domingo, 31 de outubro de 2021

Superman bissexual, extrema-direta e liberalismo: mas como ficam os direitos das empresas?

Entro em uma rede social e vejo minha linha do tempo (TL) cheia de imagens do Super-Homem. Em algumas, ele beija a Mulher-Maravilha; em outras, está com a Lois Lane e segurando um bebê; e em algumas outras ele está com uma aparência mais jovem e beijando um garoto. Descubro então a nova polêmica: a DC Comics anunciou há poucas semanas que Jon Kent, filho de Clark Kent, irá se assumir bissexual em uma história que será lançada ainda neste ano [1]. 

Não é a primeira vez que a combinação entre homossexualidade/bissexualidade e quadrinhos gera polêmica no Brasil. Em 2019, um caso envolvendo uma revista da Marvel que continha uma cena de beijo entre dois personagens masculinos rendeu muita repercussão, e a Prefeitura do Rio, então comandada pelo bispo da Igreja Universal, Marcelo Crivella, foi acusada de censura [2].

Nos Estados Unidos, polêmicas sobre gays e super-heróis das HQ’s possivelmente são ainda mais antigas. Em 1954, o psicólogo Fredric Wertham publicou seu livro "Sedução do Inocente", alardeando o “perigo da disseminação da homossexualidade” por meio dos gibis. Seu principal alvo de críticas era a dupla Batman e Robin, que, diga-se de passagem, convive com a fama de gay desde aquela época até os dias de hoje. A obra de Wertham é a principal responsável por isso e, na ocasião, resultou na queima de gibis por todo o país. Eram tempos de Guerra Fria e os EUA viviam um clima de paranoia. A propósito, Wertham era mais um daqueles que viam comunismo e homossexualidade em tudo [3]. 

A polêmica da hora – Super-Homem bissexual – tem ainda um outro elemento, o jogador brasileiro de vôlei Maurício Souza. Após o anúncio da nova história da DC, o jogador fez um post de tom homofóbico, com a ilustração do beijo entre os jovens e a seguinte legenda: “A, é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar” [4].

O Minas Tênis Clube, onde atua o jogador, pressionado pelos patrocinadores Gerdau e Fiat, pede ao atleta que se retrate. Na “retratação”, em um típico caso em que a emenda saiu pior do que o soneto, Maurício reforça sua posição. E acaba demitido.


Reacionários e suas reações

Há muitas críticas à posição do jogador, mas também há aqueles que o apoiam alegando que ele tem direito a liberdade de expressão. As reclamações e argumentos deste segundo grupo chamaram a minha atenção. Sigo nas redes todos os deputados federais da bancada fluminense (RJ), incluindo os da direita conservadora, e vi que vários embarcaram na polêmica. Luiz Lima (PSL), em um post de apoio ao atleta, criticou o que chamou de “movimentos que pregam a liberdade e empatia, mas que na verdade plantam a discórdia”. Em outro post, acompanhando uma tirinha do Super beijando a Mulher-Maravilha, o deputado escreveu: “Viva a liberdade! Eu gosto de mulher” (e quem perguntou?). A mesma tirinha foi postada pela Major Fabiana (PSL), que fez críticas ao que chamou de “mídia oportunista” e “lacração”. Já Sóstenes Cavalcante (DEM) optou por uma imagem do Superman com Lois Lane e o filho do casal, ainda de colo (provavelmente o mesmo que viria a se assumir bissexual quando jovem), para escrever: “Sigo lembrando da nossa defesa dos valores cristãos e da família. Não nos ajoelharemos diante de pautas, definitivamente, políticas, do movimento LGBT”.




Primeiramente, cabe ressaltar a confusão contida na reação dos... reacionários (com o perdão da redundância). Para se contraporem a uma história em que o filho do Superman se revela bissexual, eles reiteram imagens que atestariam que o pai é hétero. Mas o que tem a ver? Ou será que não entenderam qual personagem que aparecerá beijando outro homem? Outra coisa estranha é falarem em defesa da família e dos valores cristãos, mas não se importarem com a replicação da imagem do Superman beijando sua colega de combates, a Mulher-Maravilha. Mas ele não é casado com a Lois?

