu muitas críticas.

Ambos os políticos, um de esquerda e outro de direita, espremeram um fato para sustentar uma narrativa prévia. No primeiro caso, um “haha” e um “descansa, militante” seriam suficientes (se fosse apenas um militante, mas é um parlamentar). No segundo, a coisa é um pouco pior. Uma falsa equivalência é escancaradamente usada para se sugerir a redução de direitos trabalhistas, da criança e do adolescente, incluindo expressamente um pedido de “revisão” do ECA. 



Trabalho infantil
Não é um caso isolado. Em 2019, o presidente Bolsonaro disse que trabalhou em uma fazenda aos nove ou dez anos de idade e que isso não o prejudicou em nada. Ele usou seu suposto exemplo para demonstrar simpatia pelo trabalho infantil e disse que não apresentaria um projeto para descriminalizá-lo porque senão seria "massacrado" [2]. Não deixa de ser um balão de ensaio: se não for tão “massacrado” assim, por que não apresentar o tal projeto?

A fala repercutiu em críticas e também em adesões. Pronunciamentos como esse costumam abrir o gargalo para falas semelhantes. Ás vezes, abrir a porteira para falas que, por vergonha e constrangimento, estavam represadas. A jornalista Leda Nagle, no mesmo mês que Bolsonaro, abordou o trabalho infantil da mesma forma romantizada que o presidente, ao afirmar que trabalhou no armazém de seus pais, aos 10 anos de idade [3], desconsiderando que nem todas as crianças terão a suposta vantagem de trabalhar no negócio da própria familia, assim como ela. 

Não parou por aí. Em 2020, Bolsonaro voltaria a defender o trabalho infantil em uma de suas lives: "deixa a molecada trabalhar", disse o presidente. Em sua “argumentação”, ele voltou a fazer uso de uma falsa equivalência, assim como fez em 2019 e assim como Sóstenes fez agora. Bolsonaro disse:  Molecada quer trabalhar, trabalha. Hoje, se está na Cracolândia, ninguém faz nada com o moleque" [4]. 

Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Crianças em situação de vulnerabilidade social e usuárias de drogas precisam de assistência psicossocial e, frequentemente, recebem essa assistência de municípios e governos estaduals. Se não recebem a contento, é preciso reforçar essa assistência em vez de usar a doença e o vício como argumentos para liberar o trabalho infantil. 

Contexto sociopolítico
Sóstenes é um parlamentar que faz parte da base de defesa do governo federal, portanto sua fala, usando a medalha de prata da pequena gigante Rayssa para defender o enfraquecimento do ECA (desconsiderando que a atleta só pôde ir às Olimpíadas justamente porque não precisa trabalhar e pode se dedicar aos treinos) se insere em uma série de posicionamentos de um grupo sociopolítico reacionário, que defende supressão de direitos para facilitar o avanço da exploração do capital sobre a mão de obra. 

Esse mesmo grupo esteve à frente das últimas mudanças determinadas pelas reformas trabalhista e previdenciária. E também está à frente de uma reforma administrativa que avança. Na balança na qual se equilibram patrões e empregados, o grupo põe peso a favor do patronato e contra os trabalhadores. Por isso é importante uma contextualização sociopolítica da fala de Sóstenes.

Devemos também aprender mais sobre raciocínio lógico argumentativo (abaixo, links para textos que apresentam algumas das principais falácias usadas no debate público e podem servir de introdução ao assunto [5]), para evitarmos cair nessas falsas equivalências, como a comparação de um pódio olímpico e o trabalho infantil em geral. Comparação feita motivadamente em defesa do enfraquecimento de direitos, que abre brechas para a exploração infantil. 

Crianças trabalhando, às vezes exaustivamente e de forma análoga à escravidão, são uma realidade mesmo com o Estatuto da Criança e do Adolescente Imagina sem ele. E não há nada de moderno ou “pra frentex” na desregulação de direitos trabalhistas ou das crianças. No século 19, o trabalho infantil era usado em larga escala [6]. Foram necessárias décadas de lutas trabalhistas e um processo civilizatório com um conjunto de valores éticos e morais para criminalizar as práticas de exploração do trabalho de crianças e adolescentes. 

