sábado, 9 de maio de 2020

Trump, Bolsonaro e a pandemia: dados mostram a influência dos líderes e as consequências de suas ações


Nesta semana o Brasil ultrapassou 9 mil mortes causadas pelo novo coronavírus, tornando-se o oitavo país do mundo com maior número de casos da covid-19 e o sexto em número de óbitos. Os dados podem ser ainda mais graves se levarmos em conta o problema da subnotificação devido à falta de testagem. No momento, os três países com maior número de mortos – Estados Unidos, Reino Unido e Itália – possuem algo em comum: todos têm governos de direita que abraçaram o negacionismo científico, negando os impactos do coronavírus até que os números explodissem.

A postura dos líderes vem sendo importante na estratégia de prevenção. Enquanto alguns têm se destacado positivamente na prevenção à pandemia, caso da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e da chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, outros, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, vêm recebendo críticas constantes da imprensa mundial [1]. Não se trata apenas do modo como esses líderes têm gerido a crise, mas do quanto são capazes de influenciar negativamente as sociedades das quais estão à frente com suas declarações e atitudes. Juntamente com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Trump e Bolsonaro figuram entre os três líderes mundiais mais populares nas redes sociais, o que é um indicativo do quanto esses chefes de estado são formadores de opinião [2].

Trump e o desinfetante

Trump desdenhou inicialmente da covid-19, foi reticente quanto à necessidade do isolamento social e, com frequência, politiza a pandemia chamando o coronavírus de “vírus chinês” [3]. Na medida em que os casos explodiram, reviu sua posição e passou a defender o isolamento. Entretanto, sua postura tem sido de altos e baixos. Há duas semanas, o presidente americano fez uma declaração sugerindo que profissionais de saúde poderiam testar injetar algum material desinfetante no organismo dos pacientes. Afinal, já que o desinfetante mata o vírus em diversas superfícies externas, por que não mataria dentro do corpo de alguém?

Logo em seguida à declaração, a cidade de Nova Iorque registrou um aumento no número de casos de intoxicação por desinfetante, segundo informações da rede americana NBC. O centro de controle de envenenamento da cidade recebeu 30 chamadas relacionadas à ingestão do produto nas 18 horas seguintes à sugestão do presidente, mais que o dobro do mesmo período no ano anterior, quando apenas 13 casos foram registrados [4]. Após sua declaração, Trump defendeu-se dizendo que estava sendo sarcástico. 

Pode ser que o aumento do número de casos de intoxicação seja apenas coincidência ou oscilação normal? Sim. Pode ser que Trump estivesse, de fato, sendo irônico ou sarcástico? Talvez. Mas o fato é que o uso de ironias e sarcasmos não costuma ser apropriado para líderes políticos, já que esse tipo de linguagem frequentemente gera dúbias interpretações e maior dificuldade de compreensão, confundindo a opinião pública. Entretanto, alguns especialistas em política e em linguística destacam que líderes como Trump se valem propositalmente desse tipo de linguagem imprecisa, uma vez que a ironia não se compromete com a verdade.  Sendo assim, essa linguagem escorregadia dá margem para que seu emissor deslize de um lado para o outro na medida em que é confrontado ou desmentido.

Quem explica esse tipo de uso da linguagem na política pela direita americana é a jornalista Michiko Kakutani, autora do livro A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump. Ela explica que o presidente americano levou a linguagem e o modus operandi das redes sociais para os pronunciamentos oficiais institucionais, mais especificamente os da Casa Branca. Trump, conforme diz Kakutani, age como um troll, usa a ironia e os memes como arma. 