Outra curiosidade é que nas declarações tanto de parlamentares quanto de demais pessoas que reagiram contra da história do herói e em favor do jogador Maurício, houve ataques genéricos contra a “lacração”, a “mídia lacradora”, “movimentos”, “esquerdistas” etc. Mas poucos focaram nos protagonistas do caso: Fiat, Gerdau, DC Comics e Minas Tênis Clube. Todos eles entidades privadas. 

Sendo assim, gostaria de propor uma visão mais pragmática da discussão. Não porque eu ache essa minha abordagem mais importante (muito pelo contrário), mas porque apelar para o respeito às minorias, aparentemente (e lamentavelmente), parece não surtir muito efeito com esse grupo conservador mais radicalizado da sociedade. Essa abordagem pragmática vai mais pelo caminho do marketing do que do direito.


Cidadãos, mas também consumidores

Se você não é capaz de entender o conceito de cidadania, ao menos entenda o conceito de consumidor. Ou seja, se para você é difícil ver que um outro cidadão, independentemente de sua orientação sexual, possui ou deve possuir os mesmos direitos que você e que, assim como você não quer sofrer nenhum tipo de discriminação, não deveria discriminá-lo, ao menos reconheça no outro um potencial consumidor, que participa da lógica do mercado, que trabalha e tem algum poder aquisitivo.      

Sim, essa perspectiva não é a ideal, pois a inclusão e a tolerância à diversidade não devem ser ditadas pelo poder de compra, mas pelo menos contribui para o entendimento de que, uma vez inseridos no mercado, como produtores e consumidores, grupos minoritários passam a fazer parte do público-alvo das empresas. Ou, quando não isso, empresas responsáveis socialmente buscam, no mínimo, uma relação respeitosa com a diversidade e pautada pela inclusão. 

Além disso, na medida em que os diversos grupos identitários avançam no campo dos direitos civis, começam a reivindicar também maior representatividade, por exemplo, na mídia e nas produções artísticas. É o que empresas gigantes do entretenimento como a Marvel e a DC Comics já entenderam. Elas têm literalmente se repaginado para se adequar e também representar uma sociedade mais plural. Pessoas que trabalham, possuem direitos e consomem também querem se ver nas histórias que passam pela mídia e povoam o imaginário.


Liberdade de expressão e relatividade dos direitos X livre iniciativa e gestão da imagem corporativa

Se você não é capaz de entender o conceito de relatividade dos direitos, ao menos entenda o princípio da livre iniciativa. Vejamos então. Todos os direitos são relativos, nenhum deles é absoluto. Isso significa que um direito é limitado, em algum caso concreto, por outro direito [5]. Uma pessoa tem direito à privacidade e à inviolabilidade da intimidade, mas o Judiciário pode autorizar a quebra de sigilo por meio de interceptação telefônica se essa pessoa for investigada em um caso de corrupção, por exemplo. 

Da mesma forma, a liberdade de expressão também é um direito relativo, que será limitado quando, por exemplo, se chocar com o direito à honra de uma outra pessoa, o que quer dizer que você não pode se valer de sua liberdade de expressão para denegrir ou discriminar um outro indivíduo. Ou seja, seu direito vai até onde começa os direitos dos outros. Nisso consiste a relatividade ou limitabilidade dos direitos fundamentais [6]. Curiosamente, muitas pessoas que parecem não entender como isso funciona e alegam uma liberdade de expressão irrestrita já acionaram ou ainda vão acionar a justiça reclamando terem sofrido injúria ou difamação. O que significa que, quando elas são o alvo, entendem a relatividade dos direitos rapidinho. 

Mas se essas ideias parecerem complexas demais, entenda o princípio da livre iniciativa, que consiste na liberdade dos cidadãos e das empresas participarem do mercado e gerirem seus negócios, o que significa vender e comprar produtos e serviços, negociar preço, tomar decisões administrativas etc. O empreendedorismo está na moda, correto? Pois a livre iniciativa inclui a liberdade de empreender.