E parabéns para a nossa atleta! Que a Rayssa possa crescer, brincar, treinar, se desenvolver como pessoa e se aperfeiçoar como skatista, para ganhar muitas outras medalhas e representar o Brasil no exterior. Sem o peso do trabalho precoce e do uso político da miséria como pretexto para a descriminalização do trabalho infantil. 


sexta-feira, 16 de julho de 2021

71 anos do Maracanaço e do frango que não existiu: como a gente enxerga na ausência das imagens?*



Nesta sexta-feira completam-se 71 anos do chamado “Maracanaço”, considerado uma das maiores “tragédias” do futebol brasileiro. Seguramente, até 2014, era vista como a pior de todas, mas aí veio o 7 a 1. O Brasil, maior vencedor de Copas do Mundo, não guarda boas lembranças como anfitrião da competição, seja em 1950 ou em 2014.

Muito já foi dito e chorado a respeito daquele fatídico 16 de julho de 1950, em que o Uruguai, de virada, derrotou o Brasil por 2 a 1 em pelo Maracanã lotado [1]. O atacante Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo, receberia a bola pela ponta direita e daria um chute cruzado balançando as redes de Barbosa, goleiro da seleção brasileira e do Vasco da Gama. Embora reverenciado pela torcida vascaína, o restante do Brasil o elegera como o grande vilão nacional, culpabilizando-o pelo fracasso brasileiro.

Às vésperas da partida, havia muita soberba e prepotência em comemorações antecipadas, por parte de uma nação que apostava na urbanização e industrialização e que buscava se afirmar como moderna internacionalmente. Imprensa e público davam o Brasil como o novo campeão do mundo já antes do jogo [2]. A festa estava pronta, mas tudo foi por água abaixo com o gol de Ghiggia. Essa mesma imprensa e esse mesmo público, outrora eufóricos, após a derrota ressaltavam a “falha” do goleiro que nos tirou a Copa. No popular, “o frango” de Barbosa. 

Mas foi mesmo um frango? Para responder a essa pergunta temos que falar sobre as formas de registro do real através das imagens. Éramos uma sociedade bastante diferente da atual em vários aspectos, e aqui estamos tratando da questão da comunicação e radiotransmissão. As tecnologias de comunicação eram bem menos desenvolvidas do que são hoje. Tínhamos uma imprensa basicamente escrita e sonora, não de imagens. A TV era recém-chegada ao Brasil [3], exatamente naquele ano de 1950, graças à ousadia do barão brasileiro da comunicação da época, Assis Chateaubriand, que introduziu o aparelho no país quase como alguém que introduz uma espécie exótica em um outro ecossistema.

Ninguém tinha aparelhos de TV em casa naquela época. O que ficava no centro da sala era o rádio, e não a televisão, como viria a ser nas décadas seguintes. O videotaipe só se tornaria realidade alguns anos depois [4]. Portanto, em 1950, as transmissões de TV eram precárias, somente ao vivo e assistidas por praticamente nenhum brasileiro. O gol de Ghiggia não teve replay. Tira-teima? Nem sonhando! Nenhum dos lances daquela lendária partida foram reprisados em câmera lenta. E não havia nenhum comentarista para dizer que “a imagem é clara”. 

Porque realmente não havia imagens claras. Não tínhamos muitas câmeras em campo. Até hoje, a imagem em movimento que temos do segundo gol uruguaio foi captada por uma só câmera posicionada atrás do gol de Barbosa [5]. Ela não mostra exatamente um frango, mas um chute certeiro de Ghiggia, que aparentemente poderia até ser defendido por Barbosa, mas não foi, o que não necessariamente significa uma falha. Barbosa explicaria, ao longo de sua vida, que raciocinou conforme o mais previsível, achando que o atacante uruguaio iria cruzar a bola na área, mas Ghiggia, mesmo com pouco ângulo, chutou para a meta. Um lance rápido, de sagacidade do jogador uruguaio, mas não um frango do goleiro brasileiro. 

Era muita emoção e poucas imagens objetivas. Muita soberba, expectativa, clima de já ganhou, para poucas câmeras, pouco registro da realidade. Havia também o racismo, que existe até hoje em um país que ainda carrega a herança escravocrata em vários aspectos, último país da América a abolir a escravidão. 

Numa sociedade como aquela, se o público saísse desolado do estádio dizendo que o goleiro frangou, era isso que iria se propagar. Se a imprensa escrita publicasse no jornal do dia seguinte que a falha era do goleiro, era isso que seria impresso também no imaginário. E assim foi. Surgia então o mito do frango do negro Barbosa. Havia poucas imagens para desmistificar o que o olhar passional do ser humano criara. 

