quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

América Latina: redemocratização, neoliberalismo e desconfiança na democracia

 


Antigamente é que era bom” ou “antigamente a vida era melhor”. São frases que comumente ouvimos por aí. Em geral, vale destacar a imprecisão (antigamente quando? Antigamente onde? Era melhor para quem?). Mas no Brasil existe uma grande chance daqueles que usam essas frases estarem a se referir à ditadura militar. Muitas pessoas hoje de meia-idade se mostram saudosas dos anos de chumbo e defendem que a vida era melhor naquela época. Mais do que isso, em um típico exemplo de “saudade do que não se viveu”, há jovens que repetem esse discurso sem nunca terem vivido os tempos de repressão da ditadura. Esse saudosismo de um passado idílico, romantizado, misturado a uma grande desconfiança a respeito das instituições, mais especificamente das instituições democráticas, é um dos fermentos que fizeram crescer uma extrema-direita protofascista que alçou ao poder no Brasil o presidente Jair Bolsonaro.

Aqui vamos analisar a crise das instituições públicas e a desconfiança nas instituições democráticas, mas com um foco bem específico, a América Latina e, mais ainda, o Brasil, com destaque para o papel do neoliberalismo na crise e na desconfiança. Para isso, partimos principalmente da leitura dos artigos “O papel da sociedade e das instituições na definição das crises políticas e quedas de presidentes na América Latina”, de André Luiz Coelho Faria de Souza, e “A desconfiança nas instituições democráticas”, de José Álvaro Moisés, ambos cientistas políticos. A ideia é partir dos dados e proposições dos textos para acrescentar novas proposições.

Enquanto Souza (2013) analisa crises políticas e quedas antecipadas (impeachments) de presidentes na América Latina no período imediatamente posterior à redemocratização, concluindo que o pior cenário para um mandatário seriam manifestações nas ruas pedindo a sua saída do poder ao mesmo tempo em que conflitos institucionais estivessem acontecendo” (SOUZA, 2013, p. 227) (algo que se viu no Brasil com Collor e, posteriormente à publicação do artigo, com Dilma, mas também em outros países, como a Bolívia, com as renúncias de Lozada e Mesa, todos que enfrentaram oposições nas ruas e nas instituições, como o congresso/parlamento); Moisés (2005) se concentra na ampla e contínua relação de desconfiança que os brasileirso têm com as suas instituições democráticas, ainda que, de modo geral, digam majoritariamente que apoiam a democracia. O autor se vale de diversos modelos teóricos para explicar a erosão da confiança dos cidadãos.


Da ditadura ao neoliberalismo

A experiência latino-americana de redemocratização, a partir da década de 70 e, no caso específico do Brasil, no meado da década de 80, tem uma característica peculiar: ela coincide com outros dois fatores geopolíticos e econômicos globais que influenciaram negativamente o bem-estar e a qualidade de vida dos trabalhadores, direta e indiretamente. O primeiro deles é a ascenção do neoliberalismo [1]. A doutrina, fortemente influenciada pelas ideias da Escola de Chicago [2], começou a ser posta em prática já em meados dos anos de 1970, no Chile comandado pelo ditador Augusto Pinochet. Mas foi na década de 1980, principalmente por meio do presidente americano Ronald Reagan e da primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, que o neoliberalismo começa a ser disseminado pelo mundo.

No final daquela década, em 1989, as ideias neoliberais ficam ainda mais concretas e bem delineadas teoricamente quando o economista John Williamson publica um artigo com um conjunto de regras econômicas que ficariam conhecidas como Consenso de Washington [3] [4]. O receituário inclui redução do Estado, privatizações, desregulação do mercado, enfraquecimento dos direitos trabalhistas etc. Medidas que, em um longo prazo, em países periféricos como os da América Latina, aumentaram a desigualdade e a pobreza, a ponto de até mesmo economistas do FMI chamarem a atenção para a ineficiência do receituário neoliberal [5].

Assim como tantas outras coisas, as práticas neoliberais demoraram um pouco mais a chegar no Brasil, sendo implementadas no início dos anos 1990, com Fernando Collor de Mello, e aprofundadas nos governos FHC. Mesmo nos governos petistas de Lula e Dilma, não há uma ruptura abrupta com o neoliberalismo (Santos, 2020).


Fim do bloco socialista

Além do neoliberalismo, um outro fator geopolítico que coincide com a redemocratização da América Latina é o enfraquecimento do bloco socialista até a dissolução da União Soviética, em 1991. Não é coincidência que a doutrina neoliberal tenha avançado, nas décadas de 1980 e 1990, na medida em que o bloco socialista se enfraquece e deixa de existir. A queda do muro de Berlin, por exemplo, acontece no mesmo ano do Consenso de Washington, em 1989. Com a implosão da experiência dos estados socialistas no mundo, o capitalismo pôde recrudescer, tornar-se mais voraz contra os direitos trabalhistas e a classe trabalhadora, precarizando cada vez mais a mão de obra, com menos temor do risco do espírito do comunismo encarnar nas lutas dos trabalhadores.

O projeto político-econômico preconizado pelo Consenso de Washington no início dos anos 1990 foi o vencedor da disputa entre “estatismo versus capitalismo de mercado” (…). O retorno da democracia na América Latina a partir do fim da década de 1970 e a posterior adoção de reformas voltadas para o mercado trouxeram à região a promessa de desenvolvimento econômico e melhorias das condições de vida dos seus cidadãos.

No entanto, ao longo da década de 1990 e da primeira metade dos anos 2000 o que se viu em grande parte dos países da região foi justamente o oposto: piora dos indicadores sociais e o aumento da desigualdade, trazendo a reboque desencantamento com a democracia e com o neoliberalismo. Pesquisas como o Latinobarómetro identificaram o descontentamento dos cidadãos com as chamadas “promessas não cumpridas” (SOUZA, 2013, p. 238).

Por isso, aqui classificamos o fim do bloco socialista como um fator geopolítico contemporâneo do processo de redemocratização da América Latina que, indiretamente, contribuiu para a piora dos indicadores sociais dos latino-americanos, pois com a derrota dos estados socialistas o capital não viu mais a necessidade de barganhar com as classes populares como havia feito por longos anos do século 20. A “ameaça” socialista ajudava a refrear os excessos do capital. No Brasil, um exemplo dessa barganha é a Consolidação das Leis Trabalhistas no período getulista. Em reportagem publicada pelo Jornal do Brasil em 2 de maio de 1943, Vargas declara que para a elaboração da nova legislação trabalhista ele buscou o equilíbrio entre o capitalismo e o socialismo [6]. Era uma forma de conter a influência de socialistas e anarquistas nos movimentos operários. Mais do que isso, Getúlio Vargas disputou as lideranças sindicais contra esses grupos e para fazer essa disputa foi preciso, além da força e da coerção, fazer também algumas concessões. Em grande medida, a experiência mundial da social-democracia em diversas nações também se explica por essa dinâmica, em que o capital precisa de alguma forma negociar com a classe trabalhadora para afastar o socialismo de suas fileiras. Essa mesma dinâmica também explica em parte o chamado “estado de bem-estar social” [7], que vigorou em meados do século 20 e que o neoliberalismo se esmerou para erodir.


Desilusão e desconfiança

A América Latína recém-democrática dos anos 1980, 1990, 2000, encontra um outro cenário, diferente do getulismo e do meado do século 20, sem o socialismo no horizonte de expectativas e, justamente por isso, enfrentando um capitalismo muito mais predatório. Desse modo, para muitos latinoamericanos, a redemocratização se mistura à frustração, por conta de uma piora (ou mesmo estagnação) na qualidade de vida no período democrático. Esse sentimento, com o passar dos anos, se converte em desconfiança nas instituições democráticas.

Em dezessete países latino-americanos pesquisados pelo Latinobarómetro, a partir de meados dos anos 1990, apenas 1/5 do públco expressou “muita” ou “alguma” confiança em partidos políticos, e menos de 1/3 declarou confiar nos governos, parlamentos nacionais, nos funcionários públicos, na polícia e no judiciário. Estudos de casos individuais como o do México confirmam esses resultados. O panorama geral das novas democracias mostra, dessa forma, que nesse caso não está em questão uma crise de confiança política que, não logrou se enraizar em sua experiência recente, mas as dificuldades do novo regime para adensar a ligação orgânica entre os cidadãos e as estruturas de poder (…). Quando as instituições não contam com a confiança dos cidadãos, têm dificuldade para funcionar como mediação entre suas expectativas e os objetivos propostos por governos e por lideranças políticas (MOISÉS, 2005, p. 47-48).