Gerdau e Fiat decidem quem vão patrocinar e têm liberdade para deixar de patrocinar, se assim entenderem ser melhor, se entenderem que o grupo, entidade ou pessoa que recebe o patrocínio não se encaixa em suas missões e valores empresariais. Sabe aquela história de vestir a camisa da empresa? Pois então, quem não veste depois não pode reclamar. 

Da mesma forma, a DC Comics, enquanto uma gigante mundial do entretenimento, tem sua liberdade artística e de criação. A empresa entende que é hora de diversificar seus personagens, ser mais inclusiva e abrangente. Quem pode impedir isso? Por fim, o Minas Tênis Clube demitiu o jogador. Maurício usou de sua liberdade de expressão para fazer um juízo de valor negativo de todo um grupo de pessoas (o que inclui até companheiros de equipe). Em contrapartida, o clube usou sua liberdade para optar por uma demissão (pressionado por patrocinadores, claro). A livre iniciativa abrange o direito de demitir. Como fica o Minas Tênis Clube em seu direito de demitir? 


Extrema-direita em colisão com o liberalismo, a democracia, as relações de consumo e as práticas de mercado

Até o momento, Maurício Souza não foi processado. Portanto, tudo o que está ocorrendo com ele tem se dado dentro das relações de consumo e das práticas de mercado de um sistema capitalista que, frequentemente (e ironicamente), o mesmo grupo reacionário que agora defende o atleta gosta de enaltecer, com direito a mesma paranoia anticomunista de Fredric Wertham na década de 1950. As decisões até o momento se deram mais no terreno do marketing do que do direito.

Por isso adotei essa abordagem que considero pragmática. Eu gostaria de defender o direito que um ser humano tem de ser tratado com dignidade, o direito de ser cidadão, de ser diferente e ainda assim ser tratado como igual, de não ser retratado como pária por conta de credo, cor ou sexualidade, mas para uma parcela de pessoas que perderam a vergonha de serem preconceituosas, incluindo seus líderes políticos, esse discurso soa demodê, “politicamente correto”, parece não surtir muito efeito. 

Então ao menos que entendam o direito das empresas de criar, patrocinar e demitir. Que entendam que elas têm autonomia para gerir suas imagens corporativas conforme diretrizes de responsabilidade social. Não foi a “a lacração”, não foi “o movimento”. Foram as empresas, foi a iniciativa privada! A polêmica envolvendo o novo Super-Homem bissexual, filho de Clark Kent, mostra o que já sabemos faz tempo: a extrema-direita conservadora brasileira não tem problemas somente com o socialismo, como adoram bradar, mas também com o próprio liberalismo e os valores e mecanismos desenvolvidos por ele para que haja democracia e para que não se instale o que Alexis de Tocqueville chamou de “tirania da maioria” [7 e 8] e apontou como um risco para o estado democrático de direito e para as liberdades individuais. 

Na mesma semana da polêmica demissão de Maurício relacionada à nova HQ, Monark, apresentador do Flow Podcast, perdeu o patrocínio dado ao seu programa pelo iFood [9]. Não por homofobia, mas por posicionamentos que foram interpretados como racistas. Em sua rede social, Monark havia questionado se uma opinião racista deve mesmo ser considerada crime, demonstrando a mesma visão distorcida de liberdade de opinião/expressão como algo irrestrito e não compreendendo a relatividade dos direitos fundamentais, que é o que prevalece no direito brasileiro. Talvez seja a hora de Monark vestir a camisa das empresas que o patrocinam. Aquela coisa de mudar o mindset... 

De certo modo, a extrema-direita se chocou com o capital por causa do Super-Homem. Ao menos o senador Flávio Bolsonaro está sendo mais franco e propondo boicote a Gerdau e Fiat [10], não se limitando a evasivas contra “a esquerda”, “os lacradores” e “a mídia”. Quem tiver carro da Fiat e quiser se desfazer dele como forma de desagravo à empresa, pode passa-lo para o meu nome porque estou aceitando.