Os comentários mais chocantes de cunho racista, sexista e perversamente cruéis vêm das redes socias (muitas vezes acompanhados de uma piscadela ou de um sorriso de sarcasmo). Quando repreendidos, os autores frequentemente respondem que estavam apenas brincando – do mesmo jeito que os assessores da Casa Branca dizem que Trump estava apenas brincando ou que foi mal interpretado quando faz comentários ofensivos.” [5]   

Bolsonaro influencia redução do isolamento, diz estudo 

No Brasil, a influência de Bolsonaro tem sido sentida de forma ainda mais dramática. Diferentemente de Trump, Bolsonaro tem se mantido firme contra o isolamento social e, mesmo depois da explosão de casos confirmados e de óbitos, o presidente brasileiro foi incapaz de rever sua posição. Inicialmente, chegou a chamar a covid-19 de “Gripezinha” e “resfriadinho”, acusando a imprensa de fazer “histeria”. Bolsonaro adotou uma narrativa segundo a qual existe um conflito entre a saúde e a economia, de modo que fazer isolamento social – a melhor medida segundo cientistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS) – seria prejudicial para a economia do país, destruindo empresas, gerando perda de empregos e provocando mais danos do que a pandemia em si.

Desde a chegada do vírus ao Brasil, Bolsonaro tem comprado uma briga com governadores e prefeitos brasileiros, que em grande parte optaram pelos estudos técnicos que apontam para a necessidade do isolamento social e da quarentena, ou mesmo do lockdown, em casos mais graves. O presidente frequentemente é visto em aglomerações, cumprimentando pessoas, contrariando as orientações de prevenção. Nesta semana, ele juntou um grupo de empresários e andou pelo Planalto até o STF para advogar em defesa da abertura do comércio e da retomada das atividades econômicas, mesmo com a explosão de casos confirmados e mortes. Em suma, diariamente Bolsonaro age como garoto-propaganda contra o isolamento.

Uma pesquisa publicada na última semana mostra que o desrespeito ao isolamento social foi maior em áreas onde Jair Bolsonaro tem mais eleitores [6]. A análise foi feita por meio de cruzamento de dados de localização geográfica de 60 milhões de aparelhos celulares e de informações eleitorais dos votos que o presidente recebeu na eleição presidencial em 2018. A pesquisa é um forte indicativo de que o trabalho de Bolsonaro contra as medidas protetivas, ou melhor, seu desserviço contra o isolamento, lamentavelmente teve algum efeito.

O artigo, assinado por dois pesquisadores brasileiros e um argentino, está disponível na internet, em inglês, com o título "More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior During a Pandemic" (Mais do que palavras: discurso dos líderes e comportamento arriscado durante a pandemia, em tradução livre).

Os pesquisadores separaram as regiões onde Bolsonaro é popular e impopular de acordo com a votação de 2018. Locais em que o presidente teve mais de 50% dos votos, a exemplo de cidades do Sul e Centro-Oeste, Sudeste e Norte, foram definidos como de apoiadores. Já as regiões onde Bolsonaro foi menos votado, como o nordeste, foram consideradas de não apoiadores. O resultado obtido mostra que após Bolsonaro pronunciar-se publicamente, de forma enfática, minimizando os riscos do coronavirus e desaconselhando o isolamento, as medidas de distanciamento social dos cidadãos em localidades pró-governo diminuíram em relação aos lugares em que o apoio ao presidente é mais fraco. Quem assina o trabalho são os pesquisadores Daniel da Mata, Ph.D em economia pela Universidade de Cambridge, Nicolás Ajzenman, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Cargas (FGV) e mestre em administração pública em Harvard, e Tiago Cavalcanti, professor da Universidade de Cambridge. Os autores pretendem concluir o levantamento e publicar o material até o final do ano.

Por conta dessa postura presidencial e do frequente embate e desencontro entre, de um lado, Bolsonaro, e, de outro, governadores e prefeitos, o isolamento social no Brasil até o momento não foi feito com a intensidade e seriedade que deveria ter. Frequentemente houve dias em que ele não chegou a 50%, mesmo em cidades com altas taxas de infectados e mortos pelo coronavírus, como São Paulo. O ideal, segundo especialistas, é um índice acima dos 70%. 

Saúde ou economia? Uma lembrança da Segunda Guerra Mundial

O conflito entre saúde e economia, tônica da narrativa de Bolsonaro, entretanto, não colou com a maioria da população e nem com especialistas, tanto das áreas biomédicas quanto da economia. De modo geral, o entendimento é de que não há como dissociar uma coisa da outra e, caso seja preciso priorizar alguma delas, a prioridade será sempre a saúde, ou melhor, a vida [9].    