Quando não há imagens ou quando elas não são claras, enxerga-se com o coração, com a emoção, e, muitas vezes, com o preconceito. Longe de, por outro lado, sermos ingênuos com um outro mito, o da objetividade, e com o poder persuasivo das evidências, devemos lembrar que quando alguém está fortemente motivado a enxergar uma coisa, é difícil fazê-lo enxergar outra, mas ainda assim é papel da imprensa, das câmeras e demais recursos midiáticos tecnológicos buscar a captação mais fiel possível dos fatos e do real. 

O mito do frango do Barbosa é mais uma história que ilustra a importância da comunicação, como ela pode fazer diferença por meio de seus avanços tecnológicos e como esses dispositivos (ou a ausência deles) impactam no imaginário, na criação e perpetuação de mitos e lendas. 


O futebol é tão injusto quanto a vida

Já em 2014, ano do 7 a 1, havia uma média de mais de 30 câmeras por jogo [6]. Elas não impediram mais uma “tragédia” futebolística nacional, mas nos fez vê-la pelos mais diversos ângulos e em alta definição. Falando assim, soa masoquista, mas essa riqueza de detalhes é necessária.  E por isso temos a vídeoarbitragem (video assistant referee – VAR), adotada no Campeonato Brasileiro em 2019. Quantas decisões poderiam ser diferentes se o VAR tivesse sido incorporado há mais tempo? 

Hoje em dia, jogadores e comissão técnica precisam ter cuidado com o que dizem em campo (com frequência colocam a mão à frente da boca para se comunicarem sem que haja registro das câmeras). As imagens, associadas à leitura labial, podem ser usadas em decisões da Justiça, em casos de ofensas racistas, por exemplo.   

E claro que isso vai muito além do futebol. Nas atividades policiais por exemplo, uma semana depois da operação ocorrida na comunidade do Jacarezinho, em que 28 pessoas morreram, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou a instalação de microcâmeras em equipamentos de agentes de segurança pública e defesa civil do Rio, para captação e registro de imagens e áudio [7]. A lei foi sancionada pelo governador Cláudio Castro [8]. 

Por conta do alto número de mortos, a operação da Polícia Civil no Jacarezinho foi amplamente discutida, com muitas críticas a um possível excesso policial e, de outro lado, com falas reiterando as mortes como necessárias, em resposta aos ataques sofridos pela polícia. Mas o fato é que não temos imagens evidenciando de uma perspectiva tática e de forma objetiva o que houve no confronto. 

Recentemente adotadas por batalhões da PM de São Paulo, o uso das câmeras nas fardas fizeram os números da letalidade policial despencarem. O coronel Robson Duque explica que a redução da letalidade também acontece porque o criminoso sabe que está sendo gravado e isso não é vantajoso para ele. Assim, reduz-se também as ações violentas contra a polícia [9]. 

A comentarista esportiva Milly Lacombe certa vez, em uma dessas partidas com virada inacreditável, disse que “O futebol pode ser tão injusto quanto a vida, por isso ele é tão apaixonante”. Então que as câmeras, imagens e sons sejam usados para reduzir as injustiças, no futebol e no cotidiano, inclusive aquelas praticadas contra negros e pobres, como um dia foi o goleiro Barbosa.


* Este artigo é dedicado ao Clube de Regatas Vasco da Gama, que embora não seja meu time, teve papel importante contra o racismo no futebol. E ao amigo de pesquisa e conversa fora Adler Mendes, vascaíno roxo. 


Referências:


[1] Documentários muito bons sobre o Maracanaço. Emocionam:


https://www.youtube.com/watch?v=eCNjLTD_YlQ


https://www.youtube.com/watch?v=t1V7Fd_cETE


[2] Expectativa brasileira sobre o jogo: 

https://www.youtube.com/watch?v=RaCOaxSsGE0


[3] Chegada da TV no Brasil: 

http://www.tudosobretv.com.br/histortv/tv50.htm


[4] História do videotape: 

https://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/historia-do-vt


[5] Gol de Ghiggia: 

https://www.youtube.com/watch?v=thttvWisKbk


[6] Câmeras na Copa de 2014:

https://oglobo.globo.com/esportes/os-numeros-impressionantes-da-copa-do-mundo-11670702