Referências:

[1] https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/entretenimento/geek/jon-kent-o-novo-superman-se-assumira-bissexual-confirma-dc-1.3146506

 

[2] https://www.terra.com.br/diversao/arte-e-cultura/crivella-recolhe-hq-com-beijo-gay-e-manda-fiscais-a-bienal,386bfc295fc3f9f478dc2156c4fd33bbohu19ly5.html

 

[3] https://super.abril.com.br/cultura/o-doutor-que-odiava-herois/

 

[4] https://www.purepeople.com.br/noticia/mauricio-souza-e-demitido-de-clube-entenda-a-polemica-que-dividiu-opinioes-de-famosos_a329670/1

 

[5] https://www.institutoformula.com.br/resumo-esquematizado-de-direito-constitucional-caracteristicas-dos-direitos-fundamentais/

 

[6] https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/6383/Liberdade-de-expressao-e-relativizacao-dos-direitos-fundamentais

 

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Tirania_da_maioria

 

[8] https://www.youtube.com/watch?v=-FZtKVTGvzY

 

[9] https://olhardigital.com.br/2021/10/29/internet-e-redes-sociais/ifood-rompe-patrocinio-com-o-flow-podcast-apos-tuites-de-monark/

 

[10] https://br.noticias.yahoo.com/ap%C3%B3s-demiss%C3%A3o-jogador-maur%C3%ADcio-souza-173435469.html


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Os riscos do projetismo


Você já experimentou um projeto? Eles estão por aí. Pode ser um podcast, um grupo de humor, montar uma banda, escrever um livro, criar uma página em rede social ou canal no Youtube. Os projetos funcionam melhor entre as elites, que normalmente podem se dedicar a eles sem complicação. Em muitos casos, é até saudável ter um projeto. 

Mas o projetismo se torna um problema nas camadas populares, em que os indivíduos precisam de um emprego e de uma mínima estabilidade para dar conta de suas necessidades básicas e pagamento de boletos. Entre os jovens de periferia, os projetos são ainda mais perigosos. Em casos mais graves, alguns se envolvem até com curta-metragens, destinados a circuitos alternativos de exibição, ironicamente concentrados em áreas nobres que ficam distantes de onde eles e seus familiares residem. 

Mas por que tantas pessoas, principalmente aquelas mais jovens, recorrem a projetos? E, mais do que isso, por que muitas criam dependência? Não se sabe ao certo, mas estudos apontam que ao aderir a um projeto e se dedicar a ele, a pessoa experimenta a sensação de ser ela mesma, sente que está fazendo algo inteiramente integrado a sua própria vontade, ao seu jeito de ser, às suas aptidões (ou às aptidões que ela julga ter). 

A sensação de ser você mesmo é muito viciante e, para alguns, que não estão aptos a senti-la, pode se tornar um risco. Muitos acabam embarcando numa espécie de “bad trip”. Uma amiga de bairro, por exemplo, decidiu ser escritora. Ela não tinha nenhum contato no mercado editorial e nenhuma aproximação com o círculo literário, mas se sentia bem usando literatura, que às vezes consumia misturada à poesia. Publicou um livro por meio dessas editoras que cobram do próprio autor. Imprimiu mil cópias, mas só vendeu cinco. Em um dia muito louco de bad trip, fez uma fogueira com os outros 995 exemplares e se atirou em cima. Foi salva pela família.

Desde então, passou um tempo internada numa dessas clínicas de reabilitação de ex-projetistas. Nessas casas é feito um trabalho que inclui cursos técnicos e profissionalizantes, horas de estudo para concurso público, leitura em grupo de edital de concurso, dentre outras atividades que ressocializem o indivíduo na ponta da prestação de um serviço ou no chão da fábrica. Os mais sortudos saem das clínicas já empregados.      

Projetismo: chique e descolado para uns; perigoso para outros! 

PS: se você está envolvido com algum projeto, procure a ajuda de um especialista. Converse com os seus familiares. Saiba dosar os riscos e benefícios. Em alguns casos, se alguém te oferecer um projeto, não tenha vergonha em dizer não!


