sexta-feira, 2 de abril de 2021

Meritocracia e o networking privilegiado dos alunos da FGV


Nos tempos da faculdade eu costumava dizer aos colegas que quando precisássemos de dinheiro poderíamos pintar o corpo e nos disfarçar de calouros para conseguir um trocado pelas ruas. Eu falava isso em tom de brincadeira, mas havia um fundo de verdade. As pessoas são mais propensas a ajudar um calouro universitário do que um morador de rua, por exemplo. Certamente, por uma questão de identificação, as classes média e alta têm mais simpatia por seus iguais. Claro que conseguir dinheiro dessa forma malandra teria suas limitações. Não seria possível em qualquer época do ano; seria necessário que o golpe coincidisse com o início do semestre letivo (nem todo mês é mês de chegada de calouros). Outra limitação possivelmente seria a cor da pele do “calouro”: quanto mais clara fosse, mais fácil aplicar o golpe. A questão racial (vulgo racismo) influi no grau de empatia das classes.

Na semana passada bombou nas redes sociais brasileiras a gincana promovida pelos calouros e calouras da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O assunto ficou entre os Trending Topics do Twitter, para onde são alçados os temas do momento. A proposta era que os novos alunos acionassem “celebridades” da instituição, ou seja, pessoas conhecidas da própria FGV. Mas o vídeo que bombou na internet aponta que os novos alunos não entenderam direito a ideia da gincana e acionaram seus contatos para pedir declarações de apoio a diversos famosos. 

De acordo com a estudante Gabriela Ricci, que ficou mais conhecida como a “Gabi da AE4”, inicialmente teria, sim, havido um equívoco, mas ao perceberem que o erro estava dando certo, que as celebridades estavam enviando seus depoimentos, a turma decidiu seguir por esse caminho [1]. Equívoco total ou parcial, o resultado nós já sabemos: uma constelação de famosos dando apoio aos calouros da FGV na gincana: Xuxa, Sérgio Moro, Rodrigo Maia, Fábio Porchat, Ana Maria Braga, Tábata Amaral, João Amoedo, Cafu e até o internacional Ed O'Neill (o Jay, de Modern Family), dentre tantos outros. 

A lista, tão surpreendente quanto aleatória, gerou um vídeo que viralizou. O interessante da história é como, a partir de um mal-entendido, os estudantes conseguiram mobilizar tanta gente importante. Em seguida, diversas marcas, como Amazon, Chevrolet e Rexona, entraram na brincadeira e fizeram posts se referindo à “gincana da GV” [2], incluindo a possibilidade de apoio à brincadeira [3]. A imprensa também noticiou o inusitado, dando ainda mais visibilidade ao caso, ressaltando o quanto a história tem de curiosa.

Entretanto, algo que foi pouquíssimo ressaltado é o quanto essa brincadeira pode nos fazer pensar sobre meritocracia, concentração de renda e oportunidades. A partir de um equívoco, novatos de uma das instituições de ensino mais caras do Brasil conseguiram com relativa facilidade acessar uma constelação de gente famosa e influente. Agora pense: você acha que essa facilidade não se reflete no mercado de trabalho? Pense nos acessos privilegiados às melhores posições no mercado que essa turma possui. E olha que estão apenas começando na faculdade.

Sem querer, os alunos da FGV mostraram para o país o networking privilegiadíssimo que têm. Não vou entrar aqui no grau de intimidade que esses alunos possuem com cada um dos famosos que aparece dando seu apoio, mas certamente uma turma de uma instituição privada mais barata ou mesmo de uma universidade pública (e olha que há muita gente bem-nascida nas universidades públicas) não conseguiria tantos nomes de peso em tão pouco tempo. 

Networking conta muito. E, dependendo do estrato social de onde se venha, esse networking pode ser extraordinário e fazer toda a diferença. Isso ficou muito claro para mim desde os tempos da faculdade. Suburbano e aluno de um curso concorrido de uma universidade federal, tive contato com muita gente com uma bagagem socioeconômica bem acima da minha. Foi um dos momentos mais perceptíveis que tive de que na “corrida da vida” as pessoas largam de pontos bem diferentes. Algo que hoje para mim parece óbvio, mas que naquela época eu ainda estava aprendendo. 