Em países como o Brasil, com o passar dos anos essa desconfiança nas instituições democráticas se converte em um forte sentimento de saudosismo da ditadura. Esse sentimento passa a ser instrumentalizado politicamente e é o que, juntamente com outros fatores, como por exemplo o antipetismo, leva ao surgimento de uma nova extrema-direita que tem na figura de Jair Bolsonaro seu principal nome. Até então um político pouco relevante do chamado “baixo clero”, Bolsonaro é eleito presidente da República. Seu discurso antissistema (mesmo sendo ele próprio fisiológico desses sistema, com tantos mandatos parlamentares no currículo) e apologético ao autoritarismo conquistou as mentes de muitos que, descrentes das instituições democráticas, possivelmente tinham na frustração com a agenda neoliberal as raízes dessa descrença, ainda que nem sempre se perceba a coincidência entre os diferentes fatores geopolíticos aqui citados e a conjuntura que os une.

Portanto, para algumas pessoas que viveram os tempos da ditadura militar e que, a despeito do autoritarismo, encontraram naqueles tempos possibilidades como acesso a moradia, a educação e outros itens básicos, é possível que, em contraste com o atual estágio do capitalismo neoliberal predatório, afirmem e acreditem que “antigamente é que era bom”. O erro entretanto está na identificação do problema. E, quando se erra na identificação do problema, erra-se na propositura da solução. A democracia não é a culpada, mas sim a solução, pois é por meio dela que a sociedade pode lutar por representativdade nas instituições, para que as mesmas não continuem capturadas pelo capital e servindo de artífices do receituário neoliberal. Receituário contra o qual a escolha protofascista de Jair Bolsonaro não apresenta nenhuma solução concreta. Pelo contrário, o apologista da ditadura busca se alinhar ao neoliberalismo almejando uma governabilidade garantida pelos detentores de capital e de poder.


Referências:

MOISÉS, José Álvaro. A desconfiança nas instituições democráticas. Revista Opinião Pública, Campinas, v. XI, n. 1, março, 2005, p. 33-63. Disponível em <https://www.scielo.br/j/op/a/xymhYmLZdKYkpmDbwqzj44S/?format=pdf&lang=pt >


SANTOS, Adriano Pereira. O Brasil é socialista? In: Revisionismos: a universidade esclarece. São Paulo, Mentes Abertas, 2020.


SOUZA, André Luiz Coelho. O papel da sociedade e das instituições na definição das crises políticas e quedas de presidentes na América Latina. Monções, Revista de Relações Internacionais da UFGD, Dourados, v 2, n. 3, jan/junm 2013. Disponível em: < https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/moncoes/article/view/2694/1539>


[1] https://www.politize.com.br/neoliberalismo-o-que-e/


[2] https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2019/03/23/bolsonaro-no-chile-como-a-escola-de-chicago-transformou-pais-latino-americano-em-laboratorio-do-neoliberalismo.htm


[3] https://brasilescola.uol.com.br/geografia/consenso-washington.htm


[4] https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/consenso-washington.htm


[5] https://www.politize.com.br/neoliberalismo-o-que-e/


[6] https://agencia.fiocruz.br/consolida%C3%A7%C3%A3o-das-leis-trabalhistas-criada-por-vargas-completa-70-anos


[7] https://www.politize.com.br/estado-de-bem-estar-social-e-estado-liberal-diferenca/





terça-feira, 18 de janeiro de 2022

“Não olhe para cima” (ou "não olhe para o clima"): que provas são necessárias para tirar as pessoas da inércia e da negação?

Muita coisa já foi dita sobre “Não olhe para cima”, do diretor Adam McKay, lançado pela Netflix há algumas semanas. O filme conta a história de cientistas que descobrem um cometa que está em rota de colisão com a Terra. O impacto irá ocorrer dentro de pouco mais de seis meses e extinguir a humanidade. O longa-metragem soa original ao explorar um estilo “comédia catástrofe” que pouco se assiste por aí. Mas o que faz da produção um grande sucesso – o terceiro filme original mais assistido da Netflix até agora [1] –, é o modo como ela satiriza questões bastante atuais que têm marcado os últimos anos, no mundo e também no Brasil. 

O filme é uma metáfora da questão climática [2], possivelmente o maior desafio científico-político atual da sociedade global (apesar da excepcionalidade da pandemia de coronavírus). Leonardo DiCaprio, que interpreta o professor Randall Mindy, é também um ativista ambiental que frequentemente chama a atenção para a crise climática. A colisão com o cometa Dibiasky – que recebe esse nome em homenagem à pesquisadora Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), que é quem de fato descobre o corpo celeste – é portanto uma metáfora do colapso que as mudanças climáticas podem causar, com efeitos que já podem ser sentidos. Esse cometa-metáfora é, digamos, um pouco mais visualizável que o aquecimento global em si. E esse é o ponto que queremos abordar.

Misturados à trama há diversos elementos que representam a atualidade do contexto das relações entre ciência, política e mídia, o que faz com que “Não olhe para cima” traduza não só os problemas no âmbito da crise climática, mas também o cenário pandêmico e o campo científico de modo geral. O filme retrata satiricamente o negacionismo; a superficialidade do jornalismo, das redes sociais e da sociedade do espetáculo; a influência do capital privado na condução de assustos científicos por parte dos governos; as desigualdades no tratamento dispensado a homens brancos, homens negros e mulheres; o poder das big techs na captura e manipulação de nossos dados; a perda de autoridade dos processos e métodos científicos (como a revisão por pares) diante do peso dos algorítmos e do funcionamento do mundo digital. Por tudo isso, o filme é tão cativante e leva o espectador a fazer comparações entre passagens do roteiro e acontecimentos da vida real. 


O que Carl Sagan faria?

Logo no primeiro minuto do filme, o segundo plano detalhe nos mostra um bonequinho do astrônomo Carl Sagan, possivelmente o maior divulgador científico do século 20, autor de diiversos livros, idealizador e apresentador da primeira versão da popular série de TV Cosmos, em 1980 (meu objeto de pesquisa de mestrado – CAMPOS, 2019). “O que Carl Sagan faria?”, pergunta a sua equipe o professor Mindy, tentando absorver os primeiros dados sobre o cometa recém-descoberto, ainda sem noção da gravidade da situação. Não é nossa pretensão dizer o que Sagan faria nos estudos astronômicos, mas podemos refletir sobre como ele fez divulgação científica. 

Sagan fazia o que podia para, por meio de metáforas visuais, converter em imagens conceitos científicos difíceis de visualizar. É o que podemos ver em Cosmos, quando ele se vale de uma maçã e uma maquete simplória, feita com retalhos de papel, cartolina ou papelão, para explicar como seria a quarta dimensão [3]; ou quando o vemos subindo uma escada semelhante ao formato de uma representação do DNA, no Royal Botanic Garden (RU), pala falar sobre o funcionamento das plantas [4]; ou também quando ele assopra com um canudo uma bacia com água e sabão, formando bolhas, para mostrar mais ou menos como seria a forma das galáxias [5]. A engenhosidade de Sagan tentava driblar a precariedade dos recursos disponíveis naqueles tempos para estabelecer uma ponte entre nossa capacidade de cognição e a abstração de alguns modelos e conceitos científicos.


Metáfora e divulgação científica

As figuras de linguagem são uma ferramenta importante para, ao mesmo tempo, simplificar o conhecimento e aproximá-lo do senso comum. É o caso das metáforas. Há metáfora quando, por exemplo, as pontes de Einstein-Rosen são chamadas de “buracos de minhoca”. Essas pontes, de acordo com o estudo publicado em 1935 por Albert Einstein e Nathan Rosen, são parecidas com um túnel com duas extremidades separadas no espaço tempo ligando regiões espaciais distintas. O conceito às vezes é explorado em obras de ficção científica para justificar viagens no tempo, como no filme Interestelar (2014). “Buraco de minhoca” é uma forma de criar um tipo de visualização na cabeça do destinatário da informação em relação a algo que não pode ser visto. “Na metáfora, a associação se processa entre termos de dois campos semânticos distintos, advindo a assimilação entre os termos. Quanto maior a assimilação, melhor efeito causará” (RIBEIRO, 2012, p 368). 

"A existência de similitudes no mundo objetivo, a incapacidade de abstração absoluta, a pobreza relativa do vocabulário disponível, em contraste com a riqueza e a numerosidade das ideias a transmitir, e, ainda, o prazer estético da caracterização pitoresca, constituem as motivações da metáfora" (GARCIA apud RIBEIRO, 2012, p 368).