O fato é que invariavelmente a economia será afetada por uma pandemia desta proporção, o que já está ocorrendo. Sendo assim, o jeito é preservar vidas, para que o estrago não seja ainda maior. Além disso, como disse em entrevista o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, “a economia a gente recupera; as vidas, não”. Witzel contraiu coronavírus e foi um dos governadores que lideraram o embate contra o governo Bolsonaro, juntamente com João Dória (SP) e Ronaldo Caiado (GO).

O jornalista e analista econômico Carlos Alberto Sardenberg, durante uma de suas lives na Globo News, ilustrou muito bem o problema ao lembrar um fato histórico: o Acordo de Munique, uma fracassada tentativa de paz pouco antes de se iniciar a Segunda Guerra Mundial. Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, como parte de sua política de apaziguamento, assina em Munique um pacto com Hitler e Mussolini. O documento entregava os Sudetos da República Checa desde que esta fosse a última reivindicação dos nazistas, o que selaria a paz. Chamberlain volta exitoso para a Inglaterra, balançando o documento em suas mãos para o público. 

Winston Churchill, sabedor de que aquilo não seria suficiente para satisfazer a sede de poder de Hitler e bastante crítico da política de apaziguamento que dominava o Reino Unido, diz sobre Chamberlain, como nos lembrou em sua live o jornalista Sardenberg: “Entre a vergonha e a guerra, escolheu a vergonha. E vai colher a vergonha e a guerra!”. Dito e feito. A guerra foi inevitável. Quem quiser saber mais sobre esse episódio histórico pode assistir ao ótimo filme O destino de uma nação (2017), com Gary Oldman no papel de Churchill [10].

A analogia da história resgatada por Sardenberg com o momento de pandemia em que vivemos é clara e precisa: não adianta criar um conflito entre a saúde e a economia para optar pela segunda, pois, por esse caminho, perderemos ambas.      

O que houve com o slogan “mais Brasil, menos Brasília”?

No mês passado, a briga entre Bolsonaro e governadores e prefeitos foi parar no STF. A Suprema Corte decidiu contra o presidente, determinando que os gestores estaduais e municipais têm autonomia para decretar medidas restritivas contra o coronavírus, mesmo que o governo federal adote providências em sentido contrário. Entre os poderes atribuídos aos gestores locais estão a decretação de isolamento social, quarentena, suspensão de atividades escolares e restrições ao funcionamento do comércio. 

A briga jurídica não condiz com a promessa de Bolsonaro no plano político durante a eleição e nos lembra o quanto os slogans de campanha, que deveriam simbolizar e condensar em poucas palavras diretrizes políticas, muitas vezes são esvaziados de sentido tornando-se apenas frases de efeito (sem efeito algum). Dentre as várias e questionáveis frases da campanha bolsonarista à presidência em 2018, tínhamos “Meu partido é o Brasil”, frase que de certo modo nega o caráter conflitivo da política, que é a disputa pela pólis [7], confundindo partido político com a própria pólis: dizer que seu partido é o seu país como um todo, na prática, não quer dizer muita coisa, ainda mais em um país tão grande, tão diverso e com tantos interesses conflitantes como o Brasil. 

Mas no que se refere ao conflito entre o governo federal e os estados, é irônico lembrar um outro slogan: “Mais Brasil, menos Brasília”, que trazia uma promessa de descentralização do poder e melhor redistribuição de recursos entre os entes federativos [8]. Teoricamente, poderia ser algo positivo para muitas regiões. Na prática, vemos o oposto: o caráter centralizador do governo federal ficou evidente nesta que é a maior crise política, econômica e sanitária enfrentada por Bolsonaro desde que chegou ao Planalto, inconformado com a prerrogativa dos gestores regionais de poderem tomar medidas que atendam às situações específicas de suas localidades. 