[7] Alerj aprova instalação de câmeras em equipamentos policiais:

https://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/alerj-aprova-instalacao-de-cameras-em-equipamentos-de-policiais-12052021


[8] Lei é sancionada: 

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/06/07/lei-para-que-uniforme-policial-no-rj-tenha-camera-e-sancionada-prazo-para-instalacao-e-vetado.ghtml


[9] Uso de câmeras pela PM de São Paulo:

https://www.band.uol.com.br/noticias/jornal-da-band/ultimas/camera-na-farda-numero-de-mortes-por-policiais-cai-em-sao-paulo-16359798




quarta-feira, 14 de julho de 2021

14 de julho - Dia da Liberdade de Pensamento

 

Hoje é o Dia da Liberdade de Pensamento. A data é inspirada na queda da Bastilha, ocorrida no dia 14 de julho de 1789, um evento central para a Revolução Francesa [1], que depôs o absolutismo monárquico e consolidou o pensamento iluminista [2], tão importante para o desenvolvimento de instituições democráticas como a imprensa e a ciência. Com as mudanças provocadas pela Revolução Francesa, as certezas teocráticas e os argumentos de autoridade cederiam espaço para o pensamento cético e a dúvida metódica, fundamentais para a investigação racional da realidade, para o conhecimento do mundo. 

Por isso, na data de hoje, compartilho esta que é uma das melhores charges que já vi, que consegue captar o espírito da imprensa e também da ciência. Uma obra-prima necessária nos dias atuais, em que esses e outros pilares da modernidade vêm sendo tão atacados. “Em um mundo de certezas, somente as dúvidas te darão asas”, diz Carlos Ruas, autor da ilustração genial, que chama a atenção para o papel e necessidade do ceticismo em um mundo onde tantos estão tão cheios de certeza e disparando suas exclamações. A internet e os algorítimos parecem reforçar essas certezas através de um tipo de viés cognitivo conhecido como “viés de confirmação” [3].   

À charge e à frase de Ruas, tomo a liberdade de acrescentar outra frase do também genial Carl Sagan: “Tornamos nosso mundo significativo pela coragem de nossas perguntas e pela profundidade de nossas respostas.” Ou, ainda segundo Sagan, “Se nós não estamos aptos a fazer perguntas céticas para interrogar aqueles que nos dizem que algo é verdade e sermos céticos quanto aqueles que são autoridade, então estamos à mercê do próximo charlatão político ou religioso que aparecer”. São frases que exaltam a centralidade das perguntas no pensamento crítico, a relevância do questionamento.  

Então, seja cético. Cheque os dados. Pergunte as fontes. Ponha à prova suas próprias convicções. Questione com base em que tal afirmação é feita. E lembre-se: você não precisa ter certeza de tudo. 


Referências:

[1] Sobre a queda da Bastilha e a Revolução Francesa:

https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-foi-queda-bastilha.htm


[2] Sobre o Iluminismo:

https://www.politize.com.br/iluminismo/


[3] Sobre viés de confirmação:

https://universoracionalista.org/vies-de-confirmacao/


quarta-feira, 7 de abril de 2021

27 anos sem Kurt Cobain: o Nirvana e as tecnologias digitais


No dia 8 de abril de 1994, após uma semana desaparecido, o músico Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, era encontrado morto na estufa de sua residência, em Seattle. Era o fim daquela que é considerada uma das maiores bandas de rock da história e para muitos a maior da década 1990. Ícone da vertente grunge do rock (juntamente com bandas como Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains), o Nirvana, em sua curta carreira, impactou não só a música, mas também a moda, a economia [1] e, por que não dizer, a minha vida.

Até o suicídio de Cobain, eu era uma criança que ouvia no máximo pop/rock. Não dava muita bola para o Nirvana. A barulheira guitarrística da banda, cheia de microfonia e distorção, me impedia de perceber o quanto eram belas as melodias das composições de Cobain e seus colegas de grupo. Mas isso mudou lá pela segunda metade dos anos 1990, com a chegada da minha adolescência e com uma mídia revirando o legado deixado pelo falecido astro. A MTV, que poucos anos antes exibira o clipe de Smell Like Teen Spirits exaustivamente [2], sendo a principal responsável pela explosão da banda, nos anos subsequentes à morte de Cobain fazia quase a mesma coisa com o álbum acústico Nirvana Unplugged in New York. Com um som “desplugado” tudo ficou mais fácil para mim. Aquele álbum foi a minha transição para sons mais pesados que me acompanhariam pelos anos seguintes, e o Nirvana viria a ser a personificação de minha concepção de banda de rock por excelência (e acho que o Nirvana é isso para mim até hoje).      