A divulgação científica funciona como um elo entre o público em geral e a produção de ciência. A metáfora é um de seus principais recursos. Para Dorothy Nelkin, um dos maiores propósitos da divulgação científica é “facilitar para as pessoas o acesso a um conhecimento especializado, já que, com frequência, se enfrentam decisões e eleições – tanto de repercussão pública como privada – que requerem certa compreensão científica” (apud LEÓN, 2010, p 29-30). Uma vez que ninguém pode ter conhecimento especializado sobre todas as coisas (nem mesmo os próprios cientistas), a divulgação científica surge para traduzir conhecimentos complexos, produzidos por aqueles que estão imersos em determinados segmentos de pesquisa, para outras pessoas que, direta ou indiretamente, são afetadas pela produção desses conhecimentos específicos. É, portanto, um modo discursivo que serve de plataforma para que as partes se entendam. 


Metáforas para visualizarem a crise climática

Já a segunda versão de Cosmos, apresentada por Neil deGrasse Tyson (que chegou a ser aluno da Carl Sagan), em 2014, dispôs de muito mais recursos visuais do que a versão original, devido aos avanços tecnológicos e às possibilidades da computação gráfica. Ainda assim, a engenhosidade em usar elementos simples para criar pequenas metáforas visuais, fazendo conceitos complexos ou abstratos parecerem mais paupáveis e visualizáveis, é perceptível e encantadora. Por exemplo, quando Tyson, para explicar a diferença entre “tempo” e “clima”, usa seu passeio com um cachorro em uma praia [6]. A sequência é tão boa que foi copiada por Felipe Castanhari na série de divulgação científica “Mundo Mistério”, da Netflix (e isso não é nenhum demérito, pois o que é bom merece ser copiado!). 

No mesmo episódio, que, assim como “Não olhe para cima”, aborda os riscos das mudanças climáticas, Tyson resume literalmente aquilo que Cosmos, enquanto um documentário científico, tenta fazer: traduzir o problema do aquecimento do planeta em imagem. “É uma pena que o CO2 seja invisível. Talvez se pudéssemos vê-lo. Se nossos olhos fossem sensíveis ao CO2...”. A fala do apresentador é o gancho para uma curta sequência em que o dióxido de carbono é representado por uma fumaça roxa, bastante visível, saindo de carros e aviões e tomando o horizonte de uma grande cidade [6]. “Se pudéssemos ver todo esse dióxido de carbono, deixaríamos a negação de lado e entenderíamos a magnitude de nosso impacto na atmosfera”, reforça Tyson.

São Tomé dizia que era preciso ver para crer. Tyson parte desse princípio ao discutir o negacionismo climático em 2014 e acredita que, quanto mais visualizável for o problema, maior a capacidade de convencimento a respeito da gravidade desse problema. “Não olhe para cima” parece partir da mesma ideia, só que de uma forma mais artística, porém mais cética, ou, ainda, mais desesperada. O filme trata da questão climática de forma alegórica, usando um cometa na direção da Terra como a alegoria. Essa é a metáfora visual. 

A relação entre o filme e a divulgação científica e seus atuais desafios é evidente, mas “Não olhe para cima” não é divulgação científica e sim cinema, arte. Portanto a metáfora pode ser muito mais elástica, com maior riqueza estética. E assim ela é. Se Cosmos transforma o CO2 em uma fumaça roxa, o filme de Adam McKay transforma as mudanças climáticas em um cometa gigante que está rasgando o céu, a cada dia mais visivel, vindo em nossa direção e prestes a arrebentar com tudo bem na nossa cara. Arrebentar comigo e com você! O que pode ser mais radicalmente visivel que isso?


Por mais que a gente mostre, o negacionismo parece maior

O problema é que o filme, mais do que Tyson na série Cosmos de 2014, parece entender que o negacionismo é um problema muito maior do que se imaginava. E nisso consiste o seu grande ceticismo (e pessimismo). Roteirizado às vésperas da pandemia, as dimensões do negacionismo ficaram ainda mais evidentes no contexto pandêmico, fazendo com que, por mais que a obra mire nas mudanças climáticas, ela possa ser muito bem interpretada usando o problema da covid-19 como parâmetro, incluindo a negação das máscaras, das vacinas, do isolamento social etc.  

Sendo assim, ainda que o filme use a alegoria do cometa como metáfora visual para tratar da questão climática, ele traz implícita a ideia (desesperadora) de que por mais visivel e tangível que uma prova seja, nem esfregando na cara de um negacionista ela é capaz de convencê-lo. Embora, no final do filme (atenção, spoilers!), muitos percebam que foram enganados, quando já é tarde demais.

Em um momento da trama em que se discutia quais as melhores estratégias para lidar com o cometa e se sua vinda era boa ou ruim (isso porque políticos, empresários e propagandistas [7] conseguiram convencer parte da população de que um cometa em rota de colisão com o planeta poderia ser uma coisa boa), havia muita gente que sequer acreditava na existência do tal cometa. Em um telejornal, quando perguntado pelos apresentadores se o cometa realmente existe, o professor Mindy perde a paciência: “Nós sabemos que o cometa existe porque temos dados. Nós o vimos com nossos próprios olhos, usando um telescópio, e ainda tiramos uma porcaria de uma foto dele. Que outra prova precisamos?”

Talvez essa seja a principal pergunta deixada pelo filme. Ou, perguntando de outras formas: quais seriam as provas necessárias para fazerem as pessoas saírem do estado de negação ou de inércia? O que é preciso ser esfregado na sua cara para te fazer mudar de opinião?


Internet, redes sociais e a perda das bases em comum

O professor Mindy segue na entrevista pragejando contra o contexto comuncacional e a nossa dificuldade de diálogo, em que cada vez mais bases que até então eram compartilhadas vão sendo erodidas: “Se nós não conseguimos concordar minimamente que um cometa do tamanho do Everest está vindo em direção à Terra, então estamos ferrados! Como ainda conseguimos nos comunicar? O que nós nos tornamos? Como vamos consertar isso?”

Para que possamos avançar nos diálogos e na produção de conhecimento, precisamos de bases em comum. Por exemplo, não dá para discutir sobre o funcionamento do GPS ou das circum-navegações (e olha que elas são bem antigas!) sem partir do entendimento de que a Terra é redonda. O problema é que cada vez mais os consensos vão ficando raros e as pessoas vão se isolando em bolhas de opinião que, de tão dispersas e distantes umas das outras, parecem transformar-se em verdadeiros buracos negros de cognição. E o diálogo fica impossível. É muito difícil avançarmos sem partirmos de alguns consensos já estabelecidos. 

Ao abordarmos essa nossa dificuldade em nos comunicar, não há como não refletirmos sobre os modos como as redes sociais favoreceram a criação de inúmeras bolhas ideológicas, que funcionam como verdadeiros universos paralelos que coabitam nas sociedades. “Não olhe para cima” não deixa  essa crítica escapar e também dispara sobre como o funcionamento dos algorítmos das redes sociais possibilita a disseminação de teorias conspiratórias das mais absurdas, que contribuem para o não entendimento de consensos científicos. E as mudanças climáticas antropogênicas (causadas pela ação do homem) são um consenso científico [8]. 

Para o historiador da ciência David Wootton, de forma irônica e contraditória, as novas tecnologias comunicacionais nos fizeram retornar à Idade Média em certo aspecto, pois as pessoas se dividiram em tribos, que reunem somente aqueles que possuem opiniões semelhantes. “É um processo no qual reforçam seus próprios preconceitos e suposições. E acham que quem discorda é irracional e mal intencionado. E o contato que acontecia entre pessoas de pontos de vista diferentes está acabando”. (WOOTTON, 2017). Ele prossegue:    

"A internet cria uma enchente de pontos de vista diferentes e você não consegue diferenciar o certo do errado, pois todos parecem igualmente convincentes na tela. (...) A fofoca está sendo transformada em opinião, e fica bem mais difícil distinguir argumentos bem fundados de preconceito. Acho que a internet está nos levando de volta a um mundo medieval no qual as histórias se espalham rapidamente, sejam verdadeiras ou falsas, e fica impossível descobrir de onde vieram e se são confiáveis" (WOOTTON, 2017).

Deixar de usar a internet e as redes sociais com certeza não é a solução. Mas ficam as perguntas do professor Mindy: Que provas precisamos apresentar? Como ainda conseguimos nos comunicar? O que nós nos tornamos? Como vamos consertar isso? “Não olhe para cima” não traz as respostas, mas ao menos faz as perguntas pertinentes de uma forma perspicaz e divertida, embora desperte um sorriso amarelado num tom de desespero. 


Referências:

CAMPOS, Alexandre Freitas. Cotidiano, imaginário e o discurso da ciência na série de TV Cosmos. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2019.