Referências:

1- Revista Lancet aponta Bolsonaro como o maior risco da pandemia no Brasil: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/07/the-lancet-aponta-bolsonaro-como-maior-ameaca-ao-combate-a-covid-19-no-pais.htm

 

2- Os líderes mais populares do mundo nas redes sociais: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-e-o-terceiro-chefe-de-governo-mais-popular-do-mundo-nas-redes-sociais,70003192720?fbclid=IwAR1HM3gBK71ZXtCrBWH3x72EKfho98xAs5lFbkdgoWDWN3lqU7WVFIDDaJM

 

3- O populismo de Trump e Bolsonaro diante da pandemia: http://www.diretodaciencia.com/2020/03/21/entre-os-fatos-e-a-mentira-o-populismo/?fbclid=IwAR3xTQaZCjwMwvexZh_EQ_STHTcbzkw-rtRj10pSb8PHqMQG7RlZ-Jz9NXQ

 

4- Aumento de casos de intoxicação em Nova Iorque: https://www.terra.com.br/noticias/mundo/ny-registra-intoxicacoes-por-desinfetante-apos-fala-de-trump,a0ea97943e95442d7771c2f537462df4tqx8eyvc.html

 

5-KAKUTANI, Michiko. A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

 

6 – Desrespeito ao isolamento social é maior em áreas onde Bolsonaro tem mais apoio: https://epoca.globo.com/sociedade/desrespeito-ao-isolamento-social-maior-em-areas-onde-bolsonaro-tem-mais-apoio-diz-estudo-24391966?%3Futm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post&fbclid=IwAR3lj53z4qZpRmfNbckE_DSRE85E56U-fu2TxzZLRg4RleIHznMSNmze2gA

 

7- O que vem a ser pólis: https://www.youtube.com/watch?v=X4nNG7FbglY

 

8- Mais Brasil, menos Brasília. Ou o contrário?: 

https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/O-governo-Bolsonaro-na-pr%C3%A1tica-mais-Bras%C3%ADlia-menos-Brasil

 

9 – Brasileiros priorizam a saúde:

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/08/interna_politica,1136759/brasileiros-priorizam-saude-do-que-economia-diferente-de-bolsonaro.shtml

 

10- O destino de uma nação: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-246284/

 


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Feliz Dia do Trabalhador: três filmes para pensar a tecnologia e a uberização do trabalho


Chegamos ao Dia do Trabalhador com pouco a se comemorar. Os impactos econômicos por conta do isolamento social imposto pela pandemia de coronavírus são inevitáveis e se somam a um cenário que já era desanimador. Em 2019, o PIB brasileiro cresceu apenas 1,1%, menos da metade da expectativa que os analistas econômicos haviam projetado no início daquele ano, que era de 2,53% [1]. O mercado de trabalho vem passando por um processo de precarização, que, em linhas gerais, significa uma desvalorização da força de trabalho. Embora nos últimos anos tenha havido aumento do número de contratações com remuneração de até dois salários mínimos, há 14 anos seguidos (desde 2006) o Brasil teve redução dos postos de trabalho com valores acima de dois salários mínimos [2]. Em linhas gerais, isso significa dizer que o mercado de trabalho está pagando menos, que tem ocorrido um achatamento salarial em massa há mais de uma década e que isso vem cada vez mais afetando a classe média, que é justamente o estrato social que disputa os postos de emprego acima dessa faixa salarial. E claro que o governo (todos eles), na hora de alardear a criação de postos de trabalho, fala sobre o aumento de empregos de até dois salários, mas omite a redução dos empregos com remuneração acima desse valor.     

A precarização já seria um problema grave por afetar trabalhadores das classes baixas, mas, como dissemos, tem avançado nas classes mais elevadas. Algumas políticas públicas voltadas para o trabalho e emprego contribuem para esse avanço. A terceirização das atividades-fim é um exemplo: uma coisa é uma empresa terceirizar seus funcionários de limpeza, zeladoria e segurança; outra é fazer o mesmo com engenheiros (se for uma empresa de engenharia) ou nutricionistas (uma empresa da área de saúde), ou seja, profissionais com nível superior (o que, no Brasil, está normalmente relacionado a pessoas até então com maior poder aquisitivo). 

Outras iniciativas se somam na construção de um cenário desolador para a força de trabalho, como a reforma da previdência, que reduziu as expectativas de futuro e de uma aposentadoria digna, e a reforma trabalhista, que, passados dois anos, não cumpriu a promessa de gerar mais vagas de emprego feita por seus defensores na tentativa de convencer a opinião pública e a classe trabalhadora [3]. Tudo isso serve para contextualizar a realidade brasileira, mas o fato é que o trabalho vem passando por transformações muito rápidas no mundo todo, nem sempre traduzidas em vantagens para seu sujeito principal, o protagonista dessa história: o trabalhador.