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Freixo no Flow: uma falácia armamentista analisada a partir do conceito de tecnologia

Na semana passada o deputado Marcelo Freixo esteve no Flow Podcast, apresentado por Monark e Igor. Em certo ponto da entrevista, o assunto foi a flexibilização das armas de fogo [1]. O deputado é conhecdo, dentre outras razões, por ter um posicionamento contrário à flexibilização. Monark o questionou dizendo que o problema não são as armas em si, mas as intenções das pessoas. Na visão do apresentador, quem quer matar outra pessoa mata até com um automóvel.

Monark: - Por que você confia que eu tenha um carro e não confia que eu tenha uma arma?

Freixo: - Por que o carro foi feito para dirigir.

Monark: - Mas serve para matar.

Freixo: - Você sai com o carro procurando alguém para atropelar?

Monark: - Você sai com a arma procurando alguém para matar?

Freixo: - Sai com a arma para que? Para dirigir?

Não é a primeira vez que comparações desse tipo são usadas nesse contexto. Frequentemente aqueles que pedem maior flexibilização do uso de armas de fogo as comparam com outros utensílios para defender essa posição. Aqui pretendo mostrar de que modo armamentistas lançam mão de uma falácia lógica conhecida como “falsa equivalência” [2]. Chamo de “armamentistas” aqueles que defendem, de modo geral, maior facilidade na compra, venda e aquisição das armas de fogo.

Em janeiro de 2019, tivemos um outro exemplo da falsa equivalência: o ministro da Casa Civil Onix Lorenzoni comparou armas de fogo a liquidificadores. Na perspectiva dele, o risco para uma criança de alguém manter uma arma de fogo em casa equivaleria ao risco de a mesma criança se acidentar com um liquidificador. Segundo o ministro, evitar acidentes é uma questão de “educação” e “orientação”.

“A gente vê criança pequena botar o dedo dentro do liquidificador e ligar o liquidificador e perder o dedinho. Então, nós vamos proibir os liquidificadores? Não.”, disse Lorenzoni [3]

Assim como Monark, o ministro comparou a arma de fogo a um outro utensílio, neste caso, a um eletrodoméstico. Além de falaciosa, a comparação desconsidera alguns dados, como o número de acidentes e de mortes envolvendo armas de fogo e liquidificadores nos Estados Unidos entre 2011 e 2014 [4]. No período, o número anual de mortes somente de crianças por armas de fogo foi de 1.290, enquanto que por conta de acidentes domésticos envolvendo liquidificadores foi de zero!

Monark, Lorenzoni e tantos outros que pedem mais facilidade na circulação de armas ignoram também a posição da maioria dos especialistas em segurança pública no Brasil e a grande maioria dos estudos mundiais que – para usar uma palavra pertinente ao tema – “municiam” com os melhores embasamentos Freixo e os demais que pedem restrições às armas. Esses estudos apontam correlação entre mais armas e mais crimes e mortes [5]

Poderia não ser um carro ou um liquidificador, mas qualquer outra coisa, como um ferro de passar roupa ou cacos de vidro. Essa estratégia retórica pode ser resumida nas seguintes frases: “Armas não matam pessoas. Pessoas matam pessoas”. Frequentemente essas frases são repetidas pelos defensores das armas para ressaltar que quem quer matar vai matar de qualquer jeito, utilizando qualquer coisa. De fato, é possivel matar com um ferro de passar ou um caco de vidro (com liquidificador, creio ser bem mais complicado). Os inúmeros casos de atropelamentos que resultaram em mortes mostram que o carro também pode ser uma arma letal. Sendo assim, essas comparações portanto são pertinentes, fazem sentido, certo?


O conceito de tecnologia

Errado! Primeiro, porque as comparações desconsideram o próprio conceito de tecnologia, que é um produto da ciência e da engenharia que envolve um conjunto de instrumentos, métodos e técnicas que visam a resolução de problemas. Uma aplicação prática do conhecimento científico, nas mais variadas áreas do saber, para resolver coisas específicas .