Mais do que uma das maiores bandas de todos os tempos, coube ao grupo formado por Cobain (guitarra e voz), Krist Novoselic (baixo) e Dave Grohl (baterista que depois se tornaria vocalista e guitarrista do Foo Fighters) o rótulo de “última grande banda de rock”. Em um artigo para uma compilação especial do jornal O Globo, no final da década de 1990, o crítico musical Tom Leão se referiu ao Nirvana como o “réquiem do rock”. A palavra se refere a um tipo de prece dedicada aos mortos. Sim, o crítico decretou o fim do rock no final dos anos 90, e o Nirvana teria sido a última grande banda do gênero.

Ao longo dos anos, Tom Leão continuou se referindo ao Nirvana como a última grande banda de rock e ao seu lendário vocalista como o último astro: "De lá para cá, não apareceu ninguém parecido com ele. Nem chegou perto", avalia já em 2014 [3]. Mas o crítico não é o único a pensar assim. A história da música e a crítica musical aos poucos construíram essa memória sobre o Nirvana, como “o último grande estouro do rock” [4]. Nesta semana, em que se completam 27 anos sem Kurt Cobain, o periódico El Pais se referiu a ele como “o homem que liderou a última revolução do rock” [5]. A lenda está aí. Cai quem quer.   


Internet e as novas mídias digitais

Gosto de entender as conjunturas sociais que colaboram ou mesmo possibilitam que determinados artistas, obras e vanguardas artísticas se destaquem. Ou seja, os modos como sociedades e arte dialogam em períodos da história. Como já disse, sou fã da banda, e pouco me interessa se ela foi ou não a última das grandes. O que me interessa é saber por que falam isso. E uma possível resposta veio, sem querer, de uma outra grande banda dos anos 90, o Oasis. No documentário sobre a banda chamado Supersonic (recomendo!) [6], focado nos mega-shows que o Oasis fez em Knebworth no ano de 1996, quando estava no auge, em certo momento, Noel Gallagher (ou seria o Liam? As vozes são parecidas) diz o seguinte: “gosto de pensar naquele show como o último grande encontro de pessoas antes da internet”.

É a deixa para entendermos a conjuntura. O Nirvana foi a grande banda de rock da primeira metade dos anos 90. Seu vocalista morreu em 94. O show ao qual um dos irmãos Gallagher se refere foi em 96. A internet estava crescendo. Coincidência? Para mim, não. A internet mudou nossa maneira de ouvir música e mexeu com a capacidade da indústria fonográfica de criar mitos. Mega-astros são mais difíceis de forjar hoje em dia. Não temos tantos clipes estreando no programa Fantástico, como acontecia com os de Michael Jackson. E, quando temos, muita gente não assiste porque está vendo Netflix ou ouvindo o lançamento de um artista qualquer na internet. A MTV, que impulsionou o Nirvana por meio da exibição massiva de Smell Like Teen Spirits, perdeu força nas últimas décadas.

A questão sobre “a última grande banda de rock” não é tanto estética ou artística. Não tem a ver com a “qualidade” do rock feito de meados dos anos 1990 para cá, mas com as mudanças tecnológicas, com as formas pelas quais a música chega aos nossos ouvidos. É interessante como as plataformas midiáticas capturam e moldam nossos sonhos, gostos e opiniões. Como um fã, eu poderia atribuir o rótulo de última das grandes às qualidades, atitude e honestidade artística do Nirvana. Poderia falar da genialidade rara de Cobain. Poderia ainda dizer que tudo o que foi feito no rock do final da década de 1990 para cá foi de qualidade razoável e por isso o Nirvana segura o bastão de grande banda até hoje. Mas seria uma tentativa de explicação com base em características intrínsecas à música, à arte. Só que a arte não explica tudo por si mesma. Concepções como talento, genialidade e sucesso sempre são forjadas através de contextos e conjunturas sociais. No caso do Nirvana, as mudanças tecnológicas e a rápida ampliação da internet e das mídias digitais, com as consequentes mudanças sociais possibilitadas, parecem-me fundamentais para explicar o modo como a banda entrou para o inconsciente coletivo dos roqueiros.