A tecnologia tem papel primordial nas mudanças. Hoje não há quem não conheça alguém que faz um “bico” como motorista de aplicativo ou mesmo tem nessa atividade sua principal fonte de renda. Aplicativos como a Uber, por exemplo, fazem parte do que vem sendo chamado de “economia de compartilhamento”. Em linhas gerais, um termo que abrange mudanças nas formas de trabalho que incluem o consumo colaborativo e atividades de compartilhamento de bens e serviços mediadas pelas tecnologias. Tudo ainda é muito novo. Embora alguns especialistas apontem que a organização do trabalho tende a se tornar mais flexível e horizontalizada (ou seja, sem rigidez hierárquica, como na imagem clássica do chefe mal-humorado batendo na mesa e distribuindo ordens), muitos cientistas sociais apontam que todo esse ideário da economia compartilhada só esconde uma relação cada vez mais exploratória entre os executivos responsáveis pelas plataformas tecnológicas, de um lado, e os vendedores da força de trabalho, ou seja, os trabalhadores, de outro.

Bertrand Russell, Stephen Hawking e Charles Chaplin: tecnologia e trabalho

Em sua obra, o filósofo britânico Bertrand Russell já nos lembrava na primeira metade do século 20, muito antes da Uber aparecer, que, apesar dos avanços tecnológicos, continuávamos a trabalhar bastante, até exaustivamente. Ele estava se referindo às máquinas industriais, não a aplicativos, mas desde aquela época já havia certa decepção com o fato de que a tecnologia não atendia a expectativa de atenuar, de modo geral, a carga de trabalho para o ser humano. Como dizia Russell, “até agora continuamos a ser tão enérgicos quanto éramos antes que existissem as máquinas. Em relação a isso, temos sido tolos, mas não há razão para que essa tolice continue sempre” [4].

Pois chegamos ao século 21 e o problema persiste. O físico Stephen Hawking teve um trabalho de pesquisa amplamente dedicado à astrofísica, mas deixou algumas considerações sobre a tecnologia e a inteligência artificial. Ele tinha uma grande preocupação com os riscos que máquinas e robôs trazem ao ser humano. Hawking não se referia “apenas” a algum tipo de rebelião ao estilo Matrix ou Blade Runner, mas a questões aparentemente mais triviais, como o risco de desemprego e até de concentração de riquezas. Para ele:

 “Se as máquinas produzirem tudo de que precisamos, o resultado dependerá de como as coisas são distribuídas. Todo mundo poderá aproveitar uma vida de lazer luxuoso se a riqueza produzida pela máquina for compartilhada, ou a maior parte das pessoas pode se tornar miserável se os donos das máquinas conseguirem se posicionar contra a redistribuição da riqueza. Até agora, a tendência tem sido para a segunda opção, com a tecnologia aumentando a desigualdade” [5]. 

No ano passado, o co-fundador da Uber, Garret Camp, arrematou uma mansão em Beverly Hills no valor de U$$ 72 milhões (isso mesmo: setenta e dois milhões de DÓLARES), um montante bem mais alto do que a esmagadora maioria dos trabalhadores do mundo terá trabalhando por toda a vida [6]. A grande aquisição aconteceu em um momento em que muitos trabalhadores da Uber, no Brasil, Reino Unido, EUA e diversos outros países reivindicam melhores condições de trabalho e maiores ganhos. Stephen Hawking tinha razão em se preocupar. Russell também tinha razão em chamar a atenção para o fato de que, ao longo da história, os avanços tecnológicos estão sendo desvirtuados da função que poderiam ter de atenuar o trabalho humano e coletivizar o bem-estar e a prosperidade: apesar dos inúmeros avanços tecnológicos, a sociedade atual trabalha mais do que camponeses medievais, com tempo bem menor de descanso e férias [7]. Por que isso? Porque, como dissemos, Hawking estava certo: não é a tecnologia em si que faz a diferença, mas a forma como ela é apropriada e distribuída. 