LEÓN, Benvenido (org). Ciencia para la televisión: el documental científico y sus claves. Barcelona: UOC, 2010.

RIBEIRO, Manoel P. Nova gramática aplicada da Língua Portuguesa: a construção de sentido de acordo com a nova gramática. Rio de Janeiro: Metáfora Editora, 2012, 21ª ed.

WOOTTON, David. Ideias do milênio: “A internet está nos levando de volta a um mundo medieval”. Consultor Jurídico. 10 jun 2017. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2017-jul-10/milenio-david-wootton-autor-breve-historia-fatos> Acesso em 14 jan 2022.


[1] https://olhardigital.com.br/2022/01/06/cinema-e-streaming/nao-olhe-para-cima-se-torna-o-filme-da-netflix-mais-visto-em-uma-unica-semana/

[2] https://www.legiaodosherois.com.br/2021/nao-olhe-para-cima-adam-mckay-tematicas.html

[3] https://www.youtube.com/watch?v=WMZNLy0hGEI

[4] https://www.youtube.com/watch?v=vUZJk7xkGWg

[5] https://www.youtube.com/watch?v=8tjr1uEFvNc

[6] https://pt-br.facebook.com/COSMOSNatGeoBrasil/videos/o-novo-mundo-livre-cosmos-s01e12-2014/592672854409958/ ou https://vimeo.com/153447904

[7] https://universoracionalista.org/alan-sokal-o-pior-inimigo-da-ciencia-nao-e-deus-sao-os-politicos-e-a-propaganda/

[8] https://socientifica.com.br/revisao-descobriu-falhas-em-todos-os-3-dos-artigos-cientificos-que-negam-as-mudancas-climaticas/



sábado, 8 de janeiro de 2022

O coach profeta no alto da montanha: religião e capitalismo

 

Logo na primeira semana de 2022, o Corpo de Bombeiros precisou resgatar um grupo de mais de 30 pessoas em Piquete, interior do estado de São Paulo [1]. O grupo tentava subir o Pico dos Marins, um dos mais altos do estado, em circunstâncias adversas (muito vento e chuva), capitaneado pelo coach Pablo Marçal. A empreitada arriscada fazia parte do curso vendido pelo coach na internet por cerca de R$ 3 mil. Os participantes do grupo haviam comprado o curso.

Mas quem é Pablo Marçal? As primeiras notícias publicadas na tentativa de elucidar essa pergunta dizem, por exemplo, que ele “se apresenta como mentor e estrategista digital” [2], o que diz muito mais sobre como ele quer ser visto do que sobre quem ele é de verdade (por exemplo, qual sua formação, trajetória, realizações...). Ainda como forma de explicar “quem é Pablo Marçal”, um de seus feitos mais ressaltados nas primeiras notícias é o de que ele possui 2 milhões de seguidores no Instagram. E isso diz muito sobre a noção de sucesso e autoridade no mundo digital: muita gente faz sucesso porque faz sucesso, ou seja, o grande número de seguidores no mundo digital nem sempre é decorrência de realizações fora do mundo digital, mas torna-se uma realização por sí só, que garante certa autoridade ao seguido. Sim, isso é bastante redundante. Marçal, como "estrategista digital", deve entender essa "lógica tautológica".     


Foco, força e fé na meritocracia

“Pra acabar com a malandragem tem que prender e comer todos os otários”, como nos diz o músico Jorge ben Jor em uma de suas canções. E eu fico me perguntando quem é pior, se o coach que colocou pessoas em risco levando-as a um pico perigoso em meio ao mau tempo, ou se as 32 pessoas que tiveram ingenuidade suficiente para pagar ao sujeito, comprar o seu curso e segui-lo montanha acima. 

Não sei qual lado está mais errado, mas os coaches são profetas de uma espécie de religião de mercado que, assim como as religiões propriamente ditas, também tem seus mitos. A meritocracia, por exemplo, é um deles. Claro que esforço individual é muito importante, mas os coaches trabalham essa ideia de forma extremista, negando aspectos sociais e a importância da luta política. É como se tudo pudesse ser resolvido à base de individualismo. 

Em um país em crise, com oportunidades cada vez mais escassas e uma mobilidade social bastante difícil, aumenta o número de pessoas desesperadas e sucetíveis à pregação dos falsos profetas que apontam o caminho do paraíso. Esse paraíso não é mais pós-morte (pra que esperar tanto em um mundo tão imediatista?), mas sim a obtenção da riqueza material em vida terrena mesmo. 


Dicas de leitura

O caso do coach Pablo Marçal e sua expedição irresponsável na montanha me lembra uma obra importante para entendermos nossos tempos, que deixo como dica de leitura. Chama-se “Como a picaretagem conquistou o mundo” [3], do jornalista britânico Francis Wheen. O livro inteiro é fabuloso, mas há um capítulo em que Wheen analisa como o modus operandi religioso permeia o universo simbólico de coaches, pirâmides, auto-ajuda etc. Esse simbolismo é bastante claro em algumas palestras de coaches, que funcionam de forma idêntica a cultos. 

A propósito, a ideia de subir uma montanha em busca de desenvolvimento pessoal não é novidade e tem raizes na religião. Sempre há um profeta buscando alguma transcendência no alto da montanha ou alguma palavra divina a ser revelada lá em cima. Ao que tudo indica, de acordo com o simbolismo judaico-cristão, há uma certa dificuldade em se desenvolver espiritualmente no plano. Fica a dica a todos os moradores do Distrito Federal, principalmente de Brasília, que não têm muito onde subir. 

O fenômeno dos coaches é algo recente, mas vale lembrar que a relação entre religião e capitalismo é bem mais antiga. Então, para quem quiser ir mais a fundo, minha segunda dica de leitura é “A ética protestante e o espírito do capitalismo” [4], de Max Weber. No livro, o autor trata sobre como a reforma protestante, mais ainda a burguesia calvinista, possibilitou o desenvolvimento do capitalismo na Europa (e daí disseminado para o mundo) a partir do século 16, correlacionando a ideia de elevação espiritual com as ideias de lucro e investimento. O homem ético e escolhido por Deus passa a ser, na perspectiva protestante, aquele que lucra e reinveste o lucro no próprio trabalho (em vez de gastá-lo com prazeres mundanos) para gerar ainda mais lucro, em um círculo vicioso no qual “dinheiro chama dinheiro”. “A ética protestante e o espírito do capitalismo” é até hoje um dos livros seminais da sociologia moderna e Weber é considerado um de seus pais fundadores. A obra é uma das mais importantes das ciências humanas. 


Referências:

WEBER. Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

WHEEN, Francis. Como a picaretagem conquistou o mundo. Rio de Janeiro: Record, 2004.

[1] https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2022/01/05/bombeiros-mobilizam-operacao-para-resgatar-turistas-no-pico-dos-marins.ghtml

[2] https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2022/01/08/quem-e-o-coach-que-colocou-32-pessoas-em-perigo-em-sp-e-cobra-quase-r-3-mil-por-curso-prefiro-que-voce-sofra-a-dor-do-desconforto.ghtml

[3] https://www.revistaamalgama.com.br/06/2009/como-a-picaretagem-conquistou-o-mundo/

[4] http://www.ldaceliaoliveira.seed.pr.gov.br/redeescola/escolas/18/1380/184/arquivos/File/materiais/2014/sociologia/A_Etica_Protestante_e_o_Espirito_do_Capitalismo_Max_Weber_-_Flavio_Pierucci.pdf



domingo, 31 de outubro de 2021

Superman bissexual, extrema-direta e liberalismo: mas como ficam os direitos das empresas?

Entro em uma rede social e vejo minha linha do tempo (TL) cheia de imagens do Super-Homem. Em algumas, ele beija a Mulher-Maravilha; em outras, está com a Lois Lane e segurando um bebê; e em algumas outras ele está com uma aparência mais jovem e beijando um garoto. Descubro então a nova polêmica: a DC Comics anunciou há poucas semanas que Jon Kent, filho de Clark Kent, irá se assumir bissexual em uma história que será lançada ainda neste ano [1]. 

Não é a primeira vez que a combinação entre homossexualidade/bissexualidade e quadrinhos gera polêmica no Brasil. Em 2019, um caso envolvendo uma revista da Marvel que continha uma cena de beijo entre dois personagens masculinos rendeu muita repercussão, e a Prefeitura do Rio, então comandada pelo bispo da Igreja Universal, Marcelo Crivella, foi acusada de censura [2].