Como explica o sociólogo Alan Mocellin, a tecnologia envolve um conjunto de práticas visando a execução de um determinado fim. “A tecnologia tem como seu horizonte totalizante o discurso científico, sendo derivação prática desse discurso” (2015, p. 83). Ou seja, ela é a face prática da ciência, quando você pega um conjunto de saberes e aplica para criar coisas ou procedimentos que possibilitem a resolução de algo concreto.

A palavra tecnologia vem do grego "tekhne", que significa "técnica, arte, ofício", juntamente com o sufixo "logia", que significa "estudo" [6]. Quando pensamos em tecnologia, costumamos imaginar coisas “modernosas”, como satélites e computadores, mas as tecnologias são desenvolvidas pelos homens desde tempos primórdios. As tecnologias primitivas ou clássicas, por exemplo, envolvem a descoberta do fogo, a invenção da roda, a escrita, dentre outras.

Nessa perspectiva, dentro do conceito e da filosofia da tecnologia, podemos concluir que a melhor maneira de executar uma tarefa costuma ser, via de regra, usando os objetos projetados especificamente para a tal tarefa. Por exemplo, você pode cortar um queijo com uma faca de pão? Claro que sim. Mas um cortador de queijo corta as fatias com mais precisão e praticidade, porque foi projetado exatamente para isso. Da mesma forma, você até pode beber água em um prato, mas no copo fica muito melhor e mais fácil. O prato serve melhor para coisas sólidas, não líquidas. E você sabe bem disso.

Parece óbvio, correto? Mas quando armamentistas usam da falsa equivalência para comparar armas de fogo a qualquer outra coisa que lhes venha à cabeça, parecem ignorar esse conceito básico. Mas apenas parecem. Eles não ignoram de fato. A falácia da falsa equivalência é apenas (como toda falácia) uma estratégia retórica usada para ludibriar os interlocutores (aquelas pessoas para quem eles falam). E aí vem o nosso segundo ponto: se os defensores das armas realmente acreditassem nas comparações que fazem, não precisariam defender a flexibilização das armas, bastariam usar um ferro de passar, cacos de vidro ou um carro.

Mas eles continuam a defender a flexibilização das armas de fogo, mesmo tendo acesso a coisas e objetos, segundo eles, também letais. Continuam justamente porque sabem que as armas têm vantagem competitiva na finalidade para a qual foram projetadas (alvejar e até matar) quando comparadas a outros artefatos. Só que é justamente essa vantagem competitiva que leva à necessidade de maior regulamentação das armas em relação a tantas outras coisas que você pode comprar com facilidade por ai. O grau de letalidade da arma é o que justifica sua maior regulamentação.

O próprio Monark da exemplo dessa estratégia retórica enganadora e do quanto ele próprio no fundo não acredita nela. Ele diz que quer adquirir uma arma e argumenta que é para a própria proteção. Logo em seguida, compara armas de fogo e automóveis para se contrapor às restrições. Ora, se ele já tem um carro, então não precisa de uma arma. Se não tem, pode comprar um. Como poderia comprar qualquer outra coisa. Não precisaria defender a flexibilização de armas. E assunto encerrado!

Mas isso se ele realmente acreditasse na comparação que faz. Armamentistas não acreditam, de fato, nas comparações absurdas que fazem. Como dissemos, é pura estratégia retórica.


A tecnologia em 2001- Uma odisseia no espaço

Conforme dito, a tecnologia acompanha o homem há muitos anos, e o filme 2001- Uma odisseia no espaço (1968), do diretor Stanley Kubrick, traz boas reflexões sobre o assunto. Esse clássico do cinema nos faz pensar sobre os seus usos desde os primórdios hominídeos até as naves espaciais desenvolvidas por nós, Homo sapiens. Em uma sequência maravilhosa [7] (que provavelmente mesmo aqueles que nunca assistiram ao filme conhecem), vemos um macaco segurando um grande osso. Ele para, pensa, olha para o osso, olha para o chão, bate o osso no chão, bate com o osso em outros pedaços de ossos que estavam espalhados pelo chão e que se quebram com a pancada. O macaco parece ter uma espécie de revelação!