 A economia do compartilhamento é a cara do trabalho no século 21. Se Charles Chaplin estivesse vivo e fizesse uma releitura de seu clássico Tempos Modernos, as filmagens provavelmente não seriam em uma fábrica, mas com profissionais sobrecarregados dominados por seus aparelhos celulares. O gênio responsável por Carlitos não está mais entre nós, mas o cinema, seja o de ficção quanto o documental, segue atento às transformações na sociedade, incluindo aquelas relacionadas ao mundo do trabalho. Aqui selecionamos três filmes que mostram a cara do trabalho no século atual. São dois longas-metragens (um documentário e outro de ficção) e um curta, que mostram a realidade da uberização no Brasil e exterior. O processo, apesar de ter sido apelidado de “uberização”, não diz respeito somente à Uber. A empresa de caronas compartilhadas apenas “emprestou” seu nome por ser uma das mais conhecidas do público e dos pesquisadores sobre relações de trabalho. Especialistas e trabalhadores têm apontado alguns caminhos para melhor regulamentação do trabalho no setor. Não se trata de ser contra a tecnologia, mas de buscar alternativas e políticas públicas de valorização da força de trabalho [9].  

GIG- A uberização do trabalho [10]

Dirigido por Cauê Angeli e produzido pela ONG Repórter Brasil, o filme traz uma grande diversidade de trabalhadores de aplicativos, desde motoristas da Uber até motociclistas, empregadas domésticas e professores. Sim, o processo de uberização chegou à área de educação e um professor de geografia que dá aulas particulares por meio de uma plataforma fala de sua experiência. O filme se propõe a fazer uma abordagem teórica bem contextualizada da economia de compartilhamento e seus impactos nas relações de trabalho, por isso a fala de cientistas sociais brasileiros e estrangeiros divide espaço com a dos trabalhadores. Um desses especialistas é o geógrafo David Harvey, que associa a desregulamentação trabalhista atual, incorporada e fomentada pela economia de compartilhamento, ao avanço do neoliberalismo. Em uma perspectiva histórica, ele diz que o neoliberalismo foi uma resposta à Primavera de 1968, em que estudantes pediram liberdades individuais e justiça social, mas a elite empresarial descartou a justiça social, focando apenas na primeira parte das reivindicações. 

Os especialistas destacam que, apesar de um aparente barateamento dos serviços oferecidos pela uberização, tudo isso tem um custo social, que inclui a redução de renda de um número cada vez maior de trabalhadores, e perguntam qual o risco que as classes média e alta querem assumir para que algumas de suas necessidades sejam atingidas de uma forma mais barata. Afinal, tudo tem seu preço. Os pesquisadores chamam a atenção também para o que nomearam de “gamificação do trabalho”, uma influência do vídeo game nas rotinas e procedimentos de trabalho de motoristas e entregadores. Por meio dos aplicativos, esses trabalhadores passam a se ver como personagens em uma espécie de jogo, em que algumas de suas ações geram bônus, estimulando-os a trabalhar sempre mais e mais e incentivando a competitividade entre os colegas. Tudo isso bem arquitetado por psicólogos ligados às plataformas e intermediado pelas telas de celulares. Do ponto de vista técnico, com a uberização nunca foi tão fácil regular o trabalho: é como se cada trabalhador tivesse milhares de gerentes, já que os clientes dão as notas, nem sempre de forma muito justa. Uma doméstica que faz diária por um app diz que se vê obrigada a limpar até coisas que, teoricamente, não deveria limpar, pois, caso não o faça, sua nota cai. A “profecia” de George Orwell recai sobre as relações de trabalho [8], como bem lembra uma das pesquisadoras ouvidas.