Para além do Nirvana: novas tecnologias, novas lógicas de mercado

Hoje temos Youtube, Spotify, Deezer, muita informação e dispersão. Tudo isso pulverizou a força da indústria fonográfica e da mídia tradicional, que ainda influenciam as tendências, mas não tanto quanto nas últimas décadas do século passado. Mega-astros pop como Michael Jackson e Madonna foram possíveis na década de 1980, no auge da cultura de massa. Entraram para a história, mas dificilmente fenômenos equivalentes irão se repetir no contexto atual. Isso não tem tanto a ver com o talento desses artistas, mas com as mudanças nas tecnologias de comunicação. 

Enxergar as coisas dessa forma nos faz perceber que quando alguém diz que “a música de antigamente é que era boa”, frequentemente está falando sobre mídia e não sobre música. Em 2019 o cantor Milton Nascimento disse em uma entrevista que “a música brasileira está uma merda” [7]. A afirmação repercutiu bastante na ocasião gerando polêmica. Em seguida, o músico fez uma publicação em rede social sendo mais específico e explicando que estava se referindo “exclusivamente à música feita no mainstream do mercado nacional, consumida pela massa” [8]. 

Ou seja, a crítica, no fundo, é à mídia de massa. Na medida em que as novas tecnologias, como as redes sociais, o Youtube e os serviços de streaming de áudio, foram facilitando as demarcações dos nichos do mercado fonográfico (hip hop, metal, indie rock...) a mídia de massa teve que ficar cada vez mais... massiva. Isso significa dizer que TVs e rádios miram em um “denominador comum”, em algo que grande parte das pessoas gosta (ou está acostumada a gostar), deixando para os nichos os artistas diferenciados. Portanto, se o que toca nas mídias de massa desagrada os seus ouvidos, saiba que a “música de qualidade” ainda existe, mas é preciso garimpá-la. 

Movimento semelhante pode ser visto nos cinemas nos últimos anos: as bilheterias das salas de exibição foram quase que monopolizadas por filmes de heróis, animações infantis e franquias de ação com muita explosão (Velozes e Furiosos, por exemplo), enquanto os filmes, digamos, mais “sérios”, “artísticos” ou “cults” vêm migrando para o streaming. As salas de cinema miram no que vende mais, e quem não curte os blockbusters corre para os nichos.          

Então essa é a teoria: talento à parte, por trás do selo de réquiem do rock que o Nirvana até hoje carrega, o que existem são mudanças significativas nas tecnologias de veiculação da música. E essas mudanças também contribuíram para o modo como o público, a crítica e os historiadores construíram a memória do rock e o papel do Nirvana nessa memória. 


Referências:

[1] e [3]

http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2014/04/livro-tenta-explicar-mito-em-torno-de-kurt-cobain-20-anos-apos-sua-morte.html

 

[2]

https://rollingstone.uol.com.br/noticia/por-que-kurt-cobain-nao-gostava-de-tocar-smells-teen-spirit-do-nirvana/

 

[4]

https://www.camara.leg.br/radio/programas/497777-25-anos-de-smells-like-teen-spirit-do-nirvana/

 

[5]

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/04/cultura/1554387027_625739.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM&fbclid=IwAR3OeFZhEg6VL1g5B0l6YXWRKc-4mJ90Y2g27W9O75eD_gU2lGdyc_McnLI#Echobox=1617056459

 

[6]

https://www.omelete.com.br/musica/oasis-netflix-colocar-supersonic-em-seu-catalogo

 

[7]

https://www.itapemafm.com.br/em-entrevista-polemica-milton-nascimento-declara-que-musica-brasileira-esta-uma-merda

 

[8]

https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2019/09/23/milton-nascimento-musica-brasileira/      


sexta-feira, 2 de abril de 2021

Meritocracia e o networking privilegiado dos alunos da FGV


Nos tempos da faculdade eu costumava dizer aos colegas que quando precisássemos de dinheiro poderíamos pintar o corpo e nos disfarçar de calouros para conseguir um trocado pelas ruas. Eu falava isso em tom de brincadeira, mas havia um fundo de verdade. As pessoas são mais propensas a ajudar um calouro universitário do que um morador de rua, por exemplo. Certamente, por uma questão de identificação, as classes média e alta têm mais simpatia por seus iguais. Claro que conseguir dinheiro dessa forma malandra teria suas limitações. Não seria possível em qualquer época do ano; seria necessário que o golpe coincidisse com o início do semestre letivo (nem todo mês é mês de chegada de calouros). Outra limitação possivelmente seria a cor da pele do “calouro”: quanto mais clara fosse, mais fácil aplicar o golpe. A questão racial (vulgo racismo) influi no grau de empatia das classes.