Nos Estados Unidos, polêmicas sobre gays e super-heróis das HQ’s possivelmente são ainda mais antigas. Em 1954, o psicólogo Fredric Wertham publicou seu livro "Sedução do Inocente", alardeando o “perigo da disseminação da homossexualidade” por meio dos gibis. Seu principal alvo de críticas era a dupla Batman e Robin, que, diga-se de passagem, convive com a fama de gay desde aquela época até os dias de hoje. A obra de Wertham é a principal responsável por isso e, na ocasião, resultou na queima de gibis por todo o país. Eram tempos de Guerra Fria e os EUA viviam um clima de paranoia. A propósito, Wertham era mais um daqueles que viam comunismo e homossexualidade em tudo [3]. 

A polêmica da hora – Super-Homem bissexual – tem ainda um outro elemento, o jogador brasileiro de vôlei Maurício Souza. Após o anúncio da nova história da DC, o jogador fez um post de tom homofóbico, com a ilustração do beijo entre os jovens e a seguinte legenda: “A, é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar” [4].

O Minas Tênis Clube, onde atua o jogador, pressionado pelos patrocinadores Gerdau e Fiat, pede ao atleta que se retrate. Na “retratação”, em um típico caso em que a emenda saiu pior do que o soneto, Maurício reforça sua posição. E acaba demitido.


Reacionários e suas reações

Há muitas críticas à posição do jogador, mas também há aqueles que o apoiam alegando que ele tem direito a liberdade de expressão. As reclamações e argumentos deste segundo grupo chamaram a minha atenção. Sigo nas redes todos os deputados federais da bancada fluminense (RJ), incluindo os da direita conservadora, e vi que vários embarcaram na polêmica. Luiz Lima (PSL), em um post de apoio ao atleta, criticou o que chamou de “movimentos que pregam a liberdade e empatia, mas que na verdade plantam a discórdia”. Em outro post, acompanhando uma tirinha do Super beijando a Mulher-Maravilha, o deputado escreveu: “Viva a liberdade! Eu gosto de mulher” (e quem perguntou?). A mesma tirinha foi postada pela Major Fabiana (PSL), que fez críticas ao que chamou de “mídia oportunista” e “lacração”. Já Sóstenes Cavalcante (DEM) optou por uma imagem do Superman com Lois Lane e o filho do casal, ainda de colo (provavelmente o mesmo que viria a se assumir bissexual quando jovem), para escrever: “Sigo lembrando da nossa defesa dos valores cristãos e da família. Não nos ajoelharemos diante de pautas, definitivamente, políticas, do movimento LGBT”.




Primeiramente, cabe ressaltar a confusão contida na reação dos... reacionários (com o perdão da redundância). Para se contraporem a uma história em que o filho do Superman se revela bissexual, eles reiteram imagens que atestariam que o pai é hétero. Mas o que tem a ver? Ou será que não entenderam qual personagem que aparecerá beijando outro homem? Outra coisa estranha é falarem em defesa da família e dos valores cristãos, mas não se importarem com a replicação da imagem do Superman beijando sua colega de combates, a Mulher-Maravilha. Mas ele não é casado com a Lois?

Outra curiosidade é que nas declarações tanto de parlamentares quanto de demais pessoas que reagiram contra da história do herói e em favor do jogador Maurício, houve ataques genéricos contra a “lacração”, a “mídia lacradora”, “movimentos”, “esquerdistas” etc. Mas poucos focaram nos protagonistas do caso: Fiat, Gerdau, DC Comics e Minas Tênis Clube. Todos eles entidades privadas. 

Sendo assim, gostaria de propor uma visão mais pragmática da discussão. Não porque eu ache essa minha abordagem mais importante (muito pelo contrário), mas porque apelar para o respeito às minorias, aparentemente (e lamentavelmente), parece não surtir muito efeito com esse grupo conservador mais radicalizado da sociedade. Essa abordagem pragmática vai mais pelo caminho do marketing do que do direito.


Cidadãos, mas também consumidores

Se você não é capaz de entender o conceito de cidadania, ao menos entenda o conceito de consumidor. Ou seja, se para você é difícil ver que um outro cidadão, independentemente de sua orientação sexual, possui ou deve possuir os mesmos direitos que você e que, assim como você não quer sofrer nenhum tipo de discriminação, não deveria discriminá-lo, ao menos reconheça no outro um potencial consumidor, que participa da lógica do mercado, que trabalha e tem algum poder aquisitivo.      

Sim, essa perspectiva não é a ideal, pois a inclusão e a tolerância à diversidade não devem ser ditadas pelo poder de compra, mas pelo menos contribui para o entendimento de que, uma vez inseridos no mercado, como produtores e consumidores, grupos minoritários passam a fazer parte do público-alvo das empresas. Ou, quando não isso, empresas responsáveis socialmente buscam, no mínimo, uma relação respeitosa com a diversidade e pautada pela inclusão. 

Além disso, na medida em que os diversos grupos identitários avançam no campo dos direitos civis, começam a reivindicar também maior representatividade, por exemplo, na mídia e nas produções artísticas. É o que empresas gigantes do entretenimento como a Marvel e a DC Comics já entenderam. Elas têm literalmente se repaginado para se adequar e também representar uma sociedade mais plural. Pessoas que trabalham, possuem direitos e consomem também querem se ver nas histórias que passam pela mídia e povoam o imaginário.


Liberdade de expressão e relatividade dos direitos X livre iniciativa e gestão da imagem corporativa

Se você não é capaz de entender o conceito de relatividade dos direitos, ao menos entenda o princípio da livre iniciativa. Vejamos então. Todos os direitos são relativos, nenhum deles é absoluto. Isso significa que um direito é limitado, em algum caso concreto, por outro direito [5]. Uma pessoa tem direito à privacidade e à inviolabilidade da intimidade, mas o Judiciário pode autorizar a quebra de sigilo por meio de interceptação telefônica se essa pessoa for investigada em um caso de corrupção, por exemplo. 

Da mesma forma, a liberdade de expressão também é um direito relativo, que será limitado quando, por exemplo, se chocar com o direito à honra de uma outra pessoa, o que quer dizer que você não pode se valer de sua liberdade de expressão para denegrir ou discriminar um outro indivíduo. Ou seja, seu direito vai até onde começa os direitos dos outros. Nisso consiste a relatividade ou limitabilidade dos direitos fundamentais [6]. Curiosamente, muitas pessoas que parecem não entender como isso funciona e alegam uma liberdade de expressão irrestrita já acionaram ou ainda vão acionar a justiça reclamando terem sofrido injúria ou difamação. O que significa que, quando elas são o alvo, entendem a relatividade dos direitos rapidinho. 

Mas se essas ideias parecerem complexas demais, entenda o princípio da livre iniciativa, que consiste na liberdade dos cidadãos e das empresas participarem do mercado e gerirem seus negócios, o que significa vender e comprar produtos e serviços, negociar preço, tomar decisões administrativas etc. O empreendedorismo está na moda, correto? Pois a livre iniciativa inclui a liberdade de empreender.

Gerdau e Fiat decidem quem vão patrocinar e têm liberdade para deixar de patrocinar, se assim entenderem ser melhor, se entenderem que o grupo, entidade ou pessoa que recebe o patrocínio não se encaixa em suas missões e valores empresariais. Sabe aquela história de vestir a camisa da empresa? Pois então, quem não veste depois não pode reclamar. 

Da mesma forma, a DC Comics, enquanto uma gigante mundial do entretenimento, tem sua liberdade artística e de criação. A empresa entende que é hora de diversificar seus personagens, ser mais inclusiva e abrangente. Quem pode impedir isso? Por fim, o Minas Tênis Clube demitiu o jogador. Maurício usou de sua liberdade de expressão para fazer um juízo de valor negativo de todo um grupo de pessoas (o que inclui até companheiros de equipe). Em contrapartida, o clube usou sua liberdade para optar por uma demissão (pressionado por patrocinadores, claro). A livre iniciativa abrange o direito de demitir. Como fica o Minas Tênis Clube em seu direito de demitir? 


Extrema-direita em colisão com o liberalismo, a democracia, as relações de consumo e as práticas de mercado

Até o momento, Maurício Souza não foi processado. Portanto, tudo o que está ocorrendo com ele tem se dado dentro das relações de consumo e das práticas de mercado de um sistema capitalista que, frequentemente (e ironicamente), o mesmo grupo reacionário que agora defende o atleta gosta de enaltecer, com direito a mesma paranoia anticomunista de Fredric Wertham na década de 1950. As decisões até o momento se deram mais no terreno do marketing do que do direito.