Extasiado, o animal estava naquele momento descobrindo que aquele pedaço grande de osso que em sua mão poderia ser usado para quebrar coisas e também como arma, para ferir e abater outros animais. Era o início do uso da tecnologia, um passo a mais no estágio evolutivo da espécie da qual mais tarde decorreriam os humanos. Vemos na cena o macaco pensando, usando o seu saber – ainda que um saber limtado – testando o osso como ferramenta. Cada pequena pancada era um teste. A verificação por meio de testes seriam uma forma rudmentar de fazer ciência, para finalmente chegar ao domínio de uma nova tecnologia.

E essa nova tecnologia viria a ser usada em maior escala na cena seguinte. Em um conflito entre dois grupos de macacos, aquele cujos membros estavam com ossos nas mãos usando-os como armas levou a melhor.Eles bateram em seus adversários e dominaram o território. A sequência termina com um dos vencedores jogando o osso/arma para o alto, que praticamente se transforma em uma nave espacial. Talvez a elipse mais famosa da história do cinema, simbolizando todo o desenvolvimento tecnológico dos primórdios até o que havia de mais moderno naquela década. A história da humanidade em dois planos.

Da pré-história para os tempos atuais, as diversas tecnologias foram se desenvolvendo, inclusive na área bélica, com armas cada vez mais modernas. Na Idade Média, por exemplo, usava-se arco e flechas, bestas, espadas e catapultas. As pessoas já matavam umas as outras antes das armas de fogo e do desenvolvimento da pólvora, mas elas sempre preferiram aquilo que a tecnologia oferecia de melhor para esta finalidade em suas épocas. Isso é óbvio e faz sentido. O que não faz sentido são as comparações esdrúxulas feitas pelos armamentistas atuais. Sendo assim, o óbvio precisa ser dito, e este texto se presta ao óbvio. As falácias confundem o debate público, e a combinação de falácia lógica e políticas públicas é um perigo!

Nossos precursores Homo habilis receberam esse nome por desenvolverem habilidades no uso e fabrico de utensílios para fins específicos, como a caça e o combate. Tiveram o domínio e o entendimento da tecnologia. Estamos em 2021 e alguns Homo sapiens, quando fazem comparações entre armas e carros, parecem desconsiderar aquilo que os Homo habilis já sabiam há cerca de 1 milhão de anos. Involuímos?


Referências:

MOCELLIM, Alan. Comunicação e Reencantamento: retórica ou possibilidade?. Esferas, v. 6, p. 79-87, 2015


[1] Cortes do Flow – Debate sobre a diferença entre posse e porte de armas:

https://www.youtube.com/watch?v=DqyvScF9hK0


[2] Falsa equivalência:

http://gestaouniversitaria.com.br/artigos/falsa-equivalencia


[3] Arma em casa é risco para criança tanto quanto liquidificador, compara Onyx https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/01/15/arma-em-casa-e-risco-para-crianca-tanto-quanto-liquidificador-compara-onyx.ghtml


[4] Comparações de acidentes e mortes por armas de fogo e com liquidificadores:

https://www.consumerreports.org/cro/news/2013/02/blender-injuries-stir-up-more-visits-to-the-emergency-room/index.htm?fbclid=IwAR06j2XaIVxO22f6lPWAqRm_g-0JMeOtWulCbNS3_kOLQpYZqVhYn4deEYE


https://edition.cnn.com/2017/06/19/health/child-gun-violence-study/index.html


[5] Armas, crime, morte: o peso da evidência:

https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/questao-de-fato/2019/01/18/armas-crime-morte-o-peso-da-evidencia


[6] Significado de tecnologia

https://www.significados.com.br/tecnologia-2/


[7] O pensamento e a descoberta da ferramenta "2001: Uma Odisseia no Espaço":

https://www.youtube.com/watch?v=9etefsYMm5o



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