Na semana passada bombou nas redes sociais brasileiras a gincana promovida pelos calouros e calouras da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O assunto ficou entre os Trending Topics do Twitter, para onde são alçados os temas do momento. A proposta era que os novos alunos acionassem “celebridades” da instituição, ou seja, pessoas conhecidas da própria FGV. Mas o vídeo que bombou na internet aponta que os novos alunos não entenderam direito a ideia da gincana e acionaram seus contatos para pedir declarações de apoio a diversos famosos. 

De acordo com a estudante Gabriela Ricci, que ficou mais conhecida como a “Gabi da AE4”, inicialmente teria, sim, havido um equívoco, mas ao perceberem que o erro estava dando certo, que as celebridades estavam enviando seus depoimentos, a turma decidiu seguir por esse caminho [1]. Equívoco total ou parcial, o resultado nós já sabemos: uma constelação de famosos dando apoio aos calouros da FGV na gincana: Xuxa, Sérgio Moro, Rodrigo Maia, Fábio Porchat, Ana Maria Braga, Tábata Amaral, João Amoedo, Cafu e até o internacional Ed O'Neill (o Jay, de Modern Family), dentre tantos outros. 

A lista, tão surpreendente quanto aleatória, gerou um vídeo que viralizou. O interessante da história é como, a partir de um mal-entendido, os estudantes conseguiram mobilizar tanta gente importante. Em seguida, diversas marcas, como Amazon, Chevrolet e Rexona, entraram na brincadeira e fizeram posts se referindo à “gincana da GV” [2], incluindo a possibilidade de apoio à brincadeira [3]. A imprensa também noticiou o inusitado, dando ainda mais visibilidade ao caso, ressaltando o quanto a história tem de curiosa.

Entretanto, algo que foi pouquíssimo ressaltado é o quanto essa brincadeira pode nos fazer pensar sobre meritocracia, concentração de renda e oportunidades. A partir de um equívoco, novatos de uma das instituições de ensino mais caras do Brasil conseguiram com relativa facilidade acessar uma constelação de gente famosa e influente. Agora pense: você acha que essa facilidade não se reflete no mercado de trabalho? Pense nos acessos privilegiados às melhores posições no mercado que essa turma possui. E olha que estão apenas começando na faculdade.

Sem querer, os alunos da FGV mostraram para o país o networking privilegiadíssimo que têm. Não vou entrar aqui no grau de intimidade que esses alunos possuem com cada um dos famosos que aparece dando seu apoio, mas certamente uma turma de uma instituição privada mais barata ou mesmo de uma universidade pública (e olha que há muita gente bem-nascida nas universidades públicas) não conseguiria tantos nomes de peso em tão pouco tempo. 

Networking conta muito. E, dependendo do estrato social de onde se venha, esse networking pode ser extraordinário e fazer toda a diferença. Isso ficou muito claro para mim desde os tempos da faculdade. Suburbano e aluno de um curso concorrido de uma universidade federal, tive contato com muita gente com uma bagagem socioeconômica bem acima da minha. Foi um dos momentos mais perceptíveis que tive de que na “corrida da vida” as pessoas largam de pontos bem diferentes. Algo que hoje para mim parece óbvio, mas que naquela época eu ainda estava aprendendo. 

Lembro de uma conversa que tive na época sobre oportunidades, com um amigo, em que chegamos à conclusão de que pegar alguém recém-formado no ensino médio morador de comunidade de subúrbio e matricular em uma PUC (ou qualquer dessas universidades muito caras), com tudo pago, talvez não fosse algo muito efetivo para o futuro da pessoa. Claro que o hipotético privilegiado ganharia uma baita oportunidade e também é claro que isso seria melhor do que se não a ganhasse. Certamente, levando em conta seu ponto de partida, ter um diploma de uma instituição de prestigio representaria uma vantagem, porém a questão nunca está somente no diploma, em um documento frio, em um pedaço de papel. O diferencial está em grande parte no networking que alunos de instituições caras e renomadas já trazem antes mesmo de se tornarem alunos. 