Por isso adotei essa abordagem que considero pragmática. Eu gostaria de defender o direito que um ser humano tem de ser tratado com dignidade, o direito de ser cidadão, de ser diferente e ainda assim ser tratado como igual, de não ser retratado como pária por conta de credo, cor ou sexualidade, mas para uma parcela de pessoas que perderam a vergonha de serem preconceituosas, incluindo seus líderes políticos, esse discurso soa demodê, “politicamente correto”, parece não surtir muito efeito. 

Então ao menos que entendam o direito das empresas de criar, patrocinar e demitir. Que entendam que elas têm autonomia para gerir suas imagens corporativas conforme diretrizes de responsabilidade social. Não foi a “a lacração”, não foi “o movimento”. Foram as empresas, foi a iniciativa privada! A polêmica envolvendo o novo Super-Homem bissexual, filho de Clark Kent, mostra o que já sabemos faz tempo: a extrema-direita conservadora brasileira não tem problemas somente com o socialismo, como adoram bradar, mas também com o próprio liberalismo e os valores e mecanismos desenvolvidos por ele para que haja democracia e para que não se instale o que Alexis de Tocqueville chamou de “tirania da maioria” [7 e 8] e apontou como um risco para o estado democrático de direito e para as liberdades individuais. 

Na mesma semana da polêmica demissão de Maurício relacionada à nova HQ, Monark, apresentador do Flow Podcast, perdeu o patrocínio dado ao seu programa pelo iFood [9]. Não por homofobia, mas por posicionamentos que foram interpretados como racistas. Em sua rede social, Monark havia questionado se uma opinião racista deve mesmo ser considerada crime, demonstrando a mesma visão distorcida de liberdade de opinião/expressão como algo irrestrito e não compreendendo a relatividade dos direitos fundamentais, que é o que prevalece no direito brasileiro. Talvez seja a hora de Monark vestir a camisa das empresas que o patrocinam. Aquela coisa de mudar o mindset... 

De certo modo, a extrema-direita se chocou com o capital por causa do Super-Homem. Ao menos o senador Flávio Bolsonaro está sendo mais franco e propondo boicote a Gerdau e Fiat [10], não se limitando a evasivas contra “a esquerda”, “os lacradores” e “a mídia”. Quem tiver carro da Fiat e quiser se desfazer dele como forma de desagravo à empresa, pode passa-lo para o meu nome porque estou aceitando.


Referências:

[1] https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/entretenimento/geek/jon-kent-o-novo-superman-se-assumira-bissexual-confirma-dc-1.3146506

 

[2] https://www.terra.com.br/diversao/arte-e-cultura/crivella-recolhe-hq-com-beijo-gay-e-manda-fiscais-a-bienal,386bfc295fc3f9f478dc2156c4fd33bbohu19ly5.html

 

[3] https://super.abril.com.br/cultura/o-doutor-que-odiava-herois/

 

[4] https://www.purepeople.com.br/noticia/mauricio-souza-e-demitido-de-clube-entenda-a-polemica-que-dividiu-opinioes-de-famosos_a329670/1

 

[5] https://www.institutoformula.com.br/resumo-esquematizado-de-direito-constitucional-caracteristicas-dos-direitos-fundamentais/

 

[6] https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/6383/Liberdade-de-expressao-e-relativizacao-dos-direitos-fundamentais

 

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Tirania_da_maioria

 

[8] https://www.youtube.com/watch?v=-FZtKVTGvzY

 

[9] https://olhardigital.com.br/2021/10/29/internet-e-redes-sociais/ifood-rompe-patrocinio-com-o-flow-podcast-apos-tuites-de-monark/

 

[10] https://br.noticias.yahoo.com/ap%C3%B3s-demiss%C3%A3o-jogador-maur%C3%ADcio-souza-173435469.html


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Os riscos do projetismo


Você já experimentou um projeto? Eles estão por aí. Pode ser um podcast, um grupo de humor, montar uma banda, escrever um livro, criar uma página em rede social ou canal no Youtube. Os projetos funcionam melhor entre as elites, que normalmente podem se dedicar a eles sem complicação. Em muitos casos, é até saudável ter um projeto. 

Mas o projetismo se torna um problema nas camadas populares, em que os indivíduos precisam de um emprego e de uma mínima estabilidade para dar conta de suas necessidades básicas e pagamento de boletos. Entre os jovens de periferia, os projetos são ainda mais perigosos. Em casos mais graves, alguns se envolvem até com curta-metragens, destinados a circuitos alternativos de exibição, ironicamente concentrados em áreas nobres que ficam distantes de onde eles e seus familiares residem. 

Mas por que tantas pessoas, principalmente aquelas mais jovens, recorrem a projetos? E, mais do que isso, por que muitas criam dependência? Não se sabe ao certo, mas estudos apontam que ao aderir a um projeto e se dedicar a ele, a pessoa experimenta a sensação de ser ela mesma, sente que está fazendo algo inteiramente integrado a sua própria vontade, ao seu jeito de ser, às suas aptidões (ou às aptidões que ela julga ter). 

A sensação de ser você mesmo é muito viciante e, para alguns, que não estão aptos a senti-la, pode se tornar um risco. Muitos acabam embarcando numa espécie de “bad trip”. Uma amiga de bairro, por exemplo, decidiu ser escritora. Ela não tinha nenhum contato no mercado editorial e nenhuma aproximação com o círculo literário, mas se sentia bem usando literatura, que às vezes consumia misturada à poesia. Publicou um livro por meio dessas editoras que cobram do próprio autor. Imprimiu mil cópias, mas só vendeu cinco. Em um dia muito louco de bad trip, fez uma fogueira com os outros 995 exemplares e se atirou em cima. Foi salva pela família.

Desde então, passou um tempo internada numa dessas clínicas de reabilitação de ex-projetistas. Nessas casas é feito um trabalho que inclui cursos técnicos e profissionalizantes, horas de estudo para concurso público, leitura em grupo de edital de concurso, dentre outras atividades que ressocializem o indivíduo na ponta da prestação de um serviço ou no chão da fábrica. Os mais sortudos saem das clínicas já empregados.      

Projetismo: chique e descolado para uns; perigoso para outros! 

PS: se você está envolvido com algum projeto, procure a ajuda de um especialista. Converse com os seus familiares. Saiba dosar os riscos e benefícios. Em alguns casos, se alguém te oferecer um projeto, não tenha vergonha em dizer não!


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Freixo no Flow: uma falácia armamentista analisada a partir do conceito de tecnologia

Na semana passada o deputado Marcelo Freixo esteve no Flow Podcast, apresentado por Monark e Igor. Em certo ponto da entrevista, o assunto foi a flexibilização das armas de fogo [1]. O deputado é conhecdo, dentre outras razões, por ter um posicionamento contrário à flexibilização. Monark o questionou dizendo que o problema não são as armas em si, mas as intenções das pessoas. Na visão do apresentador, quem quer matar outra pessoa mata até com um automóvel.

Monark: - Por que você confia que eu tenha um carro e não confia que eu tenha uma arma?

Freixo: - Por que o carro foi feito para dirigir.

Monark: - Mas serve para matar.

Freixo: - Você sai com o carro procurando alguém para atropelar?

Monark: - Você sai com a arma procurando alguém para matar?

Freixo: - Sai com a arma para que? Para dirigir?

Não é a primeira vez que comparações desse tipo são usadas nesse contexto. Frequentemente aqueles que pedem maior flexibilização do uso de armas de fogo as comparam com outros utensílios para defender essa posição. Aqui pretendo mostrar de que modo armamentistas lançam mão de uma falácia lógica conhecida como “falsa equivalência” [2]. Chamo de “armamentistas” aqueles que defendem, de modo geral, maior facilidade na compra, venda e aquisição das armas de fogo.

Em janeiro de 2019, tivemos um outro exemplo da falsa equivalência: o ministro da Casa Civil Onix Lorenzoni comparou armas de fogo a liquidificadores. Na perspectiva dele, o risco para uma criança de alguém manter uma arma de fogo em casa equivaleria ao risco de a mesma criança se acidentar com um liquidificador. Segundo o ministro, evitar acidentes é uma questão de “educação” e “orientação”.

“A gente vê criança pequena botar o dedo dentro do liquidificador e ligar o liquidificador e perder o dedinho. Então, nós vamos proibir os liquidificadores? Não.”, disse Lorenzoni [3]

Assim como Monark, o ministro comparou a arma de fogo a um outro utensílio, neste caso, a um eletrodoméstico. Além de falaciosa, a comparação desconsidera alguns dados, como o número de acidentes e de mortes envolvendo armas de fogo e liquidificadores nos Estados Unidos entre 2011 e 2014 [4]. No período, o número anual de mortes somente de crianças por armas de fogo foi de 1.290, enquanto que por conta de acidentes domésticos envolvendo liquidificadores foi de zero!

