terça-feira, 7 de abril de 2020

O combate ao coronavírus e as soluções orçamentárias


Neste ano de 2020, o mundo está diante de um inimigo global: o coronavírus, que, além de causar muitas mortes, vem virando de ponta a cabeça nosso cotidiano, práticas sociais e a economia. As sociedades vêm buscando medidas emergenciais e se perguntando como será o mundo após o vírus. Um dos pensadores que tem se proposto a responder essa pergunta é o historiador e escritor Yuval Noah Harari. Ele diz que em situações extraordinárias e emergenciais, como o caso de uma pandemia, certas decisões, que em tempos normais levariam anos de deliberação, são tomadas em poucas horas. Ou seja, casos extraordinários têm a capacidade de acelerar mudanças sociais, dar um fast foward no motor da história. Harari diz ainda que “nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram a confiança na ciência, nas autoridades públicas, nos meios de comunicação e na cooperação internacional, e que para evitar uma catástrofe precisamos recuperar essa confiança que perdemos.” O escritor diz que o verdadeiro antídoto contra a pandemia é o conhecimento científico e a cooperação global.

Harari traz para nós um certo dilema: se nos últimos anos alguns políticos irresponsáveis minaram a confiança nas autoridades públicas e instituições, como restaurar essa confiança se, em grande medida, essas instituições também são constituídas pela política e pelos políticos? Vejamos como esse dilema influencia a discussão no Brasil. O país infelizmente já conta com milhares de mortos pelo coronavírus e discute mudanças orçamentárias para combater a pandemia. Afinal, grandes desafios de saúde pública necessitam de verbas. É o chamado “orçamento de guerra”. Uma das principais perguntas é: de onde virá o dinheiro? Algumas propostas ganham força, tanto entre os parlamentares quanto por parte da população. Dentre elas, a redução de salários de servidores públicos, a redução salários de parlamentares e o uso do fundo eleitoral ou do fundo partidário no combate a Covid-19. Certamente você já deve ter recebido alguma lista virtual pedindo a sua assinatura para alguma dessas pretensas soluções. Mas todas têm algo em comum: elas são fortemente carregadas de um sentimento antipolítica e anti-estado, justamente em um momento em que, como diz Harari, a cooperação global e a confiança nas autoridades públicas são fundamentais.

Será que essas medidas são funcionais do ponto de vista orçamentário? Será que aqueles que as propõem estão levando em conta a matemática e os cálculos na ponta do lápis? Eles sabem os valores envolvidos ou estão sendo movidos apenas por um sentimento de repúdio à política e ao estado? Para decidirmos quais as melhores medidas orçamentárias de combate à pandemia precisamos, além de alguns valores éticos e morais, analisar alguns valores numéricos e entender onde estão concentrados os maiores recursos. Por exemplo, o fundo eleitoral fixado para este ano de 2020 é de R$ 2 bilhões.  O fundo partidário é de R$ 1 bilhão. Já o custo de todo o Congresso, ou seja, todas as despesas do Senado e da Câmara, como manutenção, pessoal, compra de equipamentos e consumo, foi de R$ 10,8 bilhões. Certamente alguns desses valores são elevados e possivelmente podem ser reduzidos.

Mas e se compararmos com outros montantes? Por exemplo, o lucro somado de apenas quatro grandes bancos brasileiros em 2013 foi maior do que o PIB de 83 países, o que quebra a visão do senso comum de que a concentração das riquezas estaria nas mãos dos estados. Grandes bancos geraram, em 2020, 52 bilhões em dividendos no Brasil. Dividendos são partes do lucro obtido por uma empresa e que ela distribui aos seus acionistas. Aqui no Brasil os que recebem dividendos pagam zero de imposto! Isso mesmo, seus dividendos não são taxados. E isso favorece a concentração de renda. Por que? Porque a principal fonte de receita dos mais ricos não vem de salários, mas sim de lucros e dividendos. Para se ter uma ideia da enorme concentração de renda no país, basta lembrar que, atualmente, seis brasileiros, pertencentes a uma elite empresarial, concentram a mesma riqueza que a metade da população mais pobre. Levando em conta que o Brasil tem pouco mais de 200 milhões de habitantes, significa dizer que esses seis brasileiros, ou seis famílias se preferirem, têm o equivalente ao que cerca de 100 milhões de pessoas possuem.

Voltemos às quantias. Vamos supor que conseguíssemos reduzir em 20% os custos do Congresso. Obteríamos uma economia de R$ 2 bilhões e 160 milhões. Se usássemos esse dinheiro somado a todo orçamento dos fundos partidário e eleitoral juntos em ações de saúde pública contra o coronavírus, teríamos em torno de 5,2 milhões, o que não chegaria nem a 10% dos dividendos distribuídos pelos grandes bancos, cujos recebedores não foram taxados, ou seja, não pagaram impostos. E estamos falando dos dividendos apenas dos bancos. Um estudo da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal publicado recentemente estima que o governo pode arrecadar até 59 bilhões de reais com a tributação de lucros e dividendos no país. Valor quase 20 vezes maior que a soma dos fundos partidário e eleitoral e quase cinco vezes e meia o custo total do Congresso Nacional.

Quando propor possíveis soluções orçamentárias para nossa saúde pública, fique atento à matemática e aos valores reais que estão em jogo! Neste momento, há projetos propondo a tributação de grandes fortunas e de lucros e dividendos tramitando no Congresso. Acompanhe, pressione, participe!

Referências:
            
Artigo do Harari:

Mais um artigo do Harari

Como funciona a tributação de dividendos no Brasil:
https://www.sunoresearch.com.br/artigos/tributacao-de-dividendos/

Projeto de taxação das grandes fortunas

Custo do Congresso

Lucro dos bancos maior que PIBs nacionais

Seis Brasileiros concentram mais riquezas que metade mais pobre do país

Valor atual do fundo eleitoral

Valores do fundo eleitoral e partidário somados

Valores de dividendos distribuídos pelos quatro bancos brasileiros em 2019

Estudo de auditores fiscais com estimativa de arrecadação caso lucros e dividendos fossem tributados no país






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