De um ponto de partida privilegiado, tudo fica muito mais fácil. Um mal-entendido, uma falha de interpretação de texto, gera boas oportunidades de contatos. Alguns calouros da gincana da GV participaram de uma live com Caito Maia, fundador da Chillibeans. O empresário destacou a inteligência e habilidade dos alunos para o marketing e empreendedorismo: “Chegaram nesse resultado com perseverança e insistência. (…) Isso é muito importante, por exemplo, quando se está gerindo um negócio e criando uma marca” [4]. Pois então, lembra quando eu disse que as classes média e alta têm mais simpatia por seus iguais? Quem é privilegiado cai de cara na oportunidade até quando tropeça na rua.  

Gabriela Ricci, por exemplo, é filha do empresário Dirley Pingnatti Ricci, da empresa de locação de automóveis Unidas. Ele foi vice-diretor da Locamerica, empresa do mesmo ramo. O empresário fundou em 1994 a Auto Ricci, que foi adquirida pela Locamerica em março de 2017, em um negócio que, na época, gerou um faturamento de R$ 1,126 bilhão ao ano e 43 mil veículos [5]. Nada mal! Mas Gabi afirma que a família não a ajudou em nada com os vídeos [6]. A pergunta que fica é: será que essa “ajuda” não se dá indiretamente, de forma desapercebida para quem está dentro da bolha?

Cabe então refletirmos sobre aquilo que foi pouco ressaltado nas notícias sobre a gincana. Para gestores e recrutadores, quando priorizam determinados perfis de estudantes de instituições de elite, não estariam sendo mais benevolentes com os seus iguais? Com aqueles que possuem endereços e currículos semelhantes? E, sendo assim, quem estariam excluindo? 

Para quem acredita em meritocracia, subestima as forças sociais e superestima a capacidade individual, será que podemos mesmo falar em meritocracia quando tantos partem de posições tão largamente distintas? Muitas pessoas guardam uma crença exagerada na meritocracia porque não têm a dimensão da distância entre os indivíduos e acham que tudo se resume a esforço ou talento. O exemplo da gincana da FGV pode ajudar a lançar luz a esse respeito.  

Para quem não tem a oportunidade de estudar em uma instituição de elite e que possivelmente não conseguiria acessar tantos nomes famosos e obter o mesmo retorno que os alunos da FGV obtiveram, procure não se culpar tanto se no futuro as portas não se abrirem conforme o esperado. Tente entender que nem tudo depende de você. Mas não desista! É justamente por conta das desigualdades, das diferenças nos pontos de partida, que aqueles que não são tão privilegiados precisam se esforçar muito mais. E busque converter essa compreensão da desigualdade social não só em esforço individual, mas em ação política coletiva. Por exemplo, apoiando uma educação pública que sirva para compreender e reduzir essas desigualdades e não para a manutenção das mesmas.

E vale destacar que toda a minha crítica aqui se resume ao sistema, não à instituição FGV, uma das maiores referências em ensino e pesquisa do país e pela qual tenho bastante admiração, e nem aos alunos, aos quais desejo muito boa sorte e prosperidade na jornada de aprendizagem e no mercado de trabalho. Persistência eles demonstraram que, de fato, possuem. 


Referências:

[1] e [3] https://oglobo.globo.com/cultura/nao-era-intencao-mas-valeu-esforco-diz-gabriela-ricci-gabi-da-fgv-24943079

 

[2] https://propmark.com.br/digital/marcas-criam-posts-de-oportunidade-para-gabi-da-ae4-da-fgv/

 

[4] https://www.istoedinheiro.com.br/a-gente-nao-esperava-toda-essa-repercussao-diz-gabi-da-fgv-sobre-atencao-de-marcas-e-famosos/

 

[5] https://valor.globo.com/empresas/noticia/2017/12/29/vice-presidente-da-locamerica-renuncia-apos-negocio-com-unidas.ghtml

 

[6] https://istoe.com.br/conheca-gabi-da-ae4-a-estudante-que-viralizou-com-videos-de-famosos-apos-mal-entendido/


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