Monark, Lorenzoni e tantos outros que pedem mais facilidade na circulação de armas ignoram também a posição da maioria dos especialistas em segurança pública no Brasil e a grande maioria dos estudos mundiais que – para usar uma palavra pertinente ao tema – “municiam” com os melhores embasamentos Freixo e os demais que pedem restrições às armas. Esses estudos apontam correlação entre mais armas e mais crimes e mortes [5]

Poderia não ser um carro ou um liquidificador, mas qualquer outra coisa, como um ferro de passar roupa ou cacos de vidro. Essa estratégia retórica pode ser resumida nas seguintes frases: “Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas”. Frequentemente essas frases são repetidas pelos defensores das armas para ressaltar que quem quer matar vai matar de qualquer jeito, utilizando qualquer coisa. De fato, é possivel matar com um ferro de passar ou um caco de vidro (com liquidificador, creio ser bem mais complicado). Os inúmeros casos de atropelamentos que resultaram em mortes mostram que o carro também pode ser uma arma letal. Sendo assim, essas comparações portanto são pertinentes, fazem sentido, certo?


O conceito de tecnologia

Errado! Primeiro, porque as comparações desconsideram o próprio conceito de tecnologia, que é um produto da ciência e da engenharia que envolve um conjunto de instrumentos, métodos e técnicas que visam a resolução de problemas. Uma aplicação prática do conhecimento científico, nas mais variadas áreas do saber, para resolver coisas específicas .

Como explica o sociólogo Alan Mocellin, a tecnologia envolve um conjunto de práticas visando a execução de um determinado fim. “A tecnologia tem como seu horizonte totalizante o discurso científico, sendo derivação prática desse discurso” (2015, p. 83). Ou seja, ela é a face prática da ciência, quando você pega um conjunto de saberes e aplica para criar coisas ou procedimentos que possibilitem a resolução de algo concreto.

A palavra tecnologia vem do grego "tekhne", que significa "técnica, arte, ofício", juntamente com o sufixo "logia", que significa "estudo" [6]. Quando pensamos em tecnologia, costumamos imaginar coisas “modernosas”, como satélites e computadores, mas as tecnologias são desenvolvidas pelos homens desde tempos primórdios. As tecnologias primitivas ou clássicas, por exemplo, envolvem a descoberta do fogo, a invenção da roda, a escrita, dentre outras.

Nessa perspectiva, dentro do conceito e da filosofia da tecnologia, podemos concluir que a melhor maneira de executar uma tarefa costuma ser, via de regra, usando os objetos projetados especificamente para a tal tarefa. Por exemplo, você pode cortar um queijo com uma faca de pão? Claro que sim. Mas um cortador de queijo corta as fatias com mais precisão e praticidade, porque foi projetado exatamente para isso. Da mesma forma, você até pode beber água em um prato, mas no copo fica muito melhor e mais fácil. O prato serve melhor para coisas sólidas, não líquidas. E você sabe bem disso.

Parece óbvio, correto? Mas quando armamentistas usam da falsa equivalência para comparar armas de fogo a qualquer outra coisa que lhes venha à cabeça, parecem ignorar esse conceito básico. Mas apenas parecem. Eles não ignoram de fato. A falácia da falsa equivalência é apenas (como toda falácia) uma estratégia retórica usada para ludibriar os interlocutores (aquelas pessoas para quem eles falam). E aí vem o nosso segundo ponto: se os defensores das armas realmente acreditassem nas comparações que fazem, não precisariam defender a flexibilização das armas, bastariam usar um ferro de passar, cacos de vidro ou um carro.

Mas eles continuam a defender a flexibilização das armas de fogo, mesmo tendo acesso a coisas e objetos, segundo eles, também letais. Continuam justamente porque sabem que as armas têm vantagem competitiva na finalidade para a qual foram projetadas (alvejar e até matar) quando comparadas a outros artefatos. Só que é justamente essa vantagem competitiva que leva à necessidade de maior regulamentação das armas em relação a tantas outras coisas que você pode comprar com facilidade por ai. O grau de letalidade da arma é o que justifica sua maior regulamentação.

O próprio Monark da exemplo dessa estratégia retórica enganadora e do quanto ele próprio no fundo não acredita nela. Ele diz que quer adquirir uma arma e argumenta que é para a própria proteção. Logo em seguida, compara armas de fogo e automóveis para se contrapor às restrições. Ora, se ele já tem um carro, então não precisa de uma arma. Se não tem, pode comprar um. Como poderia comprar qualquer outra coisa. Não precisaria defender a flexibilização de armas. E assunto encerrado!

Mas isso se ele realmente acreditasse na comparação que faz. Armamentistas não acreditam, de fato, nas comparações absurdas que fazem. Como dissemos, é pura estratégia retórica.


A tecnologia em 2001- Uma odisseia no espaço

Conforme dito, a tecnologia acompanha o homem há muitos anos, e o filme 2001- Uma odisseia no espaço (1968), do diretor Stanley Kubrick, traz boas reflexões sobre o assunto. Esse clássico do cinema nos faz pensar sobre os seus usos desde os primórdios hominídeos até as naves espaciais desenvolvidas por nós, Homo sapiens. Em uma sequência maravilhosa [7] (que provavelmente mesmo aqueles que nunca assistiram ao filme conhecem), vemos um macaco segurando um grande osso. Ele para, pensa, olha para o osso, olha para o chão, bate o osso no chão, bate com o osso em outros pedaços de ossos que estavam espalhados pelo chão e que se quebram com a pancada. O macaco parece ter uma espécie de revelação!

Extasiado, o animal estava naquele momento descobrindo que aquele pedaço grande de osso que em sua mão poderia ser usado para quebrar coisas e também como arma, para ferir e abater outros animais. Era o início do uso da tecnologia, um passo a mais no estágio evolutivo da espécie da qual mais tarde decorreriam os humanos. Vemos na cena o macaco pensando, usando o seu saber – ainda que um saber limtado – testando o osso como ferramenta. Cada pequena pancada era um teste. A verificação por meio de testes seriam uma forma rudmentar de fazer ciência, para finalmente chegar ao domínio de uma nova tecnologia.

E essa nova tecnologia viria a ser usada em maior escala na cena seguinte. Em um conflito entre dois grupos de macacos, aquele cujos membros estavam com ossos nas mãos usando-os como armas levou a melhor.Eles bateram em seus adversários e dominaram o território. A sequência termina com um dos vencedores jogando o osso/arma para o alto, que praticamente se transforma em uma nave espacial. Talvez a elipse mais famosa da história do cinema, simbolizando todo o desenvolvimento tecnológico dos primórdios até o que havia de mais moderno naquela década. A história da humanidade em dois planos.

Da pré-história para os tempos atuais, as diversas tecnologias foram se desenvolvendo, inclusive na área bélica, com armas cada vez mais modernas. Na Idade Média, por exemplo, usava-se arco e flechas, bestas, espadas e catapultas. As pessoas já matavam umas as outras antes das armas de fogo e do desenvolvimento da pólvora, mas elas sempre preferiram aquilo que a tecnologia oferecia de melhor para esta finalidade em suas épocas. Isso é óbvio e faz sentido. O que não faz sentido são as comparações esdrúxulas feitas pelos armamentistas atuais. Sendo assim, o óbvio precisa ser dito, e este texto se presta ao óbvio. As falácias confundem o debate público, e a combinação de falácia lógica e políticas públicas é um perigo!

Nossos precursores Homo habilis receberam esse nome por desenvolverem habilidades no uso e fabrico de utensílios para fins específicos, como a caça e o combate. Tiveram o domínio e o entendimento da tecnologia. Estamos em 2021 e alguns Homo sapiens, quando fazem comparações entre armas e carros, parecem desconsiderar aquilo que os Homo habilis já sabiam há cerca de 1 milhão de anos. Involuímos?