Lembro de uma conversa que tive na época sobre oportunidades, com um amigo, em que chegamos à conclusão de que pegar alguém recém-formado no ensino médio morador de comunidade de subúrbio e matricular em uma PUC (ou qualquer dessas universidades muito caras), com tudo pago, talvez não fosse algo muito efetivo para o futuro da pessoa. Claro que o hipotético privilegiado ganharia uma baita oportunidade e também é claro que isso seria melhor do que se não a ganhasse. Certamente, levando em conta seu ponto de partida, ter um diploma de uma instituição de prestigio representaria uma vantagem, porém a questão nunca está somente no diploma, em um documento frio, em um pedaço de papel. O diferencial está em grande parte no networking que alunos de instituições caras e renomadas já trazem antes mesmo de se tornarem alunos. 

De um ponto de partida privilegiado, tudo fica muito mais fácil. Um mal-entendido, uma falha de interpretação de texto, gera boas oportunidades de contatos. Alguns calouros da gincana da GV participaram de uma live com Caito Maia, fundador da Chillibeans. O empresário destacou a inteligência e habilidade dos alunos para o marketing e empreendedorismo: “Chegaram nesse resultado com perseverança e insistência. (…) Isso é muito importante, por exemplo, quando se está gerindo um negócio e criando uma marca” [4]. Pois então, lembra quando eu disse que as classes média e alta têm mais simpatia por seus iguais? Quem é privilegiado cai de cara na oportunidade até quando tropeça na rua.  

Gabriela Ricci, por exemplo, é filha do empresário Dirley Pingnatti Ricci, da empresa de locação de automóveis Unidas. Ele foi vice-diretor da Locamerica, empresa do mesmo ramo. O empresário fundou em 1994 a Auto Ricci, que foi adquirida pela Locamerica em março de 2017, em um negócio que, na época, gerou um faturamento de R$ 1,126 bilhão ao ano e 43 mil veículos [5]. Nada mal! Mas Gabi afirma que a família não a ajudou em nada com os vídeos [6]. A pergunta que fica é: será que essa “ajuda” não se dá indiretamente, de forma desapercebida para quem está dentro da bolha?

Cabe então refletirmos sobre aquilo que foi pouco ressaltado nas notícias sobre a gincana. Para gestores e recrutadores, quando priorizam determinados perfis de estudantes de instituições de elite, não estariam sendo mais benevolentes com os seus iguais? Com aqueles que possuem endereços e currículos semelhantes? E, sendo assim, quem estariam excluindo? 

Para quem acredita em meritocracia, subestima as forças sociais e superestima a capacidade individual, será que podemos mesmo falar em meritocracia quando tantos partem de posições tão largamente distintas? Muitas pessoas guardam uma crença exagerada na meritocracia porque não têm a dimensão da distância entre os indivíduos e acham que tudo se resume a esforço ou talento. O exemplo da gincana da FGV pode ajudar a lançar luz a esse respeito.  

Para quem não tem a oportunidade de estudar em uma instituição de elite e que possivelmente não conseguiria acessar tantos nomes famosos e obter o mesmo retorno que os alunos da FGV obtiveram, procure não se culpar tanto se no futuro as portas não se abrirem conforme o esperado. Tente entender que nem tudo depende de você. Mas não desista! É justamente por conta das desigualdades, das diferenças nos pontos de partida, que aqueles que não são tão privilegiados precisam se esforçar muito mais. E busque converter essa compreensão da desigualdade social não só em esforço individual, mas em ação política coletiva. Por exemplo, apoiando uma educação pública que sirva para compreender e reduzir essas desigualdades e não para a manutenção das mesmas.

E vale destacar que toda a minha crítica aqui se resume ao sistema, não à instituição FGV, uma das maiores referências em ensino e pesquisa do país e pela qual tenho bastante admiração, e nem aos alunos, aos quais desejo muito boa sorte e prosperidade na jornada de aprendizagem e no mercado de trabalho. Persistência eles demonstraram que, de fato, possuem. 


Referências:

[1] e [3] https://oglobo.globo.com/cultura/nao-era-intencao-mas-valeu-esforco-diz-gabriela-ricci-gabi-da-fgv-24943079

 

[2] https://propmark.com.br/digital/marcas-criam-posts-de-oportunidade-para-gabi-da-ae4-da-fgv/

 

[4] https://www.istoedinheiro.com.br/a-gente-nao-esperava-toda-essa-repercussao-diz-gabi-da-fgv-sobre-atencao-de-marcas-e-famosos/

 

[5] https://valor.globo.com/empresas/noticia/2017/12/29/vice-presidente-da-locamerica-renuncia-apos-negocio-com-unidas.ghtml

 

[6] https://istoe.com.br/conheca-gabi-da-ae4-a-estudante-que-viralizou-com-videos-de-famosos-apos-mal-entendido/


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