Vidas entregues [11]

Este curta-metragem, dirigido por Renato Prata Biar, tem o Rio de Janeiro como cenário e sons bem conhecidos pelos cariocas, como o sino do VLT, fazendo a ambientação sonora. O veículo sobre trilhos divide o espaço urbano com os ciclistas de aplicativos como Rappi, Ifood e Uber Eats. Sem falas de especialistas, o protagonismo é total para os entregadores de comida, que, aparentemente, são os mais precarizados dentre todos os profissionais que atuam na economia de compartilhamento. Eles falam sobre seus dramas e preocupações, incluindo a falta de perspectiva de futuro. “A mãe do meu filho sempre me cobra: até quando você vai trabalhar com aplicativo?”, diz o entregador Vitor Pinheiro dos Santos. Em falas como essa, vê-se a deterioração do conceito de carreira e de trajetória de vida, algo discutido também em GIG- A uberização do trabalho. Os três principais personagens do filme são negros, o que mostra que o segmento tem um recorte étnico muito perceptível. Mas a personagem que mais se destaca é Bianca Souza dos Santos. Mulher e negra, ela dá ainda um recorte de gênero ao curta. Bianca trabalha com o marido, que também é profissional de aplicativos, fala do cansaço com a rotina de entregas e do quanto a ideia do empreendedorismo pode ser ilusória: “microempreendedora eu não sou, não. Sou uma pessoa desesperada. Não tem emprego, fazer o que?” Todos os personagens preferiam estar trabalhando de carteira assinada.

Você não estava aqui [12]

Por fim, esse filmaço de Ken Loach (mesmo diretor do aclamado Eu, Daniel Blake, que também fala sobre trabalho, com foco no esfacelamento do chamado “estado de bem-estar social”) é de um realismo quase documental. Você não estava aqui (Sorry, we missed you) tem o mérito de ir além do cotidiano de trabalho tão bem retratado nos documentários aqui apresentados para mostrar os impactos desse tipo de atividade na vida privada e familiar. É como se Loach cruzasse uma linha que os documentários não cruzaram para nos trazer uma realidade mais intimista. Você não estava aqui mostra que o maior inimigo da família é o mercado de trabalho predatório. É ele quem atrapalha as pessoas de se casarem. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de ter filhos. E quando elas conseguem, ele as atrapalha de criá-los. E quando, na medida do possível, elas criam seus filhos, ele atrapalha que esses filhos lhes retribuam a criação com um amparo na velhice. Aliás, essa falta de amparo à terceira idade é trabalhada não por meio de Ricky Turner, o protagonista motorista de um aplicativo de entregas, mas de sua mulher, cuidadora de idosos. Ao falar sobre a rotina extenuante de seu marido para uma de suas clientes/pacientes (uma ex-sindicalista aposentada), é indagada: “mas o que houve com a jornada de trabalho de oito horas?”. Pois é, a desregulamentação atropelou!

Logo de cara, Loach mostra a que veio. No início do filme, durante uma entrevista a qual Turner é submetido, o recrutador diz: “Você não trabalha para nós, você trabalha conosco”. A afirmação dá uma falsa sensação de liberdade (a ideia do “microempreendedor de si mesmo”), que é desconstruída sequencia após sequencia. A escravidão moderna fica cada vez mais clara na medida em que Turner não tem tempo nem de ir ao banheiro, tampouco autonomia para levar a sua filha ao trabalho, mesmo trabalhando com seu próprio veículo. Aos poucos, vê-se que a relação trabalhista não se trata de uma parceria, mas de uma clara subordinação. O desfecho do filme, um final bastante inconclusivo, deixa no espectador o sentimento do quanto é difícil lidar com o problema atual da desregulamentação exploratória do trabalho. Entretanto, em muitos países os trabalhadores já se organizam para reivindicar soluções. Mas é importante lembrar que a história do trabalho mostra que as melhorias e direitos obtidos não caem do céu. Eles são frutos da capacidade de organização e luta da classe trabalhadora.   


Referências

 

4- RUSSEL, Bertrand. O Elogio ao ócio. Disponível em: http://tele.sj.ifsc.edu.br/~msobral/pji/ElogioOcio.pdf  Acesso em 23 abr 2020.





9- Mesa-redonda com o director do filme GIG-A uberização do trabalho: https://www.youtube.com/watch?v=eZfdM16ORY0

10- GIG – A uberização do trabalho: https://reporterbrasil.org.br/gig/

11- Link para o curta Vidas entregues (na íntegra): https://www.youtube.com/watch?v=cT5iAJZ853c


1 ano sem Maurício Tuffani: um gigante da divulgação científica, para além das redes sociais

No último dia 31 de maio de 2022, um ano se completou da morte do jornalista e divulgador científico Maurício Tuffani. Lembro-me bem da dat...