Referências:

MOCELLIM, Alan. Comunicação e Reencantamento: retórica ou possibilidade?. Esferas, v. 6, p. 79-87, 2015


[1] Cortes do Flow – Debate sobre a diferença entre posse e porte de armas:

https://www.youtube.com/watch?v=DqyvScF9hK0


[2] Falsa equivalência:

http://gestaouniversitaria.com.br/artigos/falsa-equivalencia


[3] Arma em casa é risco para criança tanto quanto liquidificador, compara Onyx https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/15/arma-em-casa-e-risco-para-crianca-tanto-quanto-liquidificador-compara-onyx.ghtml


[4] Comparações de acidentes e mortes por armas de fogo e com liquidificadores:

https://www.consumerreports.org/cro/news/2013/02/blender-injuries-stir-up-more-visits-to-the-emergency-room/index.htm?fbclid=IwAR06j2XaIVxO22f6lPWAqRm_g-0JMeOtWulCbNS3_kOLQpYZqVhYn4deEYE


https://edition.cnn.com/2017/06/19/health/child-gun-violence-study/index.html


[5] Armas, crime, morte: o peso da evidência:

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2019/01/18/armas-crime-morte-o-peso-da-evidencia


[6] Significado de tecnologia

https://www.significados.com.br/tecnologia-2/


[7] O pensamento e a descoberta da ferramenta "2001: Uma Odisseia no Espaço":

https://www.youtube.com/watch?v=9etefsYMm5o



terça-feira, 3 de agosto de 2021

O sudestino do Porta dos Fundos e a invenção do Nordeste

 

Há cerca de duas semanas o grupo humorístico Porta dos Fundos lançou um vídeo chamado “Sudestino”, satirizando as generalizações e estereótipos por meio dos quais as pessoas do Nordeste são vistas e retratadas, principalmente pelo povo do Sul e Sudeste. A sacada da esquete foi justamente fazer uma inversão: um paulistano recém-chegado em Recife é recebido por dois moradores locais, que logo começam a usar e abusar de generalizações, como se mineiro, carioca, paulista e até paranaenses e gaúchos fossem tudo a mesma coisa.

A graça está justamente na inversão. Os moradores do Sul e Sudeste são os que sofrem estereótipos na esquete, o que faz com que estes, por poucos momentos, se coloquem e se sintam no lugar das pessoas que vivem nos estados nordestinos. Temos aqui um exemplo de carnavalização bakhtiniana, no sentido de uma quebra da ordem social com inversão de papéis, criando uma realidade paralela humorística e paródica [1]. Obviamente, o vídeo faz rir e também traz certa reflexão e crítica social, assim como tantos exemplos que as produções humorísticas nos oferecem. 

O roteirista do vídeo, o potiguar Edu Araújo, explica que a ideia da esquete foi inspirada no sentimento que ele próprio carrega: "Quando entrei no Porta, a Márcia Zanelatto, que era chefe da sala de roteiro, me disse: onde te dói? Acesse sua dor. O humor vem disso. A gente pega um pouco da raiva que sente do mundo e joga nele. Ele é uma crônica. A esquete nasceu justamente desse incômodo com a naturalização dessa generalização.", conta Edu [2].

O roteirista cita como uma de suas referências para e a esquete o livro “A invenção do Nordeste e outras artes”, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. Na pesquisa, o historiador analisa como a visão estereotipada e generalizada do Nordeste foi criada e ganhou o Brasil. Apesar de ter seu trabalho servindo como fonte de inspiração, Durval fez críticas ao vídeo, pois reforçaria as imagens de “nordestino ignorante” e do paulista como detentor da intelectualidade [3].

Críticas à parte, o vídeo viralizou e dividiu opiniões. Teve gente que se reconheceu na piada, admitindo usar generalizações em relação àqueles que vêm da região Nordeste. E, claro, teve também quem não gostou da piada. O filósofo Henry Bugalho faz uma análise interessante, do vídeo, da reação provocada por ele e de como a mídia e a industria cultural costumam consolidar estereótipos [4].  

Vale, entretanto, focarmos no Nordeste, em busca das origens desse imaginário que predomina no Brasil a respeito da região, que inclui signos como seca e Caatinga, além de generalizações de sotaques e expressões. Essa é nossa intenção neste artigo e, para isso, o trabalho de Durval Muniz de Albuquerque Jr. é a nossa base.      


A invenção do Nordeste

A ideia de Nordeste não existia até o início do século 20. Ela não figurou no Brasil Colônia ou no Brasil Império [5]. Ao longo da década de 1920, no entanto, esse conceito começa a ser desenvolvido e a ganhar um conjunto de sentidos e significados, por conta de intelectuais e políticos, sujeitos a quem o conceito de Nordeste, enquanto recorte espacial e cultural, interessava por razões políticas e econômicas. A elite nordestina estava em declínio, então viu a necessidade de demarcar uma região do país para sedimentar seu domínio. Uma forma de entrincheiramento político e econômico. O Nordeste surgiu então como um modo de se criar um nicho. 

O conceito unificado de Nordeste e do nordestino surge quando essas elites, ligadas ao açúcar, pecuária e algodão, perdem a nação para as elites do Centro-Sul. Isso vinha acontecendo por conta do processo de industrialização e expansão do capitalismo. A ideia de Nordeste, conforme explica o historiador, surge de forma reacionária e conservadora para se contrapor às transformações pelas quais o país passava com o fim da escravidão e a modernização capitalista [6]. 

Essa ideia de um Nordeste generalizado começa a ser gestada em Recife, com o movimento regionalista. Em 1924 é formado o Centro Regionalista do Nordeste, por Gilberto Freyre. De acordo com Durval, o livro “Nordeste”, de Freyre, é uma certidão de nascimento do Nordeste, em 1937. Outra obra importante é “O outro Nordeste”, patrocinado por Gilberto Freyre e escrito por DJacir Menezes, em 1938. 

São essas elites que vão cercar o espaço que entendemos como Nordeste, dotando-o de símbolos que formam todo um imaginário generalizante, para exercer o domínio econômico, político e cultural sobre esse espaço. Este último domínio, o cultural, é o que vai veicular essa construção de Nordeste, difundindo todo o imaginário que se popularizaria. Alguns elementos de sua formação são aquelas primeiras coisas que pensamos quando pensamos no Nordeste:  seca, Caatinga, semiárido, êxodo, retirada, cangaço, coronelismo, beato. 

Só que dentro do recorte genérico de Nordeste enquadra-se toda uma diversidade cultural. Esse conflito entre diversidade e generalização é antigo e ocorre desde a “invenção do Nordeste”, lá pela década de 1920, o que, inicialmente, levou a alguns problemas e divergências entre correntes de representação. A intelectualidade pernambucana difundia o Nordeste litorâneo e da cana-de-açúcar. A intelectualidade cearense difundia o Nordeste interiorano e da seca. A segunda prevaleceu sobre a primeira por conta da seca, usada como argumento para as elites locais conseguirem verbas, obras e recursos. Portanto, do ponto de vista político e econômico, o Nordeste árido, das secas, era mais vantajoso. 

Outro problema da generalização da ideia de Nordeste para abarcar tamanha diversidade é desvelado quando se vê que os nordestinos dos diversos estados se identificam uns com os outros e como nordestinos bem mais fora do Nordeste do que dentro. O conceito vai se enraizando na população a partir dos anos 30, por conta da migração. Fora do Nordeste, os nordestinos têm em comum principalmente o fato de serem trabalhadores pobres e terem vindo dessa região.

O vídeo do Porta dos Fundos faz uma crítica aos “sudestinos”, mas, conforme vimos, vale acrescentar que a generalização das sociedades e culturas da região Nordeste como algo de identidade única não foi criada pelo Sul ou Sudeste, mas pelas elites – intelectual, política e econômica – do próprio Nordeste. É um movimento de dentro para fora da região, não o contrário. Claro que isso serve como acréscimo, mas não invalida a brincadeira proposta pelo vídeo. Afinal, se a generalização e alguns estereótipos foram criados no próprio Nordeste, as sociedades do Sul e Sudeste trataram de repercutí-los e consolidá-los, carregá-los de preconceitos. Piadas como a do grupo humorístico servem para nos fazer pensar sobre o modo como agimos. E, claro, para nos fazer rir. 


Referências:

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A Invenção do nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011.


[1]Conceito de carnavalização, segundo Mikhail Baktin: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/carnavalizacao/


[2] [3] 'Tratei o estereótipo com deboche', diz autor de 'Sudestino:

https://www.terra.com.br/diversao/tratei-o-estereotipo-com-deboche-diz-autor-de-sudestino,78cb5b6d777f96ec471a1e5bbab85949s1pjagl1.html


[4] Henry Bugalho analisa o vídeo do Porta dos Fundos:

https://www.youtube.com/watch?v=YLdalkImi4g


[5] Entrevista com o historiador Durval Muniz de Albuquerque conferida ao Café Filosófico abordando seu livro, "A invenção do Nordeste":

https://www.youtube.com/watch?v=Zf-GUxNpiYA


[6] A TV Afiada apresenta a primeira parte da entrevista especial com o professor Durval Muniz Albuquerque Júnior, autor do livro "A invenção do Nordeste e outras artes":

https://www.youtube.com/watch?v=t_Z_e-EK19Y


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